A morte do segredo de Estado

A confidencialidade dos assuntos de Estado pode esconder as coisas mais terríveis e dar azo a uma impunidade que merece bem ser desmantelada. Mas é também o que permite diálogo entre inimigos e troca de informação vital. Uma coisa é o jornalista de investigação que vai ao fundo das questões, recolhe informação, confirma informação, analiza informação, protege fontes, e publica dentro dos limites da lei e seguindo o código deontológico da sua profissão. Outra coisa é um website, como a Wikileaks, onde qualquer soldado de 23 anos meio frustrado com a vida pode divulgar documentos secretos (e outros nem sequer secretos) assim sem pensar duas vezes. Ainda por cima documentos que vão da mera cusquice política (quero lá saber que chamem Teflon à Merkel), à repetição daquilo que toda a gente já está farto de saber (a ONU é um viveiro de espiões e os diplomatas Americanos nunca, nunca são flor que se cheire), à questão muito mais grave da divulgação de negociações sobre assuntos sensíveis que só podem acontecer dentro de um clima de confidencialidade (Coreia do Norte). Esta misturada toda mostra uma triste tendência para o escândalo e o sensacionalismo.

Há quem diga que graças à Wikileaks, há agora um verdadeiro escrutínio público da coisa política, um triunfo da Verdade. Discordo. Primeiro, porque a existência do Segredo não equivale a um qualquer reino da Mentira. Forma somente um espaço do não-dito, do não-assumido, que é uma lufada de ar fresco para Governos entricheirados na rigidez de um populismo puramente doméstico (Irão). Segundo, porque a "morte" do segredo de Estado não cria um clima de transparência no mundo. Cria desconfiança e, consequentemente, mais opacidade. A confidencialidade de certas questões de Estado era o que me fazia, muitas vezes, pensar que o mundo não é tão mau como parece. Que há mais para lá do que se lê nos jornais, que há diálogo e cooperação que não assumidos publicamente, mas que existem. Acho que o mundo estaria melhor sem o Wikileaks e com mais jornalismo de qualidade. E fica aqui o meu apoio a este comentário publicado no Público (ignorando, claro está, os comentários do gloriosos leitores).

O Tuga não é Portugal

Não quero que este blogue se torne num exercício cibernético de e-ela-a-dar-no-ceguinho (o Tuga). Sou Portuguesa, falo a língua de Camões, gosto da Mariza, do Jorge Palma e do António Variações, se um dia comprar casa há-de ser em Lisboa. Mas tenho mesmo de aprender a não ler os comentários dos leitores do Público online. Ou melhor até: deixar de ler o Público online. E deixar de ver telejornais online. É que é Tuginha no seu pior. Cimeira da Nato em Lisboa: só consegui ter descrições detalhadas com mapa e tudo de rotas de comitivas e manifestações e consequentes cortes de trânsito. Ah e do material de segurança que só chegou hoje, dois dias após o fecho da Cimeira. E, claro, de como tudo isto é só uma manigância do Sócrates para distrair o pessoal dos verdadeiros problemas da Nação. E de como o Obama ainda é pior que o Bush e vá de retro a América - Satanás nuclear.

O futuro da Nato é um assunto sério e interessante. Talvez seja ave rara nos meios em que tenho andado, mas não sou alérgica a armas, nem a uniformes, não sou anti-Nato, até acho que deviam ter entrado no Kosovo mais cedo. É importante haver uma coalição de Estados democráticos (a Albânia será talvez uma excepção) com capacidade de intervenção militar. E é fascinante ver como a organização se reinventou no pós-Guerra Fria e o rapprochement com a Rússia, que esta Cimeira bem mostrou.

Percebo que haja quem discorde, mas acho que a questão merece diálogo e não gritaria. Atenção e não autismo. E merece definitivamente bem mais do que uma manifestação de jovens mascarados de palhaços.

Digam a um Afegão numa rua de Cabul ou Mazar-e-Sharif que a Nato se vai retirar amanhã. Ele vai abanar a cabeça e pensar "olha agora seja o que deus quizer" e vai para casa a pensar como é que vai conseguir pedir um visto à embaixada Americana. Digam-me por favor que, para além de manifestações dignas de Carnaval de Torres, houve conferências e mesas redondas onde se discutiu como deve ser o papel da Nato no Afeganistão. Os sucessos do treino do exército Afegão, das patrulhas conjuntas, o sentimento de segurança que a larga maioria da população em todo o Centro e Norte do Afeganistão tem consistentemente declarado nos últimos quatro anos. Mas também as disfunções da cadeia de comando, a responsabilidade por mortes de civis durante bombardeamentos aéreos, a necessidade de analisar como a presença da Nato no Afeganistão cria novas dinâmicas no conflito e de tentar identificar qual é a red line - quando é que ficar faz mais mal que bem. Digam-me que se discutiu a tão famosa cooperação civil-militar e a necessária distinção entre espaço humanitário e espaço militar. Distinção que a Nato teima que teima em não aceitar, no Afeganistão.

E há outra coisa: há uns anos, a visibilidade internacional de Portugal era basicamente do tamanho da base das Lajes, das praias do Algarve e do pernil do Figo/Ronaldo. Ou seja: parque de estacionamento, sol e bola. Nos últimos anos, tivemos um Alto Comissário para os Refugiados, um Presidente da Comissão, um Tratado de Lisboa, uma presidência da UE elogiada por muitos, uma eleição para o Conselho de Segurança da ONU e, embora talvez mais visível daqui do que daí, um enorme activismo em várias questões no seio da ONU (violência sexual em conflitos, países menos desenvolvidos etc.). Portugal é um país pequeno, mas não deixa a cadeira vazia e tem tomates para ir atrás de posições de responsabilidade. E isso devia inspirar-nos. A mim, apesar dos Tugas e dos Ipades deste mundo, inspira-me.

November Delta

No Darfur éramos quatro November Deltas (November para Nyala, Delta para pnuD). Quatro jovens que, com uma mão cheia de advogados e um insubstituível e hilariante antigo juiz, formaram a equipa mais bem rodada da região naqueles gloriosos meses de 2006-2007. Ser November Delta é ter a garra de uma alcateia de lobos à caça em pleno Inverno, é perceber-se depressa o que se está a passar à nossa volta, é aprender com os melhores e combater contra os piores (sejam eles homens armados ou colegas que se tornam num perigo de tão incompetentes que são), é rir-se cinicamente da paz no mundo, mas saber-se ver sucessos nas pequenas coisas que melhoraram a vida deste ou daquele homem, desta ou daquela mulher; é ultrapassar-se períodos difíceis por se saber porquê e para onde se vai.

Três anos depois reunimo-nos (quase) todas em Nova Iorque.

K, seguiu para o Uganda (com que tanto sonhava) e depois para a Costa do Marfim e depois veio para aqui, onde dirige o escritório de uma das maiores ONGs humanitárias. Casou-se há uns meses com um jovem que foi frequente hóspede da casa Delta em Nyala, até ter sido expulso do país por ser tão bom naquilo que fazia. Cada coisa que tenta, K consegue. Está mais calma, mais confiante, mas se o trabalho se acumula ainda se torna num monstro-que-não-há-quem-a-ature de stress. Há coisas que não mudam.

O, foi a única de nós que se atracou ao Sudão com unhas e dentes. Hoje vive em Nairobi e lidera todas as campanhas relativas ao Sudão na mesma ONG da K. Veio cá após uma longa viagem com paragens em Londres, Bruxelas, Paris e Washington, reuniões com vários ministros e inúmeras conferências de imprensa. A O aprendeu finalmente a conduzir e comprou uma casa. Ainda tem o seu palmito de cara meia Inglesa, meia Grega e uma corte de jovens à volta dela. E nunca, nunca, nunca se cala. Até eu a mandar. Há coisas que não mudam.

D, teria vindo até cá não fosse o facto de ter a córnea de um homem morto dentro do olho. O tão esperado transplante aconteceu em Agosto e está a dar-lhe uma visão que antes só conseguia ter com umas lentes que lhe custavam os olhos da cara e que saltavam para fora de 10 em 10 mins. Como naquela noite em que chegámos as duas estafadas à casa Delta, já no limite do recolher obrigatório, esganadas de fome, só para descobrir uma cozinha invadida por gafanhotos. Milhares deles. Procedemos então à batalha do milénio, botifarras contra insectos voadores e pumba pumba pumba a esmagá-los todos. Até que a filha da mãe da lente lhe sai do olho e a D: "PÁÁÁRA, PÁÁÁÁRA QUE A LENTE CAIU, OLHA QUE DOU CABO DE TI SE ME ESMAGAS A LENTE". Mas a lente estava para sempre perdida no campo de batalha e deu, com certeza, uma indigestão a uma das formigas gigantes que nos seguiam tipo máquina de limpeza industrial a devorar os corpos caídos do insectos vencidos. Enfim, não passa de uma história do passado, porque agora a D consegue ver como deve ser. Está a viver em Jerusalém (como tanto queria), onde dirige um programa de assistência jurídica aos seus conterrâneos Palestinienses. Ainda não se amancebou porque ninguém percebe o seu sentido de humor extremamente, excessivamente sarcástico e talvez porque continua a idolatrar o dia de descanso a ver DVDs ou a ler sem falar com absolutamente ninguém. Porque há coisas que não mudam.

E eu, casada que era, casada continuo, mas sem mais por dizer. E ao fim destes dias, dou por mim tristemente inquieta a perguntar-me para onde foi a minha November-Deltez.

Está quase, está quase

Já se acotovela gente à roda à roda à roda no ringue de patinagem no gelo em frente ao Rockefeller Center
Já chegou o pinheiro gigante, vindo de uma quinta no cú de judas da América
Já o estão a empipalhar com luzes e mais luzinhas, em preparação para a mítica cerimónia do acender da árvore no dia 30.
O Macy's já está engrinaldado e as vitrinas preparam-se para acolher os novos fantoches, retratando cenas da vida natalícia Americana
Perús de tamanho a fazer medo ao meu irmão Rui-quando-tinha-15-anos já dominam a ala da carne
O Starbucks já oferece eggnog-lattes em copos vermelhos e brancos
É (quase) Natal.

Eu, o Ipad e o desespero de ser Portuguesa

Trabalhei um ano e meio no Sudão.

Acompanhei, em Cartum, os primeiros passos do governo de união nacional, criado pelo acordo de paz de 2005, que pôs termo a décadas de guerra no Sul do Sudão e que prevê a organização de um referendo sobre a independência do Sul do Sudão em Janeiro de 2011. Vi a dificuldade com que os eleitos Sudistas (não) se integraram na vida política de Cartum. E fi-lo a partir da delegação da Comissão Europeia.

Visitei várias zonas dos estados ditos de "transição", zonas em situação de permanente conflito, onde etnias Sudistas e Nordistas cohabitam tant bien que mal, onde há exploração petrolífera e construção de pipelines por empresas Chinesas e onde a eventual futura fronteira entre Sudão Norte e Sudão Sul irá passar (mais abaixo diz Cartum, mais acima diz Juba).

Mais tarde, cheguei ao Darfur logo após a assinatura de outro histórico "acordo de paz" em 2006, e vi como falhou em dar representatividade política aos Darfuris e como falhou em acabar com os ataques contra certas etnias, fazendo do Darfur um novo Sul do Sudão. Vi também (e quase senti na pele) a extrema tensão entre Cartum e a ONU e as disfunções da presença internacional no Sudão.

Acho que conheço a situação no Sudão. Relativamente bem.

Antes de tudo isto, estudei direitos humanos e democratização num programa financiado e apoiado pela Comissão Europeia, que incluiu uma semana de treino em observação eleitoral.

Não é portanto de espantar que, nos últimos 4 anos, tenha esperado ansiosamente pela oportunidade de participar na missão de observação eleitoral da Comissão Europeia no Sudão. Inscrevi-me na lista de potenciais observadores Portugueses e no mês passado lá veio o tão esperado pedido de candidaturas, dirigido especialmente a quem tivesse experiência de trabalho no Sudão e treino em observação eleitoral. Mal contendo a expectativa, assinalei a minha disponibilidade ao Ipad (entidade que gere as candidaturas Portuguesas) e esperei.

Foi com incredulidade que recebi hoje um email da Comissão a dizer que fui sugerida por Portugal na LISTA DE RESERVA para a missão de observação no Sudão e que lamentam comunicar que não fui seleccionada.

É mais uma das inúmeras situações de bloqueio em me encontrei sempre que tive que passar pelo Ipad. Há dias em que tenho mesmo pena de não ter avançado para a frente com o processo de naturalização em França.

Bonita por fora, bonita por dentro



2 meses n'América

Começou assim, resfalfamento na praia a 45 min de casa.

Depois veio o 3 de Outubro, dia da reunificação Alemã, com direito a bandeira luminosa no Emipre State Building. (vou dizer-lhes do dia de Camões)

Depois veio o Halloween. Casanova e sua mulher dominaram hangares desafectados de Brooklyn até altas horas da madrugada, armados com as suas máscaras Venezianas originais. (a foto não faz jus à indumentária da mulher do Casanova, que incluia um vestido preto todo aberto à frente, cintura abaixo, mini shorts, collant-rede maravilha e bela bota de salto alto até ao joelho que bem me torturou os calos)

E agora são as folhas a mudar e as cores de um Outono perfeito, digno de livro de histórias infantis.