No Darfur éramos quatro November Deltas (November para Nyala, Delta para pnuD). Quatro jovens que, com uma mão cheia de advogados e um insubstituível e hilariante antigo juiz, formaram a equipa mais bem rodada da região naqueles gloriosos meses de 2006-2007. Ser November Delta é ter a garra de uma alcateia de lobos à caça em pleno Inverno, é perceber-se depressa o que se está a passar à nossa volta, é aprender com os melhores e combater contra os piores (sejam eles homens armados ou colegas que se tornam num perigo de tão incompetentes que são), é rir-se cinicamente da paz no mundo, mas saber-se ver sucessos nas pequenas coisas que melhoraram a vida deste ou daquele homem, desta ou daquela mulher; é ultrapassar-se períodos difíceis por se saber porquê e para onde se vai.
Três anos depois reunimo-nos (quase) todas em Nova Iorque.
K, seguiu para o Uganda (com que tanto sonhava) e depois para a Costa do Marfim e depois veio para aqui, onde dirige o escritório de uma das maiores ONGs humanitárias. Casou-se há uns meses com um jovem que foi frequente hóspede da casa Delta em Nyala, até ter sido expulso do país por ser tão bom naquilo que fazia. Cada coisa que tenta, K consegue. Está mais calma, mais confiante, mas se o trabalho se acumula ainda se torna num monstro-que-não-há-quem-a-ature de stress. Há coisas que não mudam.
O, foi a única de nós que se atracou ao Sudão com unhas e dentes. Hoje vive em Nairobi e lidera todas as campanhas relativas ao Sudão na mesma ONG da K. Veio cá após uma longa viagem com paragens em Londres, Bruxelas, Paris e Washington, reuniões com vários ministros e inúmeras conferências de imprensa. A O aprendeu finalmente a conduzir e comprou uma casa. Ainda tem o seu palmito de cara meia Inglesa, meia Grega e uma corte de jovens à volta dela. E nunca, nunca, nunca se cala. Até eu a mandar. Há coisas que não mudam.
D, teria vindo até cá não fosse o facto de ter a córnea de um homem morto dentro do olho. O tão esperado transplante aconteceu em Agosto e está a dar-lhe uma visão que antes só conseguia ter com umas lentes que lhe custavam os olhos da cara e que saltavam para fora de 10 em 10 mins. Como naquela noite em que chegámos as duas estafadas à casa Delta, já no limite do recolher obrigatório, esganadas de fome, só para descobrir uma cozinha invadida por gafanhotos. Milhares deles. Procedemos então à batalha do milénio, botifarras contra insectos voadores e pumba pumba pumba a esmagá-los todos. Até que a filha da mãe da lente lhe sai do olho e a D: "PÁÁÁRA, PÁÁÁÁRA QUE A LENTE CAIU, OLHA QUE DOU CABO DE TI SE ME ESMAGAS A LENTE". Mas a lente estava para sempre perdida no campo de batalha e deu, com certeza, uma indigestão a uma das formigas gigantes que nos seguiam tipo máquina de limpeza industrial a devorar os corpos caídos do insectos vencidos. Enfim, não passa de uma história do passado, porque agora a D consegue ver como deve ser. Está a viver em Jerusalém (como tanto queria), onde dirige um programa de assistência jurídica aos seus conterrâneos Palestinienses. Ainda não se amancebou porque ninguém percebe o seu sentido de humor extremamente, excessivamente sarcástico e talvez porque continua a idolatrar o dia de descanso a ver DVDs ou a ler sem falar com absolutamente ninguém. Porque há coisas que não mudam.
E eu, casada que era, casada continuo, mas sem mais por dizer. E ao fim destes dias, dou por mim tristemente inquieta a perguntar-me para onde foi a minha November-Deltez.
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