Tempo

Houve dias, há uns meses atrás, em que pensei que ia derreter, em que desesperava com o véu à volta do pescoco e da cabeca que me fazia escorrer o suor para cima do teclado do computador. O Verao Afegao é bem mais quente que o Verao Sudanes, por incrível que pareca.

Mazar tem uma pequena cadeia de montanhas a Sul, mas sentido Norte está tudo aberto. Para Norte está o Uzbequistao e a Sibéria. Nao sei porque é que esta situacao geográfica nos traz tanto calor, mas percebo que nos traga um frio que uma pessoa até estala em meros fins de Outubro.

Num clima tao extremo, seria de esperar que as construcoes locais fossem "inteligentes". Mas tal como já tinha concluído no Sudao, depois de tentar em vao adormecer num "tukul" (cabana redonda com muros de lama seca muito baixinhos e um telado de palha bicudo muito alto), tal expectativa é sempre frustrada. A marca de estilo das boas casas Afegas, como a nossa, sao umas enormes janelas com ladrilhos de madeira. No Verao entra por ali Sol e calor que nunca mais acaba. No Inverno as paredes gelam... e nós com elas:

(a nossa casinha)

Há duas semanas já tive que por na cama o super edredon extra calorífico que trouxemos da Ikea. Temos um aquecedor electrico que arrasto comigo para todo lado. E estamos em processo de instalar a real fonte de calor: fornos a diesel. Só de pensar em dormir com diesel a queimar ao meu lado dá-me agonias. Mas toda a gente jura que jura que é seguro. Fornos a diesel podem ser os dali da tenda ao lado da do miúdo dos pneus, feitos de chapa batida, ou... Luxo dos luxos, podem ser fornos fabricados por uma das últimas marcas da Alemanha de Leste ainda existentes. A chaminé para o escape do fumo, é que nao há nada a fazer, tem de ser feita localmente. Tenho um senhor a fazer idas e voltas a minha casa todos os dias para tentar acertar com a medida da chaminé. Sempre que vem nao traz fita métrica, de maneira que avalia as medidas com palmos de maos. Já me trouxe tres chaminés de tamanho errado. E um filme.

No escritório, nao há aquecimento. Hoje trouxe uma mantinha de casa para me aquecer o pernil.
Tenho frio.

Casar

Uma mulher no Afeganistao tem uma existencia funcional. Nao quer dizer que nao pense ou que nao sinta por si mesma, mas a base pela qual todas se definem primeiro é a sua posicao em relacao a outros: filha, noiva, esposa, mae, sogra, avó.

Naturalmente, casar é um enorme passo. E o que realmente marca a passagem à vida adulta, o momento em que se passa da passividade à iniciativa: diz-se que sim ao futuro marido, faz-se um bébé, decide-se o que comer para o jantar…

A melhor ilustracao desta passagem é o ritual de noivado. Muitos casamentos sao pre-organizados dentro da família, entre primos. Mas muitos sao também organizados fora da família. E esses sao os mais interessantes. Com universidades mixtas e mulheres a trabalhar em sítios públicos, observar potenciais mulheres/maridos tornou-se mais fácil. Entre os 20 e os 25 anos, a populacao solteira observa-se, como quem rodeia o carro que pensa comprar. Segue-se um protocolo de (nao)comunicacao estrito: raparigas nao discutem com ninguém o interesse noutro rapaz. Os rapazes nao comunicam directamente com a rapariga que tem em olho. Falam discretamente com um amigo que é irmao de uma amiga da rapariga, e a amiga da rapariga diz à rapariga “olha aquele está interessado em ti”. A rapariga diz, invariavelmente, “nao nao quem decide é o meu pai”. E ambas mudam de conversa – missao cumprida, a mensagem passou. Se uma ocasiao se apresenta, o rapaz traz a mae e o pai a um sítio onde possam observar a dita rapariga – o casamento de um vizinho, a entrega dos diplomas na faculdade… Se o estilo e a graca agradarem, os pais do rapaz concordam em pedir a mao da rapariga ao pai dela. Fazem uma visita a casa da rapariga e pedem par ver o pai. Discutem a proposta, fixam o preco (uma mulher compra-se), e vao-se embora. A este ponto, há pais que decidem sem consultar a filha. Mas o mais frequente, aqui no Norte, é o pai fazer também de mensageiro e perguntar à filha o que é que ela quer fazer. Nesse caso, a filha pode dizer que sim ou que nao. Mas ó o pai é que pode dar a resposta à família do rapaz. Quando a resposta é dada, celebra-se o noivado, e só entao é que o futuro casal pode comunicar directamente. A rapariga passou de filha a noiva.

Mesmo com as recentes mudancas na sociedade, jovens mulheres em sítios públicos, a possibilidade de se observar mutuamente… As mulheres nao se casam por amor. O amor é uma coincidencia. O espectro de escolha que tem é sempre restrito, porque só os rapazes é que podem tomar a iniciativa. Se acaso o jovem de quem elas gostam tanto lhes aparecer em casa com a família, é dia de festa. Festa mental, claro – a rapariga nunca exprime felicidade pelo casamento, isso seria faltar ao respeito à sua própria família. Tirando esses casos de sorte, as mulheres casam-se balancando pros e contras. Nao buscam o ideal, buscam o melhor possível.

No dia em que finalmente decidem dizer ao pai que diga que sim a um pretendente, passam de meninas a adultas, mas esse é também o dia em que se alienam de vez. Dizer que sim a um é dizer que nao a todos os outros. Com o noivado, fechou-se a porta da possibilidade. Possiblidade de outra vida com outra pessoa, com uma outra família, num outro sítio, possibilidade que os pais daquele de quem se gosta aparecam um dia à porta de casa.

A minha colega F. está exactemente neste ponto. Um amor secreto e impossível por um rapaz, cuja mae insiste peremptoriamente em acasalar a uma prima. Pelos compexos canais de comunicacao, a F sabe que ele também gosta dela, mas que nao há meio de convencer a mae. Há anos que a situacao está em águas de bacalhau. A F já disse ao pai para dizer que nao a mais de 10 pretendentes. Mas hà umas semanas, o pretendente foi um colega de faculdade que ela conhece bem, de quem é amiga, um rapaz de horizontes abertos que nunca a vai proibir de trabalhar, com uma família pequena e simpatica e até um palmito de cara.

A F esteve presa na dúvida entre o ideal impossível e o melhor possível durante semanas: nao posso esperar por ele para sempre… Se nunca tivesse sentido isto por ninguém, se nao soubesse o que é sentir isto, seria mais fácil decidir.

A F noivou-se oficialmente com o colega de faculdade há dois dias. Hoje perguntou-me: “love will come, right?” (o amor virá, nao?)

Jovens mulheres

As minhas colegas de trabalho sao jovens mulheres mais ou menos da minha idade. Todas elas viveram vários períodos de guerra e todas elas perderam 5 anos de vida entre 1996 e 2001, enquanto os Talibas estiveram no poder. Nao puderam ir à escola, nao puderam trabalhar, nao puderam sequer sair de casa. Estas jovens mulheres praticamente nao viveram entre os 15 e os 20 anos.

A F. vem de uma família de etnia Tadjique e tem 9 irmaos e irmas. Durante os Talibas, o pai dela decidiu mudar a família toda para a regiao de origem da família: o Badakhshan. Badakhshan é a provincia que fica no extremo Nordeste do Afeganistao, com um corredor fininho que se estende até à infima fronteira com a China. E uma provincia de montanhas e de neves eternas, com sítios tao remotos que nunca viram presenca humana e que os Talibas nunca conseguiram controlar. E uma província com uma populacao recolhida, forte, habituada ao sacrifício, que produziu no entanto uma legiao de poetas e escritores famosos no Afeganistao. A F. escapou aos Talibas passando 5 anos no extremo isolamento da sua província Natal, com aulas improvizadas em casa dadas pelo pai. Assim que os Talibas cairam, F e a sua família voltaram para Mazar-e-Sharif. Hoje a F é Administradora do meu escriorio e professora de Ingles na faculdade. Tem 25 anos.

A FA é também Tadjique. Durante o período dos Talibas, a FA ficou em Mazar, no extremo isolamento dos quatros muros da casa familiar. Com coragem organizou sessoes de costura em casa, onde vizinhas ainda mais corajosas se aventuravam para nao darem em loucas sempre em casa e para ganharem um dinheirito com o que fosse que conseguissem bordar e que os homens da casa conseguissem vender. Para fazerem os poucos metros de suas casas para a casa da FA tinham de arranjar um homem para as acompanhar porque mulheres nao podiam andar na rua sozinhas. Tinham também que ser discretas à entrada, porque iniciativas colectivas com qualquer cariz educativo ou laboral que fosse eram também proibídas para as mulheres. Hoje a FA tem 27 anos e é a advogada da minha ONG. Nao tem a mente mais rápida do mundo, mas tem os tomates que faltam a muitas mulheres mais inteligentes. Fala muito, de maneira confiante e vai para o tribunal sem medo defender o caso de mulheres "impuras" que fugiram de casa porque os maridos lhes batiam diariamente ou porque os pais as queriam casar à forca.

A R é de etnia Hazara. Os Hazaras sao Shiitas, com um facies muito asiático e uma reputacao de efeciencia e esperteza. Sao também um etnia tradicionalmente perseguida e discriminda no Afeganistao e, por essa razao, estao associados a trabalhos duros e subservientes (recolha de lixo, limpeza das ruas, criados). Os Talibas adoptaram uma política próxima da limpeza étnica em relacao aos Hazaras e muitos deles foram massacrados. Pouco antes dos Talibas chegarem ao poder, a R e a sua família fugiram para o Irao. Lá ficou anos e anos, casou-se aos 18 com um homem mais velho, teve um filho e uma filha. Acabou a escola, mas depois nao estudou mais. Com a partida dos Talibas, R, o marido, os filhos e cunhado, a cunhada e a sogra decidiram voltar ao Afeganistao e estabeleceram-se em Mazar, num bairro onde toda a gente se parece com eles – outros Hazaras. A R comecou a trabalhar como "assistente social" na minha ONG, a aconselhar mulheres com problemas de violencia doméstica. A R é profundamente (e honestamente) religiosa, tem uma voz suave, um sentido de justica profundo e aparenta um estado de calma constante. Distinguiu-se de tal forma que passou a ser a chefe da safe house (a casa gerida pela minha ONG, onde mulheres podem ficar em caso de emergencia). Das 5h às 8h da noite, a R vai para a faculdade estudar direito e ciencia política. A faculdade é longe de casa e a R tem sempre dificuldade em arranjar um taxi que a leve a casa. De vez em quando diz em tom de gozo uma piada que nao passa na cabeca de nenhuma mulher dizer: que vai tirar a carta e comprar, nao um carro, mas um Saranj (uma motinha de caixa aberta) para poder vir para casa à vontade. Na ONG, a R. superviza tres assistentes sociais mais velhas que ela e é responsável por uma média de 12 mulheres em estado de depressao intensa, algumas em real risco de suicídio. As assistentes sociais nem sempre reconhecem a autoridade da R. Chegam atrasadas ao trabalho, recusam-se a trabalhar horas extra.
E a R desdobra-se em quatro para estar em todo o lado. A R tem as notas mais altas do ano dela e é a única no escritório que percebe a diferenca entre violacao e adultério. Estou neste momento a convence-la a nao se despedir. Tem 27 anos.

A N., é de étnia Tadjique e tem um pai exageradamente controlador. Durante os Talibas, a N nao saiu de casa. Teve a ocasional aula, para nao perder a capacidade de ler e escrever, mas nada mais. Foi um período completamente perdido. Quando os Talibas caíram a N. Tinha 16 anos. Insistiu em voltar à escola e estudar na faculdade. O pai lá deixou, ciente que sem educacao nao se é ninguém. Hoje a N. tem um diploma de Ingles, trabalha como intérprete na minha ONG e, tal como a F., dá aulas na faculdade. Depois do trabalho, a N. tem que ir sempre directa para casa, para limpar a casa e cozinhar para 12 pessoas. O pai só a deixa estar fora de casa o tempo estritamente necessário para o trabalho. Durante o Eid, a N. foi a única que nao fez a corrida das casas dos colegas connsoco, porque o pai nao a deixou sair de casa. A N. é a que tem a mente mais aberta e a maior capacidade intelectual aqui no grupo de colegas. Nao tem pressa em casar, embora seja a única maneira de sair de casa, porque pode ser pior a emenda que o soneto se o marido for um idiota. Por isso vai com calma. Ofereceram-lhe uma bolsa de estudo para um Master na Turquia, mas o pai nao a deixou ir. A N. aceitou porque nao respeitar o pai nao é uma libertacao, é perder os parametros com viveu a vida toda e perder-se um pouco a si mesmo também, e porque a verdade é que a ideia de ir para outro país assim de repente a aterroriza. Mais tarde talvez. Vai com calma. Quando fala dos problemas do Afeganistao, a N. insiste escrupulosamente em desdobrar o caleidoscópio do ser e do parecer: uma mulher que foge de casa é uma mulher desesperada, mas a sociedade (incluindo algumas das colegas aqui do escritório) ve-a como uma pecadora e o pecado é visto como um crime no Afeganistao, mesmo que nao esteja na lei, por isso poem-na na prisao, percebes Filipa-jan? Ninguém mais neste escritório tem a capacidade de formular uma análise assim. A N. nunca saiu de Mazar-e-Sharif. No outro dia estava no carro que me levou a casa. A minha casa fica no extremo Este da cidade e eu ia falando do quao gosto do meu bairro. Quando lá chegámos, a N. disse: obrigada, nunca tinha vindo até tao longe em Mazar. Tem 23 anos.

Eid mubarak

Voltei a Mazar há uma semana. Tentei passar o máximo tempo possível de Setembro fora do Afeganistao para escapar ao Ramadao. E o terceiro Ramadao que vivo e é sempre uma experiencia dificil. Restaurantes e lojas fechados e ninguém com mais de 12 anos come nem bebe do nascer ao por do sol, com a ocasional e temporária excepcao de viajantes, doentes, mulheres menstruadas (dado que, claro, estao impuras) e a total excepcao de infiéis - como eu. O problema é que, na práctica, ninguém come nem bebe à frente dos outros e eu, mexilhao que sou, ou me escondo debaixo da mesa com uma garrafa de água ou lixo-me. Portanto fugi daqui porque já sei o que a casa gasta.

Voltei mesmo no fim do Ramadao para o Eid. Há dois Eids no Islao: Eid-el-Fitr, que marca o fim do Ramadao, e Eid-el-Adha que marca uma história comum às tres religioes monoteístas: o quase sacrifício de Isaaq (ou Ishmael) por Abraao (ou Ibrahim). O Eid-el-Fitr sao tres dias em que se festeja com família e amigos, veste-se roupa nova e come-se comidas especiais. E um pouco como o Natal para nós.

A realidade, no entanto é um pouco diferente. Basicamente o Eid é uma maratona de visitas, nozes e chá. Batemos à porta do amigo ou familiar, dizemos Eid Mubarak, entramos, somos rapidamente encaminhados para a sala de convidados que existe em toda casa Afega, sentamo-nos à frente de uma exposicao de bolos, rebucados, nozes variadas, servem-nos chá e bebemos e comemos durante 10-15 minutos. Depois levantamo-nos dizemos obrigada, adeus e vamos embora. O estranho é que, para além do olá e adeus, ninguém diz nada. Nao se conversa. Nao se ve sequer o resto da casa e dos residentes da casa.

Fiz isto seis vezes na Sexta-feira passada. Ao fim do dia a minha colega pergunta-me se também temos esta tradicao de visitar pessoas numa ocasiao especial, no meu país. Eu disse que nao, e é verdade que nao. E ao dize-lo pensei, bolas, até parece que somos mesmo individualistas na Europa. Mas pera aí, alto lá e pára o baile... Nao temos maratonas de visitas, mas há mais conversa e diálogo numa noite de Natal em Portugal do que em tres dias de Eid aqui.

E a diferenca entre quantidade e qualidade.