Observacoes de quem esta prestes a deixar NYC

Gosto de ir no metro a olhar para os dedos anelares das jovens para ver quem ostenta o tradicional anel de noivado Americano, com diamante de custo e tamanho tres vezes superior ao salario do futuro marido.

Gosto de ouvir as rebuscadas pedidas de cafe no Starbucks: "tall vanilla latte no foam no spice" (cafe com leite e essencia de baunilha sem espuma, sem especiarias polvilhadas por cima e de tamanho pequeno), "venti skim caramel machiatto" (cafe com leite magro e caramelo de tamanho grande), "grande dulce de leche frappucino with a shot of vanilla and no cream" (leite condensado com cafe, em gelo picado, com essencia de baunilha extra e sem chantilly, de tamano medio).

Gosto de me rir ao confirmar, incredula, sempre que chuvisca, que a galocha esta na moda: verde caki classico, coracoezinhos brancos em fundo vermelho, estampado Burberry... ostentadas com qualquer vestimenta - saia e tailleur, vestido, calcas e blazer - e de me lembrar que em Outubro, quando ainda estava sol, a moda era do chinelo de enfiar o dedo ostentado tambem com qualquer vestimenta.

Gosto de notar todas as Quintas-feiras que todos os homens de religiao Judaica - e ha muitos - poem a kippa na cabeca nao sei porque (o dia deles nao e o Sabado?) e de pensar mais uma vez: nesta cidade quase todos os homens sao circuncizados, que exotico!

Pena de morte: a passos de um dia historico

Hoje foi um dia historico. Pela terceira vez na Historia, o terceiro Comite da Assembleia Geral da ONU esta a considerar uma resolucao para um apelo universal a um moratorio sobre a pena de morte. Nunca uma resolucao assim conseguiu ser passada na Assembleia Geral.

Hoje, comecou um longo voto nas 14 emendas sobre o texto, propostas com intencao de o destruir.
E foi com o peito apertado, tremor e suores frios que vimos a luzinhas dos votos acenderem-se no painel do plenario... E as 10 emendas que foram votadas hoje serem rejeitadas por maioria, conservando assim o texto negociado com tanto suor pela Uniao Europeia e outros paises da America e de Africa.

Amanha acaba-se o voto no resto das emendas e vota-se na Resolucao. Cruzam-se os dedos.
Quem tiver paciencia, e quem quizer ver onde trabalho todos os dias, pode ver o webcast da ONU. Eu sou a gaja de branco, sentada na mesa la de tras de todas, ao lado da janela, do lado esquerdo, que aparece ao minuto 1:17:40!!!!

Nyala decapitada

Estava aqui calmamente a ouvir radio, quando anunciam a expulsao do chefe da Coordenacao Humanitaria da ONU em Nyala. Ele era um pilar para todos, expatriados, nao-expatriados, deslocados... Foi a pessoa que tirou o staff das ONG e da ONU da cadeia as 2h da manha, naquele fatidico 19 de Janeiro. A pessoa com quem desabafei tanto, tantas vezes. Ja se esperava que isto acontecesse e, de certa maneira, ate e uma honra ser-se expulso pelo governo Sudanes. E sinal que se estava a fazer bom trabalho. Bom demais.
Eh pa, isto aqui, as vezes, um gajo olha pra eles e so pensa assim


Finalmente! Hoje consegui ir buscar a roupa a lavandaria

Alouinne

Hoje no metro, tive uma deveras sexy "nurse Betty" sentada a minha frente. Ao lado dela estava a menina de liceu de totos, cinto de ligas e quatro botoes da camisa desapertados. Ao lado dela estava a bruxa de chapeu pontiagudo. No metro na via "express" junto a nossa, o Darth Vader acenou-nos um adeus solene enquanto a sua carruagem ultrapassava a nossa. Na carruagem seguinte, o Teletubby azul fez-nos uma careta e deixou-nos para tras.

Proclamacao

Proclamo o direito humano a roupa lavada.

Pores de sol em Nova Iorque





A cena da city that never sleeps (ta na na na and find I'm king of the hill) e uma gigantesca tanga. Nao consigo lavar roupa depois das 9 da noite. Tudo por causa de um moratorio na pena de morte que nao ha meio de ser parido a horas decentes. E entretanto quem pena sou eu.

Fim de semana estatistico

Numero de Caramel Macchiatos: 2
Numero de Caramel Frappuchinos: 4
Numero de Kilometros caminhados: 40
Numero de paginas lidas: 98

Gostei do meu primeiro fim de semana em Nova Iorque, mas infelizmente ainda nao consigo descrever mais do que estatisticas. Nao sei se sou eu ou se e a cidade, mas nao sinto interaccao nenhuma. Gosto de estar aqui, nao me sinto excluida ou estrangeira, mas nao ha nenhum senhor no metro a caminho do cemiterio que comente o meu chou.

Primeira bez n'Ameeerica

Impressao geral:
Nova Iorque e assim como assim graaaande e muita alta. O meu escritorio e num 21 andar e mesmo assim nao vejo nem um niquinho de ceu. So predios, predios, predios e maiores c'o meu. O elevador anda tao depressa que ate tenho que fazer assim, tao a ver, com o o queixo para desentupir os ouvidos.

Ruas:
Adoro as ruas. O speed da marcha aqui e o dobro do de Londres.

Gente:
Toda a gente fala Amaricano, o que se resume a:
- subsituicao de "t" por "r" - you know wharImean?
- utilizacao de superlativos associados a negacoes - I'm sooo not gonna ler you go there
- vogais fechadas e nasalizadas - theeiieere e nao thaar
- enfase, e porem superficialidade, em emocoes e vida pessoal - "it's just that I feel we're in different places right now"
- paternalismo atraves de entoacao que sobe (sobe balao sobe) progressivamente ate a ultima palavra, habitualmente acompanhando-se de um ligeiro franzir de nariz.
Mas sao simpaticos eles, coitaditos. Assim muito prestaveis, como se o mundo inteiro fosse um cliente que se quer agradar. E giro.

Casa:
Ja encontrei casa, numa zona que e da best e chama-se Nolita. Como a Lolita mas com Ne. Mudo-me para la na 2a feira. Ate la tenho um quartinho num apartamento-cave em Harlem; tao longe que o senhor das bagagens nem encontrava a rua ontem a noite, mas tao perto de uma linha de comboio que so consigo dormir de sono profundo entre as 02h e as 05h da manha. Mas nao faz mal, que bou pra Nolita nao tarda um nico.

Telefone:
Aqui n'Ameeeirica cobram dinheiro por chamadas atendidas vejam la. Mas mesmo assim, em breve terei um mooobaiile para me poderem arruinar.

Amanha:
Amanha conto-vos do meu trabalho.

NYC

Vou para Nova Iorque nao tarda um nico, assim que me derem o Visto.
Vou andar depressa em ruas cheias de gente
Vou usar roupa extravagante sem medo
Vou ver neve em arranha-ceus
Vou patinar no gelo em frente ao Rockefeller Centre
Vou ao Met
Vou ao MoMA
Vou estar na ONU todos os dias
Vou beber caramel machiato no Starbucks
Vou correr no Central Park
Vou explorar Brooklyn
Vou jantar as 04h00 da manha
Vou ter um apart so para mim
Num edificio assim:

Ceguinha

Bem me parecia que estava a ver o mundo um pouco desfocado. Fui ao senhor ali da casa dos oculos e ele pos-me aquela maquina muita grande com oculos gigantes com 7 ou 8 camadas de lentes diferentes.
O que e que consegue ler ali?
Nada
E agora?
Nada
E agora?
Vejo um V - que pronunciei "V" ai nao: "faau" como se diz em Alemao e desconfundi o senhor. Ja e mau nao ver, mas ser analfabeta e demais.
E ainsi de suite letra a letra, ao fim da oitava camada ja conseguia ver qualquer coisa.
Quando ele me disse a nova graduacao quase que me deu assim um xelique: toda a vida tive uma prgressao regular da cegueira 0.25-o.50 por ano. No passado ano e meio passei de -3.50 a -4.50.

Cegueira. E o preco a pagar por ser a ultima leva de quatro crias. Ja so havia restos de genes.

Nervous Shock

Descobri que se um condutor vier desparado a guiar que nem um maluco e eu apanhar um susto tal (ai que ate me assustei) que pensei que ia morrer e, embora nao tenha nem um arranhaozito, fico com insonias, pesadelos e entro em depressao, posso por o gajo em tribunal e ganhar uma pipa de massa.

Se eu estiver no fim da rua e vir o condutor maluco atropelar o meu irmao, sem sentir medo de ser eu propria atropelada, e desenvolver naturalmente uma patologia psiquiatrica posso por o homem em tribunal tambem, mas so se tiver prova que tenho lacos de amor e afeicao com o meu irmao, dado que, como e obvio, a velha historia de Abel e Caim impede o tribunal de presumir tal relacao afectiva entre irmaos.

Cidades

Gosto de cidades grandes. Daquelas que nos fazem andar depressa e decididamente. Cabeca para cima, olhar para a frente senao cair (empurrada por outro peao). Parece violento mas a verdade e que estimula o corpo e a mente, cria agilidade fisica e mental: acelerar ligeiramente o passo para ultrapassar a familia com dois miudos antes da rua estreitar ali a frente e conseguir, nesses tres segundos, apanhar uma frase da mae para os filhos, notar o olhar triste da rapariga que ali vem, notar a impaciencia do homem na paragem de autocarro, pensar logo e isto que me espera, e entrar num apice no edificio que e o nosso destino - sem hesitacoes, sem perdas de Norte, com a sensacao de se pertencer ali.

Gosto do estado de alerta em que me poe uma cidade rapida como Londres. Passada a fase de aclimatacao, sinto que posso conquistar o mundo.

1 ano

Faz hoje um ano estava eu a tentar nao escorregar e cair no chao (no joelho ficou um doi-doi, no nariz um arranhao) com a Valsa da Amelie, a tentar nao chorar com o relato da carbonara e dos livros do Ruanda do meu recente adquirido e espectacular marido e com a sensacao de perfeicao que envolveu aquele dia.

Um ano depois, deixei o Darfur e o Sudao e a vida de nomada para finalmente viver ao vivo e cores o que e ser casada.

Tive so que fazer um desviozito por Londres esta semana para comecar tambem a ser advogada. Nao tive tempo para desfazer malas como deve ser e estou a celebrar o aniversario a 1.600 Km do respectivo, a ouvir falar de "equity" e "trusts" e tratarem-me de "Counsel". Mas e so um desviozito!... Ou sera um tipico aniversario Schmitz-Guinote?

Tirem-me deste filme - parte IV

Tudo isto, e muito mais, aconteceu num so dia.
Ninguem vai correr com ela dada a existencia de uma obscura rede de influencia que lhe esta a manter as costas quentes.
A "chefe" ganha 100.000 Dolares por ano, isentos de impostos.

Tirem-me deste filme - parte III

O campo de deslocados de Kalma esta em ebulicao, desde que a policia entrou la dentre em forca (pela primeira vez em dois anos) e deteve varias dezenas de pessoas acusando-as de um ataque contra um posto de policia noutro campo de de deslocados. Os nossos advogados estao a representar os individuos detidos. Para alem disso, os nossos voluntarios para-juridicos de Kalma, altamente politizados e anti-governo, estao em greve e rebulico interno e provavelmente a liderar a ebulicao no campo (sim, criamos um monstro).

15:00: toca o telefone e diz um colega de outra agencia, porque e que voces nao vieram a reuniao extra-ordinaria organizada pelas autoridades hoje de manha sobre a situacao em Kalma? Estava la a vossa "chefe" mas ela nao sabe nada sobre o assunto...
- reuniao? que reuniao? ela nao nos disse que havia haver reuniao. E ainda nao achou por bem ao menos vir-nos dizer o que as autoridades disseram na reuniao sobre o que se esta a passar no campo.

18:00: a "chefe" ainda nao nos disse nada sobre a reuniao.

20:00: a "chefe" continua a nao nos dizer nada sobre a reuniao.

20:30: sai mais um email de queixa para Khartoum.

Tirem-me deste filme - parte II

14:00: reuniao com dois comandantes do SLA/MM - desgracada faccao rebelde que assinou o "acordo de paz" em 2006 e que supostamente e parte do governo de uniao nacional - que querem que organizemos eventos para difundir mensagens de direitos humanos e estado de direito as comunidades nas areas sob controlo deles, coisa que estamos a abordar com extrema precaucao, dado o estatuto dubio do SLA/MM.

- Comandante: as comunidades nas nossas areas estao muito isoladas e ainda influenciadas pelos combates. Por isso precisamos de comecar a instigar discussao sobre direitos humanos e tolerancia para tentar repor um pouco de normalidade, sobretudo para os ex-combatentes que tem dificuldade a reintegrar-se na comunidade.
- "Chefe": diga la, voces tem criancas-soldados?
Silencio. Gela-me o sangue. Olho incredula para a minha colega ao lado da "chefe", igualmente esbugalhada, que prontamente evitou a traducao da frase e mudou o assunto antes que a "chefe" perguntasse diga la, voces torturam prisioneiros? violam mulheres?

Tirem-me deste filme!

09:30 da manha: Reuniao com os Sufis - um grupo religioso - para discutir a organizacao de um evento para chamar a atencao para o problema da violencia contra mulheres.

- Diz a minha colega: um dos problemas que temos vindo a notar atraves do trabalho dos nossos advogados, e que ja discutimos com varios leaders Sufi no passado, e que as mulheres que sao violadas tendem a nao falar sobre o que se passou por medo de serem estigmatizadas pela propria comunidade onde estao inseridas.
- Responde o Sufi: nao isso nao e verdade. Primeiro, nao ha violacoes no Darfur. Segundo, o que acontece e que quando uma mulher tem relacoes com um homem que nao e seu marido, isso e considerado adulterio na lei Islamica e como tal punido severamente e visto como uma grande deshonra para a comunidade.
Cai o queixo a minha colega.
- Intervem a nossa "chefe": entao, prontos, vamos la ver. Os Sufis sao um grupo muito importante na comunidade, por isso este evento podera ter um grande impacto se os Sufis falarem sobre mulheres no seus sermoes para a comunidade.
A minha colega tenta gritar, tenta um movimento violento, mas a furia e a estupefaccao sao tais que fica imobilizada e quase atinge suicidio por apneia.

11:00: reuniao interna sobre como prosseguir para o evento com os Sufis
- Diz a minha colega: a discussao de hoje foi bastante preocupante, dado o que eles disseram sobre a inexistencia de violacoes e a questao do adulterio... E importante que alarguemos o evento a outros intervenientes, para que haja realmente discussao sobre o assunto. Para alem disso, e preocupante a ideia de irmos sanccionar sermoes religiosos sobre o dver islamico das mulheres de nao deshonrarem a comunidade... Por isso temos que planear bem o curso e os temas da discussao.
- Responde a "chefe": sim, sim, claro, claro, ja temos estado a planear tudo muito bem, mas podemos ter toda a confianca nos Sufis, eles sao visionarios.
Palidez a volta da mesa. Revolta. Incredulidade.
- Tenta outra vez a colega: ok. entao o que e que planeaste ate agora para este treino.
- Responde a "chefe": bem, para ja, fixamos a data do evento para daqui a duas semanas. Para alem disso, estamos a recrutar um coordinador de treino a tempo inteiro para o nosso projecto.
- A minha colega: mas esse coordinador de treino ja esta envolvido na programacao deste evento, dado que a data esta fixada para daqui a duas semanas?
- "chefe": nao, nao ainda temos que fazer as entrevistas aos varios candidatos e mandar o processo para Khartoum para aprovacao, so depois e que o coordenador vem.
- Colega: isso demora uns bons dois meses. Portanto prometeste uma data proxima para um evento sobre violencia contra as mulheres, cujo o exacto conteudo nao planeaste, com um grupo religioso que afirma nao haver violacoes no Darfur?

Jebel Marra

Jebel Marra e um sitio mitico do Darfur.
E ali aquela mancha castanha perto da fronteira com o Tchade.









Um enorme e velho vulcao que se enche de agua e verdura quando as chuvas comecam. E a origem de toda a agua existente no Darfur, de todas as plantacoes, de toda a vida. E tambem a terra dos Fur e do SLA, um dos primeiros movimentos rebeldes do Darfur.
Desta vez, os fantasticos pilotos do helicoptero que voa todas as semanas de Nyala para Zalingei, tiveram a ideia de desviar a rota ligeiramente e sobrevoar Jebel Marra a baixo voo, serpenteando entre as montanhas e baixando ate ao fundo da cratera. E o que os passageiros boqueabertos, entre os quais eu mesma, viram foi isto, mas em mais verde e com mais agua:

Talvez sejam precisos meses e meses de Darfur, de paisagem plana, de calor e de seca, para conceber o efeito que faz ver Jebel Marra na estacao das chuvas.

Quando a guerra acabar talvez ca volte, de mochila as costas, tenda e botas de randonee para ver o ceu estrelado do meio do coracao do Darfur.


Stevie Wonder. Sem sombra de duvida.
Telemovel desligado.
Copo de agua para aclarar a voz apos varias chavenas de cafe.
Uma enorme mesa com dezenas de folhas de papel minuciosamente expostas por tema e ordem.
Telefone a dez centimetros de mim.
Tecnica de respiracao e relaxacao em curso. Inspira - expiiiiiiiiiiiiira.
Toca o telefone.
"Hello?"
Puro sotaque Britanico.: "Hi Filipa, this is the Children's Legal Centre, are you ready for your interview?"

Foi ontem... a primeira entrevista de trabalho da minha vida.

Manifest Day

É hoje! É hoje! O Dia do Manifesto.
Trinta mil coisas para acabar, alinhavar, handover note-ar, sem tempo para comer, para ir à casinha, desde as 8h da manhã a carburar adrenalina...
Até às 16h da tarde, hora da verdade.
É hora de ir ver o Manifesto dos vôos das gloriosas linhas aéreas humanitárias do Programa Alimentar Mundial para amanhã.
Qual estudante à procura do nome na pauta para ver a nota, percorro nervosamente as dezenas de folhas afixadas no painel da recepção do PAM até soltar um suspiro de alívio e felicidade ao ver:
UYL - KHT
Filipa Guinote UNDP Portuguese ID0415
Check in 11:30

E vem um novo pique de adrenalina: vou de férias! vou ver o Príncipe! Vou comer bife strogonoff em Cartum!

Eu sei que podia ser pior

Estou a chegar ao fim de mais um ciclo de seis semanas e preparo-me para, na quarta-feira a noite, voar para a Europa por uma semanita mais uma vez. Ha quem diga, com o conforto que o staff da ONU tem no terreno, e ridiculo dizer que apos seis semanas apenas se merece uma pausa de recuperacao. E verdade, a minha casa em Nyala e melhor que o apart onde vivi em Cartum no ano passado. E verdade, nao passo os meus dias a medir tamanhos de pulsos e a pesar bebes raquiticos com fome e malnutridos. E verdade nao tenho que me aventurar por estradas isoladas para levar material ou comida para uma populacao qualquer perdida no meio do nada arriscando-me a ser feita refem por um qualquer grupo armado que por la andar.

Sim podia ser muito mais dificil. E sim, era capaz de aguentar mais de seis semanas aqui. Mas quando vejo a data aproximar-se mal consigo conter a excitacao. E a antecipacao de ver o Principe. Mas nao so. E a antecipacao de ter privacidade, de ser anonima.

Ja me habituei as semanas de seis dias. Ja me habituei aos horarios das 09h00 as 21h00. Aquilo a que ainda nao me habituei e a falta de privacidade, embora goste muito das jovens com quem vivo (a excepcao da Alergica Mor). Aqui, os unicos momentos em que nao estou a comunicar com alguem sao as horas em que durmo e as sextas-feiras, em que me escondo no meu quarto a ver DVDs ate ficar esganada de fome e ter de por o pe la fora. Por isso e que estou tao furiosa com este periplo por El Fasher, que me roubou a minha sexta-feira.
Mas ao menos sei que daqui a uns diazitos vou ter de volta a minha vida privada. Com marido e tudo.

*!?**?????

Fui passar um dia a Zalingei e acabei por passear pelo Darfur inteiro nas ultimas 48h, gracas a inenarravel confusao que sao os voos da ONU. Ha sempre o classico problema de se ter reservado um voo para um sitio e o voo ser cancelado a ultima da hora. Mas o que me aconteceu foi mais um passo para a humanidade no mundo da incompetencia: reservar um lugar num voo que nao existe. Receber confirmacao para um voo que nao existe. No dia do voo, ver o meu nome preto no branco no manifesto, mas com um asteriscozito a dizer "no connection". Assim, tipo olha paciencia fica pra proxima, vais antes para El Fasher que tambem e bonito. Portanto ca estou na capital do grandioso Norte Darfur, onde ao menos tenho um escritorio e uma casa do PNUD e ha companhias aereas comerciais que me poderao levar ate casa amanha inshallah.

Porque é que cheguei ao potno de ter pena da minha chefe de escritório:

E uma académica especializada nas questões de "Género" (Gender), ou para simplicar: mulheres, que investigou questões de estatuto da mulher na sociedade, de relação homem-mulher, de percepção homem-mulher pelo prisma sociológico, psicológico, antropológico, económico, cultural, textual, natural, supra-natural etc... E veio parar a um sítio onde as mulheres querem acima de tudo não ser violadas quando têm que ir buscar água ou lenha. E onde ninguém, mas ninguém percebe ou se quer quer perceber a distinção conceptual entre género e sexo.

E uma expert em regulamentos e procedimentos do PNUD: contratar pessoal, gerir fundos do projecto através do famoso software Atlas, lançar appels d'offres para geradores de electricidade etc... E veio para a um sítio onde o responsável das finanças não sabe usar Atlas e é neste momento incapaz de dizer quanto dinheiro foi gasto e quanto dinheiro nos resta para o nosso projecto, onde só há um sítio para comprar geradores, e onde ninguém, mas ninguém respeita regras.

E alérgica a conservantes, farinha, nozes, leite, queijo, iogurte, natas, pó, picadas de aranhas, picadas de formigas, picadas de qualquer insecto voador e veio parar a um sítio no meio do deserto com tempestades de areia regulares, insectos em todo o lado, onde é practicamente impossível saber os ingredientes usados em qualquer prato culinário ou item alimentar.

E hiper-sensível ao calor e veio parar a um sítio onde estão 40 graus à noite e onde nem a electricdade de cidade nem o gerador aguentam ar condicionado por mais de 30 minutos.

Resultado, chegou neste momento ao ponto de:
- viver no escritório, onde o gerador aguenta ar condicionado
- não dormir mais de 3 ou 4h por noite
- desesperar os colegas de trabalho com tanta e tão inútil gíria de "género"
- deixar os coitados dos deslocados que têm que levar com a dita gíria de boca aberta de sono ou incredulidade
- tomar tantos anti-histaminicos que fica num estado de transe constante, olhos semi-cerrados, a enrolar a língua, e obcecada em convencer os miliatares da União Africana a darem-nos umas garrafas de whisky.

Eu já lhe disse que ela assim não sobrevive muito mais e que se calhar o que fazia melhor era voltar para Washington, para sua e nossa sanidade, mas ela não vai por mim!

O que ainda ha por fazer

Passando comentarios sobre o facto de este artigo mostrar uma foto e dar os nomes das vitimas, eis o que se passa no campo de deslocados de Kalma, a meia hora de Nyala, onde estamos a organizar treinos sobre como lidar com vitimas de violacao - mulheres e meninas - na esperanca que ao menos a comunidade de algum apoio, quando os tribunais falham. Mas meu deus, o que ainda ha por fazer...


Darfur women describe gang-rape horror
Monday 28 May 2007 02:30.

Aisha Hamid, center holding her son Osman, Zahya Yahyah, 30, right, holding her daughter Fatmya, 18 months, are seen in south Darfur refugee camp of Kalma Wednesday April 11, 2007. (AP)


May 27, 2007 (KALMA, South Darfur) — The seven women pooled money to rent a donkey and cart, then ventured out of the refugee camp to gather firewood, hoping to sell it for cash to feed their families. Instead, they say, in a wooded area just a few hours walk away, they were gang-raped, beaten and robbed.
Naked and devastated, they fled back to Kalma.
"All the time it lasted, I kept thinking: They’re killing my baby, they’re killing my baby," wailed Aisha, who was seven months pregnant at the time.

The women have no doubt who attacked them. They say the men’s camels and their uniforms marked them as janjaweed — the Arab militiamen accused of terrorizing the mostly black African villagers of Sudan’s Darfur region.

Their story, told to an Associated Press reporter and confirmed by other women and aid workers in the camp, provides a glimpse into the hell that Darfur has become as the Arab-dominated government battles a rebellion stoked by a history of discrimination and neglect.

Now in its fourth year, the conflict has become the world’s worst humanitarian crisis, and rape is its regular byproduct, U.N. and other human rights activists say. Sudan’s government denies arming and unleashing the janjaweed, and bristles at the charges of rape, saying its conservative Islamic society would never tolerate it. It has agreed to let in 3,000 U.N. peacekeepers, but not the 22,000 mandated by the U.N. Security Council. It claims the force would be a spearhead for anti-Arab powers bent on plundering Sudan’s oil.

Meanwhile, more than 200,000 civilians have died and 2.5 million are homeless out of Darfur’s population of 6 million, the U.N. says, and a February report by the International Criminal Court alleges "mass rape of civilians who were known not to be participants in any armed conflict."
Kalma is a microcosm of the misery — a sprawling camp of mud huts and scrap-plastic tents where 100,000 people have taken refuge. It is so full of guns that overwhelmed African Union peacekeepers long ago fled, unable to protect it. It is so crowded that the government has tried to limit newcomers — forbidding the building of new latrines, so a stench pervades the air.
Anyone venturing outside must reckon with the janjaweed, as Aisha and her friends found out.
In Sudan, as in many Islamic countries, society views a sexual assault as a dishonor upon the woman’s entire family. "Victims can face terrible ostracism," says Maha Muna, the U.N. coordinator on this issue in Sudan.

Some aid workers believe the janjaweed use rape to intimidate the rebels, and their supporters and families. "It’s a strategy of war," Muna said in an interview earlier this year in Khartoum, the capital. Sudan’s government is especially sensitive about such accusations and denies rape is widespread. Sudanese public opinion would view mass rape much more severely than other crimes alleged in Darfur, said a senior Sudanese government official, who spoke on condition of anonymity for fear of retaliation from his superiors.

He acknowledged the janjaweed had initially received weapons from the government — something the government officially denies — and said authorities now are struggling to rein in the militias.
Nasser Kambal, a prominent human rights activist and co-founder of the Amel center, a Sudanese group helping victims of rape and other abuse, offers a similar view.

"I don’t think raping was planned by the government. Killing and looting and torture, yes, but not rape," he said.

Kalma isn’t the only place where multiple accounts of rape have surfaced. Some 120 miles away, in the town of Mukjar, two men separately described women being brought into a prison where they were being held and raped for hours by janjaweed.

They said the assailants shouted that they were "planting tomatoes" — a reference to skin color: Darfur Arabs describe themselves as "red" because they are slightly lighter-skinned than ethnic Africans.

According to Muna, U.N. agencies are working closely with Sudanese authorities to improve the government’s response to rape allegations. In 2005, the government created a task force on rape in Darfur, headed by Attayet Mustapha, a pediatrician, government official and women’s rights activist.

In an interview this year, Mustapha said social workers were being deployed to address the problem and a special female police unit was being assembled in Darfur.

"We tell officials that the government has decided to enforce a zero tolerance policy toward rape in Darfur," she said.

U.N. workers say they registered 2,500 rapes in Darfur in 2006, but believe far more went unreported. The real figure is probably thousands a month, said a U.N. official. Like other U.N. personnel and aid workers interviewed, the official insisted on speaking anonymously for fear of being expelled by the government.

Victims usually can’t identify their aggressors, which makes prosecutions impossible. Only eight offenders were tried and sentenced for rape crimes in Darfur by Sudanese courts in 2006, said Mustapha, the task force leader. "They received three to five years prison, and 100 lashes" in accordance with Islamic law, she said.

In May, after the top U.N. human rights official charged that Sudanese soldiers had raped at least 15 Darfur women during one recent incident, Justice Minister Mohammed Ali al-Mardi asked where the evidence was.

"We always seem to get sweeping generalizations, without naming the injured, without naming the offenders," he told reporters.

In Kalma, collecting firewood needed to cook meals is becoming more perilous as the trees around the camp dwindle and women are forced to scavenge ever farther afield. It is strictly a woman’s task, dictated both by tradition and the fear that any male escorts would be killed if the janjaweed found them.

Agreeing to tell the AP their story earlier this month through a translator, the seven women’s voices wavered and hesitated, broken by embarrassed silences. All gave their names and agreed to be identified in full, but the AP is withholding their surnames because they are rape victims and vulnerable to retaliation.

The women said they set out on a Monday morning last July and had barely begun collecting the wood when 10 Arabs on camels surrounded them, shouting insults and shooting their rifles in the air. The women first attempted to flee. "But I didn’t even try, because I couldn’t run," being seven months pregnant, said Aisha, a petite 18-year-old whose raspy voice sounds more like that of an old woman. She said four men stayed behind to flay her with sticks, while the other janjaweed chased down the rest of her group.

"We didn’t get very far," said Maryam, displaying the scar of a bullet that hit her on the right knee.
Once rounded up, the women said, they were beaten and their rented donkey killed. Zahya, 30, had brought her 18-year-old daughter, Fatmya, and her baby. The baby was thrown to the ground and both women were raped. The baby survived.

Zahya said the women were lined up and assaulted side by side, and she saw four men taking turns raping Aisha. The women said the attackers then stripped them naked and jeered at them as they fled. On their way back, men from the refugee camp unraveled their cotton turbans for the women to partly cover up, but the victims said they were laughed at when they entered the refugee camp.

"Ever since, I’ve made sure that women living on the outskirts of the camp have spare sets of clothes to give out," said Khadidja Abdallah, a sheika, an informal camp leader, who took the women to the international aid compound at the camp to be treated.

They were given anti-pregnancy and anti-HIV pills, thanks to which their families haven’t entirely ostracized them, the women said. The baby Aisha was expecting at the time is doing well. His name is Osman.

Sheikas in Kalma said they report over a dozen rapes each week. Human rights activists in South Darfur who monitor violence in the refugee camps estimate more than 100 women are raped each month in and around Kalma alone.

The workers warn of an alarming new trend of rapes within the refugee population amid the boredom and slow social decay of the camps. But for the most part, they added, it all depends on whether janjaweed are present in the area.

The sheikas say they are making some headway toward persuading families to accept raped women back into their embrace and let them report attacks to aid workers. One advantage is that they get a certificate confirming they were raped.

"We tell husbands they might be compensated one day," said Ajaba Zubeir, a sheika. "But I don’t think that’s going to happen."

The seven women say they haven’t left the camp since they were attacked. They have started their own small workshop and make water jugs out of clay and donkey dung to sell to other refugees.
As they worked on their large pile of jugs and bowls, they said they are even poorer than before, because they now have to buy their firewood from other women.

"But at least we never have to go out again," said Aisha.

None of the women has any faith that Sudanese or international courts will ever give them justice. All Zahya asks is that one day she can return to her village.

"If people could at least help end the fighting, that would be enough," she said.

(AP)

PNG

Para quem escreveu uma tese sobre empresas militares privadas, PNG significa Papuásia Nova Guiné, onde os primeiros mercenários modernos deram um ar de sua graça.
Aqui, significa "Persona Non Grata". Ser-se declarado persona non grata é a maneira mais estilosa e ao mesmo tempo mais triste de se sair daqui - ser-se expulso porque se falou demais, porque se ofendeu o oficialzito do governo.
De maneira que se formou uma gíria nesta básica e linear língua que é o Inglês:
"they are going to PNG me", "he was PNGed", "they have been PNGing lots of people".
E claro que tudo isto é no fundo extremamente deprimente, porque já há quem tenha chegado ao cúmulo de aceitar sem pestanejar que um chefe de região exerça o poder presidencial de expulsar um expatriado com estatuto diplomático sem dar razões mesmo que esfarrapadas, nem ne se dar ao trabalho de pôr a expulsão por escrito. Só uma telefonadela a dizer tens 24h para sair daqui e se não vais por teu pé vais à força. Assim, simplesmente. E a resposta da inenarrável ONU em Cartum é "então a que horas é que queres que mande o carro buscar-te ao aeroporto amanhã?". E o assunto morre ali. Chamam eles a isto "quiet diplomacy".

Count down

Começou.
As festas de despedida de quem já se conhece bem, com quem se trocou comentários cínicos em reuniões de segurança, com quem se partilhou o copito de intragável Janjaweed Juice (alcool local produzido clandestinamente), na cozinha de quem se cozinhou ovos mexidos e panquecas.
A contagem dos meses que já passaram - 17 meses. Quase tempo para dois filhos; ter-se-ia sido mais produtivo?
A dúvida entre pôr ideias geniais em movimento para herança de quem vem depois ou consolidar o que já se tem e deixar as ideias geniais num papel de sugestões.
A substituição do sentimento de revolta - revolucionário - pelo sentimento de raiva - imobilizador - ao fim de mais uma reunião onde se batalhou com colegas ao som ensurdecedor de helicópteros com metrelhadoras armadas a ir e vir de 20 em 20 minutos para recarregar munições e combustível, e... por bom senso, exaustão ou tensão pré-menstrual se chorar a ira cá para fora.
A desilusão com o guarda ou o motorista de quem se gostava tanto, a quem se deu uma mão e se ficou sem um braço.
E ainda dizem que quem sai do Sudão acaba sempre por voltar. Não vejo como.

Promessa

Vou-me dar a mim mesma mais 2 missoes com a ONU. Se apos essas duas missoes continuar com a mesma sensacao de nojo, prometo nunca, mas nunca mais trabalhar para a ONU.

Fica aqui escrito, no espaco virtual.

Mudanca de estacao

Chegou a estacao das chuvas. Os caes irrequietos nas ruas, ladram a sua inquietude, que a noite esta mais escura do que e habito. Ha flashes de luz aqui e ali, mas nem sinal de trovoes. Depois vem o vento, com um cheiro diferente: po molhado em vez de po seco. E depois o diluvio, com flashes de luz e trovoes de repente simultaneos, e os caes a ladrar incessantemente. Um barulho ensurdecedor. Pensei booolas!... ainda bem que nao estou em casa sozinha hoje.
Mas a minha casa tem paredes com meio metro de espessura e um telhado de betao. A dez kilometros daqui e o deserto, onde vivem milhares de deslocados entre paredes de terra ou de palha, debaixo de oleados brancos da ONU, que amanha terao provavelmente que reconstruir.

Falta-me

Vir de Hotel de Ville e chegar ao rio. Continuar pelos quais e atravessar para o outro lado para chegar a Place Dauphine. Ver o tribunal e pensar um dia vou ser advogada.

Com sorte é Outouno e as árvores são douradas.
Entrar a Norte, sair a Oeste para o Pont Neuf. Neuf, novo ou neuf nove? Um dia, um estranho abriu um caderninho e mostrou-me um poema ali. E depois foi-se embora.
Passar para o outro lado e continuar pelo cais para Oeste. Ver a Academie e subir para a ponte outra vez.

Pont des Arts. Le juge pénitent. La chute. Camus.
E se for de noite, entrar pelo arco do Louvre a dentro, espreitar as esculturas gratuitas pelo vidro e faltar-me o ar quando aparece o átrio, alaranjado da noite e das luzes, com a estranha pirâmide ali.

Falta-me tanto.

18m2 com paredes côr de rosa, prateleiras dentro da parede com espaço para a lista telefónica no chão, mesa de madeira não tratada encostada à parede por ter tripé e não quadrapé. Sentadaàs escuras meia dentro meia fora da varandinha sur cour. Olhar para baixo para o telhado do cinema Champô e ouvir o som abafado de Godard: ao menos é de graça, por isso se me vier o sono não faz mal. Fechar os olhos e adromecer levemente até ouvir ecoar do outro lado da cour, terceiro andar, para este lado da cour, segundo andar por cima de mim:

J'aime bien ta chemise.

É muito difícil descrever a falta que me faz eu-em-Paris. Mesmo que não seja em Paris.

Kafka e as missoes das Nacoes Unidas

Ter ar condicionado instalado, mas nao ter gerador com potencia suficiente para o manter aceso
Ter um carro equipado com radio-comunicacao, mas nao ter antena com alcance suficiente para receber e transmitir
Ter um telefone satelite para emergencias, mas ter que jogar a raspadinha com cartoes de recarregamentos porque a ONU nao nos deixa ter uma conta telefonica aberta
Receber uma maquina de fotocopias, mas sem o toner que possibilita a copia
Ter um plano de evacuacao, mas nao ter autorizacao para conduzir um carro
Fazer um bife, mas nao ter facas para cortar
Ter um projecto que ainda nao se comecou, mas ter de se escrever 10 paginas de estrategia para 2008.

A Festa

O Principe fez trinta e tal anos (acho que sao 32 nao e?) na semana passada, vai dai mega festa amanha num 5to andar com chao de madeira, coitados dos vizinhos. Temos garrafas de gin e vodka alinhadas na cozinha, o figorifico cheio de garrafas de vinho branco, mais um caixote cheio delas no chao, gelo a fazer no congelador e uma banheira que, diz ele, amanha vai estar cheia de agua fria, gelo e garrafas de cerveja. Nao me perguntem nada, este uso da banheira parece ser practica comum nesta terra. Desgracada de mim vou tentar sobreviver a mais uma experiencia biologica de (nao)tolerancia ao alcool apos meio ano de Darfur. Tentar sobreviver com dignidade, claro. Sem dancar em cima de mesas (mas quem resiste a Kylie Minogue com pes no chao? Can't get you out of my head...), sem me por a falar Alemao (mas se nao for assim, quando e que comeco a falar de vez?) e sem indisposicoes do alto da varanda a aterrarem na copa das arvores do patio (mas com a banheira a fazer de frigorifico na unica casa de banho disponivel, what to do??).

A serio, eu, nesta historia, deveria mesmo ser mais bolos... com velinhas coloridas, copo de coca-cola, chapeu de papel pontiagudo e apito daqueles que se desenrolam e tudo.

Direito humano a um enorme prato de Maki

Maki e bom. Arroz pegajoso com atum ou salmao e abacate, enrolado numa folha de alga que parece o revestimento de um pneu e que sabe... Tao bem!

O novo restaurante ali da esquina, aqui em Berlim, tem Makis em promocao a 1.50€ cada rolo (8 makis). Uma dose normal para um humano com fome sao 12 makis. Ontem a noite encomendei 24. Comi 20 e deixei o Principe comer 4 do meu prato. Porque sou simpatica e apesar de tudo ele e meu marido.

MAKI. E o que Princess Fifi reinvidica durante o seu periodo de "Rest and Recuperation" em Berlim.

Streck!

A falta que faz uma equipa de jeito! Estou aqui practicamente sozinha no escritorio com trinta mil coisas importantes a acontecerem ao mesmo tempo, o caso do incidente de Janeiro em tribunal outra vez, e a minha nova chefe a pedir-me tretas de orcamentos para mesas de cabeceira e maquinas de lavar, quando ja lhe disse que nao temos dinheiro e mesmo que tivessemos... Porque eu?

O raio da mulher quer combater a burocracia da ONU com mais burocracia e poe-se a mandar rajadas de emails para a Logistica em Cartum, incluindo a noite e aos fins de semana, a dizer que o que eles fazem nao esta correcto porque e preciso fazer assim e assado e que se fizessem assim e assado nada disto acontecia. Minha nossa senhora da Azoia! Ja lhe disse olha que qualquer dia eles ja nem leem os teus emails nem atendem os teus telefonemas e vais ter de ir fisicamente a Cartum para conseguir comprar tinta para a impressora.
Pá! Desde que privatizei o blog, ninguém vem cá. Que chatagem injusta que me estão a fazer!

Nao sou a unica...

Descobri isto.

Ai a minha vida!

A minha casa esta completamente mudada. O T., unico pingo de testosterona aqui, foi-se embora. Chegaram duas femeas novas e estou a asfixiar em estrogeneo.

A femea numero 1 e a nossa nova chefe. Chegou da missao no Afeganistao e tem montes de experiencia e de energia. Mas esta em choque com o facto dos muros da casa nao estarem a altura regulamentar numa zona de seguranca de nivel 3. Sim, porque nao ha desculpa, so temos que pedir tres orcamentos e mandar para khartoum para aprovacao, conforme os regulamentos aprovados pela assembleia geral da ONU am 1978, assim como o relatorio que os acompanham, que dizem especificamente que....
AAAAAHHHHHHH
Nao ha 3 fornecedores a quem perdir orcamentos aqui, jovem!!!

A femea numero 2 nao tem montes de experiencia mas pensa que tem, monopoliza conversas com plagio ou com declaracoes redundantes. Reuniao de coordenacao: "acho que devemos mesmo ter em conta o facto de estes treinos terem de ser coordinados, porque sem coordinacao vai cada um para seu lado e corremos o risco de fazermos actividades repetidas".

A D., que e a the best esta de ferias a casar a irma. De maneira que sou so eu e a K.
Resultado estamos todas a volta da mesa, cada uma com o seu computador e eu e a K. no messenger a cortar nas outras duas.

Tirem-me daqui.

A nossa viagem a Tanzania... ha 3 meses!

O Kilimanjaro
Ficamos alojados no meio da savana, com perimetro limitado

Um leao a chuva


Finalmente, as verdadeiras Acacias Africanas, como aquela que tenho ali ao cantinho do blog!







Cratera de Ngorongoro. Nesta cratera estao milhares de animais selvagens, incluindo o Rinoceronte branco que nao conseguimos avistar...








O carro empanado e eu em cima dele...




















E o que da viver-se os ultimos dias de Darfur...


... Vestem-se jelabias, poem-se chapeus coloridos e brandem-se cajados e punhos. Adeus querido boss! sniff...

Procura-se lingua materna

Acabei de me dar conta que este blog, o website to Publico e os telefonemas semanais da minha mae sao os unicos elos de ligacao que tenho com a lingua Portuguesa. Quando a internet e a rede telefonica vao abaixo dias e dias seguidos, pura e simplesmente nao uso a minha lingua materna.
E quando a minha mae la consegue ligar-me, doi-me o maxilar e a lingua por ter de pronunciar Rrr's e aaa's (falta aqui o til). O meu corpo esta agora programado para a simplicidade do Ingles.

Ja nem os sonhos me saiem em Portugues.

A ventoinha e eu

Gosto de ventoinhas de tecto.
Sao, a meu ver, entidades com uma alta carga erotica, girando preguicosamente, com um ruido regular, num quarto semi-iluminado por riscas de sol quente que passam atraves de portadas "Venezianas" de madeira, distribuindo o ar que seca gotas de suor.

Quem (re)vir o filme "L'Amant" percebe o que estou a dizer e para de achar que tenho fantasias estranhas. E se mesmo assim continuar a achar e porque e excessivamente inibido(a).

Mas neste momento, a ventoinha do tecto do meu quarto gira nao preguicosamente, mas furiosamente, com ruidos nao regulares mas constantes. As gotas de suor que escorrem por mim nao sao o resultado de um qualquer saudavel esforco fisico mas sim a tentativa de sobrevivencia do corpo humano a subida de temperatura ambiente. E a merda da ventoinha nao me seca coisa nenhuma, so me aquece ainda mais as gotas de suor no corpo, fazendo com que o simples contacto do ante-braco com o braco ao nivel do cotovelo seja uma tortura, por isso o contacto com um qualquer outro corpo de sangue quente e a ultima coisa que quero, e a carga erotica da ventoinha reverteu para carga hipnotica, suspensa em cima de mim ali deitada de boca aberta, incapaz de me mexer, despida como vim ao mundo, de pernas e bracos abertos, a la Da Vinci, a pensar se nao beber agua agora morro, se me mexer agora desmaio, se nao beber agua agora morro, se me mexer agora desmaio, se nao beber agua agora morro, se me mexer agora desmaio, senoberaguagoramorr, semmmmexerdesma, senberagomo, semmmechdesm

...

Qual e o teu nome?
mmmffffllmmggg
Trabalhas para quem?
nnnnmmmmmdddd
Onde guardas os teus documentos?
mmmmnnndddukkkkk
Qual e a password do teu computador?
nmggnnnnnn

...

O que e que eu lhes disse? O que e que eu lhes disse? Oh meu deus!

...

Olho para a porta, trancada como a deixei. Pa tenho mesmo que parar de ver os DVDs da serie "24".
Mas ao olhar para cima, vejo a ventoinha a girar hipnoticamente e penso o que e que esta a acontecer aqui?

...

Esta a acontecer que estao 46 Graus Centigrados constantes, que transpiro tudo o que bebo, que nao durmo nem como ha dois dias e que a ventoinha me esta a fritar viva.
Se nao desligar a ventoinha desmaio, se desligar a ventoinha morro, se nao desligar a ventoinha desmaio, se desligar a ventoinha morro, se nnnnnummmdesligrrvetnnhdesmmmo, sdeslgara ventnhamorr

...

Aquilo que te vou dizer tem que ficar entre nos.
ok.
No outro dia estava na estrada e vi chamas de fogo a sairem de casas na aldeia de...

A sombra Guaveira

Estou de volta a Nyala, depois de 10 diazinhos de ferias na Europa e o choro de despedida do costume. Cada vez custa mais, irra!

O ambiente geral esta na mesma como a lesma - um coche tenso - com a agravante de estar tudo deprimido la em casa. O chefe vai-se embora no fim do mes e nos a tres, que ca ficamos, estamos assim como que a pensar muito muito no sentido da vida em geral e do nosso trabalho aqui em particular. Ao fim do dia, debaixo da Guaveira, enxotando mosquitos, a questoes que se poem sao porque:

... insistir em "collaborar" com quem simplesmente nao quer trabalhar connosco?
... batalhar com os proprios colegas que existem porque nos aqui estamos mas nao percebem isso porque sao mongos?
... ter de se montar um sistema de contabilidade, quando se fugiu dos numeros como o diabo da cruz aos 16 anos de idade e se usa a calculadora do telemovel para descobrir 10% de 100$?
... esbanjar a nossa juventude vibrante nisto?
... nao ir vegetar para as Maldivas?
... se esqueceu a Fifi dos lardons e do parmesao em Berlim - que podiamos estar todos a comer Carbonara em vez de feijao?
... nos esquecemos de pedir os ultimos DVDs da Anatomia de Grey a Americana que agora se foi de vacaciones?

26 a 26

Este ano casei os anos. Foi uma cerimonia bonita, entre familiares em Paris.

Geneina Parte II

Hoje era suposta estar em Nyala, porque o meu escritorio esta em chaos, com o chefe a querer despedir-se e ir embora esta semana. Movi montanhas para conseguir um voo para Nyala com o Programa Alimentar Mundial e hoje de manha perco o voo por causa do idiota do colega de khartoum, que aqui esta e que devia voar para Nyala tambem, que esta cheio de medo de aparecer em Nyala nao va o meu chefe lincha-lo, dado que, juntamente com o governo e as milicias, e a causa de todos os nossos problemas.
Portanto perco o voo, e volto para o escritorio de carro com a estagiaria americana que o idiota trouxe - nao sei como, alias, que isto e zona de guerra - decidida a tirar fotografias desenfreadamente de dentro do carro, como se tirar fotos nao desse direito a problemas neste pais e nesta zona em particular e mais especificamente quando o sujeito da dita foto e um militar ou um miliciano armado ate aos dentes. E eu a dar-lhe sapatadas na mao para ela baixar a porcaria da maquina que aqueles dois soldados estao a olhar atentamente para nos.

Quase chegados ao escritorio, evitamos a la limite um acidente de trafego que poderia ter dado em incidente de seguranca, quando, no meio do mercado, nos aparece pela direita um jovem, de turbante na cabeca, camisa a militar, calcas a civil, kalashnikov ao ombro, chicote na mao montado num camelo.
Travao a fundo no nosso Toyota Land Cruiser branco de 14,000 Dolares, com as letras UN pintadas a azul e mega antena de radio a frente.
Toyota para.
Camelo passa.
Portuguesa diz "janjawid"
Chauffer diz "sim janjawid"
Americana diz "janjawid??????? This is a janjawid????? oooooh my god! Can I take a picture?"
Sapatada na mao e o chauffer arranca.

Isto sao as Nacoes Unidas no Darfur.

Geneina parte I

Geneina e um sitio estranho.

A 6 Km da fronteira Sudao-Tchade, ja ninguem sabe quem e quem. E daqueles sitios que poderia ilustrar um dos celebres "case tudies" do direito internacional, a jurisdicao internacional: um individuo de nacionalidade Sudanesa esta no lado Tchadiano da fronteira. Pega numa arma com alcance suficiente e mata um individuo de nacionalidade Tchadiana no lado Sudanes da fronteira. Qual dos dois paises tem jurisdicao sobre o crime?

Como todas as localidades perto de uma fronteira, o mercado e um mercado aparentemente normal, so que em certos dias, dependendo de quem chega, vende armas, cigarros e alcool no meio das cebolas, das cabras e do feijao.

Geneina esta tambem a 6 Km do limite da aplicacao da lei islamica - a Sharia. De maneira que e ver carros e carros de Sudaneses em direccao a Adre, a mais proxima cidade no lado Tchadiano da fronteira, para basicamente ir pros copos, embebedar-se, desembebedar-se e voltar para o reino da virtude Islamica.

Por fim, Geneina e a zona fronteirica a volta, e o hub para todos os movimentos rebeldes que puderem imaginar. Movimentos Sudaneses pro e contra Acordo de Paz; de inspiracao islamica ou de aspiracao independentista; faccoes de movimentos que assinaram o Acordo de Paz mas afinal ja nao estao tao de acordo com a paz, nem com o acordo; milicias ditas "arabes" apoiadas pelo Governo com licenca para matar tribus ditas "africanas"; milicias ditas "arabes" que nao apoiam as ditas milicias ditas "arbes" apoiadas pelo governo. Movimentos rebeldes Tchadianos que querem deitar abaixo o presidente e se refugiam do lado Sudanes da fronteira senao levam com bombas em cima; faccoes dos ditos movimentos rebeldes que reconhecem aquele lider e nao este.

E no meio disto tudo, ha cerca de 130 internacionais a trabalharem para ONGs e agencias da ONU, proibidos de sairem do perimetro da cidade a nao ser de aviao ou helicoptero, proibidos de se deslocarem dentro da cidade depois das 6h da tarde, a nao ser em diligencias de 2 veiculos (o PNUD so tem 1 veiculo, por isso tamos de maos atadas depois das 6), e proibidos de porem o nariz fora de casa depois das 8h.

E centenas de civis Sudaneses a fugirem para o lado Tchadiano. Centenas de milicias ditas "arabes" a persegui-los ate ao lado Tchadiano e a apanhar uns quantos en route e a fazer razias a aldeias Tchadianas, despertando a ira dos senhores da guerra Tchadianos daquela zona. E o que resta das centenas de civis Sudaneses que fugiram do Sudao, as vezes, por sorte, chega ao campo de refugiados da ACNUR (Guterres!!) apos kilometros e kilometros de marcha, sem comida, sem agua, com o ocasional burro salvado a ultima da hora que sempre alivia o corpo a quem foi alvejado no caminho.

Impressoes varias.

Ufa! Ate qu'enfim que consigo escrever aqui! Tava sempre a dar uma mensagem de erro e acesso negado. Acesso negado o que, meu! Este blog e meu, cala a boca.

A outra razao e que tou farta de escrever coisas serias, perguntando-me a cada palavra que escrevo se deveria ou nao estar a escreve-la num blog. Chega.

Portanto vou falar do Shiraz. Shiraz e a mercearia onde me aprovisiono. O merceeiro, tendo o seu pedido de casamento falhado (malesh, ja sou casada. entao posso ser o teu segundo marido?), optou por exprimir os seu amor com caixas de chiclas sabor morango cada vez que la vou. Se fosse uma garrafa de azeite em vez da chicla, se calhar ate considerava a proposta. Nao sendo, continuo monogamica a pagar quase 10 euros o direito humano de fazer refogados.

Nao posso deixar de deixar aqui uma nota de orgulho com o resultado do referendo de ontem. Portugal foi noticia de destaque na BBC e na CNN nos ultimos 3 ou 4 dias, incluindo na introducao do telejornal onde a senhora diz as horas no(s) pais(es) em destaque: "it's 10 o'clock in Teheran; 7 o'clock in Lisbon. This is BBC news hour". Depois de transmitirem o tao esperado discurso do presidente do Irao no feriado da Revolucao Iraniana, passam para Portugal: mostram os anuncios do campo do "sim" e do do "nao" (todos muito dramaticos, devo dizer, e os do "nao" com a agravante de serem revoltantes) e entrevistam o Bloquista nato no Bairro alto a dizer que sim porque a lei abre a possibilidade da escolha individual e a Betinha da Lapa a dizer que nao porque e verdade que os abortos clandestinos sao um horror ta a ver, mas tambem nao se pode legalizar o infanticidio.
Devo dizer que ao ouvir isto fiquei bastante preocupada. Ainda nao caminhei muito na vida, mas lembro-me de 1998. E nessa altura os argumentos eram exactamente os mesmos.
Como tal, temi o pior.
Foi portanto um alivio ver que o "sim" ganhou e que hoje o destaque falava de como os Portugueses decidiram abolir uma das mais restritivas leis da Europa.
E um verdadeiro triunfo em termos de direitos humanos.

En route para outras bandas


Vou ser transferida temporariamente para Geneina (que fica ali tao a ver no mapa, perto da fronteira com o Tchade) para dar apoio ao nosso escritorio la que vai acolher novo pessoal recrutado de fresco.
Ja que la estou, vou passar algum tempo em Zalinge tambem (fica ali tao a ver a meio caminho entre Geneina e Nyala).
Zalinge e em Jebel Marra, o mais alto ponto do Darfur. E verde e e diferente, nem que seja porque e area controlada pelo SLA (rebeldes, alguns dos quais assinaram o "acordo de paz" de 2006).
Estou bastante aliviada, porque isto aqui ja me esta a dar a volta ao miolo, sempre os mesmos problemas e sempre a mesma aversao a controversia, sempre o mesmo nojo. Ao menos no West Darfur vai ser um nojo diferente.
Vou para a semana e fico la ate ir de R&R, dia 22.

Coisas sentidas

Amanha e sexta-feira, dia de sermao na mesquita , dia de mobilizacao popular, dia de manifestacao e para nos como tal: dia de isolamento. Temos instrucao de nao por o nariz fora de casa. Tambem... Nao e como se houvesse muito que fazer aqui.

Entretanto, a minha casa tornou-se um campo de refugiadas. Muitas mulheres que trabalham para ONGs nao se sentem em seguranca nas respectivas casas. Umas transferiram-se para Cartum temporariamente. Outras vieram bater a nossa porta, saco-cama, mochila as costas e pote de Nutella na mao - para alegrar a noite.

Esta semana, tivemos choro, riso, desespero, excitacao, denegacao, motivacao, impaciencia, exaustao... Tivemos a mulher Sudanesa, de veu na cabeca, cigarro na mao e riso de resignacao na boca a contar que estudou na Russia e que quando voltou para o Sudao, na altura do golpe de estado que pos o actual presidente onde ainda hoje esta, estava tao desfazada que levou tres meses para perceber o inferno em que se tinha vindo meter. E nessa altura ja era tarde demais para sair. Ou a mulher do Uganda a dizer, entre interjeicoes de indignacao e de riso "heh!" "iiih!", que uma das maneiras de evitar uma violacao no pais dela e comecar a contar o seu passado ao agressor. Dizer que de qualquer maneira a vida e dura. Que se esta cansada de tudo. Que se e viuva. Que se perdeu o marido por causa da SIDA...

Heh! A ver se ele nao se poe a correr a sete para bem longe! Iiiiih!

Tem sido uma semana intensa, mas uma semana em que pela primeira vez senti: "tenho que fazer isto" e em que pela primeira vez ouvi: "nao sei o que faria sem voces".

Ja nao vale a pena esconder...

Darfur police 'assault UN staff'

By Jonah Fisher BBC News, Sudan

The United Nations says five of its staff have been assaulted by police in Sudan's Darfur region.
The UN workers were among 20 aid workers and African Union peacekeepers arrested by Sudanese authorities after a raid on a party at the weekend.

A statement from the UN said that some of their staff had suffered serious injuries and that it would protest officially to the Khartoum government. UN workers are providing vital aid in the conflict-hit region.

'Deeply concerned'

The Sudanese government has not intervened to protect Darfur's battered population from the brutal Janjaweed militia. But when aid workers, African Union peacekeepers and UN staff held a Friday night party in Nyala - Darfur's biggest town - it felt it had to step in. Sudanese police and security officers stormed the aid compound where the event was being held.

According to the UN, the 20 arrested people were physically and verbally assaulted with some seriously injured and needing medical treatment. A report on Sudan's state-owned television said the UN and African Union workers had been detained for misconduct, comparing it to allegations of sexual abuse which face peacekeepers in southern Sudan.

A statement from the United Nations said all the detainees had now been released, but it also said it was deeply concerned about the treatment of its staff and that the basic principles of rule of law had been violated.
Northern Sudan is governed by Islamic Sharia law which outlaws the drinking of alcohol. Its consumption by foreigners, within the privacy of their own homes, is usually tolerated.


Esta e uma descricao bastante fiel do que se passou a 10 metros da minha casa. So falta mencionar que a forca de intervencao contou com nao menos de 50 "policias", que as "serious injuries" incluiram agressoes sexuais, que a "firday night party" foi um almoco de colegas que se prolongou ate as 18h00 e que este incidente e muito mais que um incidente. E um teste aos tomates (perdoem a expressao) da comunidade humanitaria, que ate agora nunca tomou medidas drasticas apesar da deterioracao do conflito e das condicoes de seguranca em geral.

Desta vez, posso dizer-vos que nao cedemos a pressao, despertando a ira de quem orquestrou tudo isto. E agora vamos ter de nos aguentar a bronca, porque, uma vez lancada, esta estrategia so pode ser levada ate ao fim.

Pode ser que estes sejam os meus ultimos dias como Rule of Law Officer no Darfur, mas ironicamente, estao a ser os dias em que o meu trabalho tera sido mais relevante para a luta pelos principios da Rule of Law, isto pelos principios de um Estado de Direito.

Be-a-ba

Ontem tive a minha primeira licao de Arabe

missa revercse a rednerpa a uotsE

Com estas letras:

2007

Voltei para o 2007 real, apos 16 espectaculares dias de 2007 idilico. Nao e que passar duas semanas com o principe na Tanzania nao seja real, mas e... outra coisa.

Cada vez que nos separamos choro. Em bancos rancosos de aeroporto. A porta do taxi. Ao balcao do check-in. No lugar 22E depois de mandar o ultimo sms saudoso antes de desligar o aparelho electronico que pode interferir com os instrumentos de navegacao. O aviao descola e forma-se um no na minha garganta ao pensar que se o aviao cair acabou tudo.

Costumava sentir-me bem em aeroportos. Pequena, invejava uma amiga francesa que nos vinha visitar regularmente, com malas a cheirar a querosene e frias do ar fresco da atmosfera. Mais tarde o aeroporto era a ligacao com a minha casa so minha em Paris, ou, em sentido contrario, com pais, irmaos e amigos que ja nao via ha meses. Fosse a ida ou a vinda, sentia sempre uma excitacao. Hoje so a ida e que me da picos de adrenalina. A volta e uma verdadeira torutra.

Ao fim de algumas horas no aviao, o no na garganta vai-se desfazendo. Entro num estado de resignacao. Sinto-me adormecida, no sentido epidermico da palavra. Trabalho normalmente e vivo normalmente, mas nao me sinto inteira quando o aviao aterra.