A quatro dias do fim de mais uma temporada em sítios duvidosos, impõe-se uma retrospectiva.
Hoje: o pior do Afeganistão...
Eu de véu... Nada a fazer, pareço um piriquito.
Cabul, a cidade do caos, do barulho e da violência:
As dormidas em tendas, numa cama de campanha, na base militar alemã de Termez/Uzbequistão. E a humilhação de não conseguir voltar a meter o saco-cama dentro do respectivo saco (e esta é a tenda VIP...)
Os inenarráveis casamentos rosa-azul-sintético-extensões de cabelo e maquilhagem Bollywood O sufoco do túnel de Salang, a única via que liga Cabul ao Norte do país. 5Km de túnel escuro, sem ventilação, com a via toda esburacada e cheio, mas cheio de trânsito onde só não se espatifa o carro porque se segue atentamente os faróis do carro a 1.5 m à frente e, fundamentalmente, porque se tem muita sorte.
E mais uns quantos momentos para os quais, felizmente, não há fotos: - Ratos na gaveta dos talheres - 3 ataques de morteiro demasiado perto do H - O serviço de segurança da GTZ e os seus arrepiantes sms (alerta a possível suicida a circular num Toyota Corolla branco - ninguém saia à rua") - Incríveis acrónimos que se tornam parte do vocabulário quotidiano: VBIED: Vehicle-Bourne Improvised Explosive Device (um carro-bomba) BBIED: Bycicle-Bourne Improvised Explosive Device (uma bicicleta-bomba) DBIED: Donkey-Bourne Improvised Explosive Device (um burro-bomba... ó sim, também há desses)
Há dois anos foi o Inverno que foi frio demais (tudo congelado, até a água dentro da sanita), depois para compensar veio um Verão digno de Mercúrio (tudo seco, plantações todas perdidas) e agora chove, chove, chove desalmadamente. Tá tudo alagado, tudo enlameado, uma jorda sem descrição. Claro que já mandei um bate-cú daqueles que só não me partiu a anca porque torci o punho a agarrar-me à porta do carro, que por sua vez me bateu na tola. Era de manhã, estava limpinha, lavadinha e fiquei toda estragada.
O H. jura que jura que uma mulher enlameada não é assim tão má. Com certeza tem em mente a seguinte imagem:
Sucede, no entanto, que um ano e meio de letargia física e comida Afegã me pôs com 64 Kg e nem mais um centímetro para o meu ridículo 1m63, e como tal a minha figura foi esta:
Ele há dias com tanto que fazer que uma gaja até se torce toda, sem tem tempo de ir à casinha.
Nas últimas semanas, três acontecimentos perturbaram-me:
1) Uma Barbie Burqa foi leiloada na Sotheby's em nome da diversidade. Esta notícia, li-a num post de um blog que, de vez em quando, leio.
2) Uma advogada Espanhola de origem Marroquina foi expulsa de uma sala de tribunal por usar um véu (um véu simples). Esta notícia, li-a no mesmo blog.
3) Os Suíços referendaram que não se deviam construir mais minaretes na Suíça. Não houve nenhuma vaga de construções de minaretes na Suíça, houve um pedido numa comunidade para a construção de um minarete de 3m de altura (gigante, portanto) num hangar desafectado que é o único sítio onde a dita comunidade se pode reunir para rezar. Mas os Suíços, precavidos que são, acharam por bem pôr já um ponto final na questão, que isto aqui não é Arábia Saudita e vai lá mas é cantar allah-u-akbar prá tua terra. Uma expressão perfeita do mentecapto-provincianismo em que caímos desde 11/09/2001.
O que me perturba nestas três histórias é a confusão que sinto quando me tento posicionar sobre estas questões. Normalmente, uma pessoa posiciona-se, olha à volta, e consegue identificar-se com um grupo de pessoas que têm a mesma opinião sobre o assunto em geral. Dentro desse grupo, as pessoas tendem a seguir uma linha de raciocínio idêntica que culmina em opiniões mais ou menos idênticas. Mas qualquer questão Islão vs. Ocidente baralha tudo. Não é que eu queira encontrar Marias que vão comigo, mas sinto-me um bocado perdida.
Quando li o post sobre a Barbie de burqa, concordei totalmente com a opinião da autora: Diversidade? E que tal leiloar Barbies escravas sexuais? Ou Barbies espancadas pelos maridos? E violadas?(e mais um remate final cujo estilo tem piada, mas é mais da autora que meu, que a minha família lê o meu blog e eu ainda não assumi que digo palavrões).
Mas quando li o post sobre a advogada, pensei nunca mais voltar àquele blog, de tal maneira a opinião da autora me enojou: e sa advogada se sente discriminada, olha, paciência, lamento imenso, mas deste lado do mundo em que vivo as coisas não funcionam assim. De repente, multiculturalismo tornou-se um defeito.E eu que vivo no Afeganistão há mais de um ano e não me importo nada de usar um véu a tapar o cabelo, embora tal tradição não me diga patavina, penso: será que estou a ser cúmplice da opressão das mulheres? Será que devia andar por Mazar de cabelo à solta e manga curta como que para dizer estou aqui, sim, mas lamento imenso, neste meu mundo em que vivo as coisas não funcionam assim...? Acho que não. Não por estar no Afeganistão, mas por achar que um véu simboliza aquilo que o deixarmos simbolizar. Um véu a tapar o cabelo de uma cidadã Espanhola de origem Marroquina num tribunal não me mete medo nem me afronta. Penso, antes: cosmopolita! Isto em Alguidares-de-baixo não se via! Sinto o mesmo por véus que por crucifixos ao peito, Hari Krishnas todos cor-de-laranja a cantarolar, cabeças carecas de Budistas, kippas, minaretes e os inenarráveis sapatos verde alface que a minha irmã mais nova usava tão orgulhosamente. O problema é que véus a tapar o cabelo tudo bem, mas burqas já me fazem confusão. E não há hipótese de olhar à volta e tentar agarrar referências ou perceber porquê. Porque vivemos numa era onde se leiloam bonecas de burqa mas se banem minaretes, onde se critica quem elogia burqas, mas se concorda com quem manda um simples véu sala de audiência fora.
Estou rodeada de gente prenha. Amigas, colegas, conhecidas, parentes, gatas, cadelas periquitas e o diabo a quatro. É gente estranha, na verdade.
Desenvolvem todas, invariavelmente, unanimemente, uma atenção existencial a duas questões: continuar a tomar ácido fólico ou deixar de tomar? Vacinar (contra gripe suina) ou não vacinar?
É gente que mede produtividade de forma insólita: "esta tarde fiz uma sesta e produzi meio cérebro."
Mas o mais estranho, o mais desconcertante, é o facto de contarem o tempo em semanas. Eu conto semanas, quando algo está para acontecer em menos de 1 mês. Indica um processo de preparação final, um estado de já está quase, de ai meu deus ainda tenho tanto que fazer. Prenhas contam semanas durante mais de meio ano. Só de as ouvir, fico exausta.
Já tá! O meu milhão de Euros está gasto e a minha tarefa aqui está a chegar ao fim. Em breve, já não vou dizer frases como: "são só 10.000 Euros, é uma ninharia!", já não vou estar na ridícula situação em que tenho que ter reuniões com o H, e com sorte, se tudo correr bem, haverá, entre outros: uma tipografia em Samangan, 50 apicultoras em Panshir, 20 novos carpinteiros em Faryab, 50 novos electricistas em Kunduz, 1 cooperativa de produtores de cabedal em Balkh, as primeiras 10 camera-women em Parwan (pra filmar a parte feminina dos casórios todos), aulas de alfabetização num abrigo para vítimas de violência doméstica e 1 programa de radio sobre violência contra as mulheres para onde jovens e menos jovens telefonam a mandar abébias e a fazer perguntas ao vivo a advogadas, polícias, juizes, procuradores e membros do governo.
O meu blog tem um novo look. Ora senão atentem: - no contador de visitas - na foto das sombras - na abébia rápida para comentadores preguiçosos (é só clicar) - na maravilha da lista de Natal, cujos preços sei que vão escandalizar a família, mas este blog é meu então posso pôr as extravagâncias todas que me apetecer.
As tres da tarde de hoje, recebemos ordem de ir para casa imediatamente. Kabul entrou em modo "white city" - tudo fechado em casa, nem um nariz na rua. Precaucao por causa do rumor sobre o rumor que os resultados finais das eleicoes iam ser anunciados hoje e que o Karzai nao ia gostar... Na verdade, estamos todos fartos desta história e só queremos é que os resultados sejam anunciados de uma vez por todas. Cheios de expectativa corremos para casa (hotel) para a frente da BBC para onde a genial Lyse Doucet reporta do telhado do hotel aqui ao lado. Mas nao. A expectativa esvaiu-se, sugada pelas tecnicalidades deste processo eleitoral Afegao que se estende para lá de qualquer limite da razao e que um dia há-de dar cabo deste país.
Há a ECC (Election Complaints Commission), apoiada pelas Nacoes Unidas, que tinha a responsabilidade de investigar alegacoes de fraude. E há a IEC (Independent Elections Commission) que tem o poder de anunciar os resultados oficiais. E há os porta-vozes dos candidatos que anunciam o que bem lhe apetece. Entao hoje, a ECC anunciou que tem uma lista de incidentes de fraude comprovados e que a lista foi mandada para a IEC. Agora a IEC tem que pegar nesses incidentes, identificar quantos votos é estao metidos nessa encrenca e descontar esses votos da contagem incial e anunciar se sim ou nao, pela nossa santa paciencia, o Karzai obteve pelo menos 50% ou nao. Caso sim, habemus presidente, mas tambem habemus revolta no campo Abdullah Abdullah. Caso nao, habemus segunda volta, mas tambem habemus revolta no campo Karzai que está convencido que ganhou a coisa em Agosto. Entretanto importa mencionar que ninguém está preparado para organizar uma blitz-segunda volta, que as primeiras neves chegaram e que metade do país vai ficar inacessível rapidamente, de maneira que segunda volta, sejamos francos, só em Maio. Sucede que para o ano há também eleicoes legislativas, o que sem dúvida fará de todo este processo assim uma coisa simples com candidatos presidenciais à bulha e jirgas à bulha também. Até lá, temos o Afeganistao sem presidente, o Obama a insistir: sem presidente nao há mais tropas, e os talibas do Waziristao fartos de levar na cabeca do exercito Paquistanes, a resolverem passar para o lado Afegao porque o caos aqui é maior, dá sempre para plantar mais papoilas e ganhar uns trocos, e com meia dúzia de tropas Americanas no terreno, nao é assim tao difícil avancar.
ok, esqueçam o relato do périplo a Madagascar, só me está a bloguear o cérebro e é, neste momento, bastante anacrónico. Sobretudo quando posso falar dos inenarráveis tapetes de guerra Afegãos. A primeira vez que vi um foi num jantar que uma professora minha de sciences po organizou, em 2004, para nos contar as suas aventuras em terras Afegãs por onde paráva, de mês a mês, saltitando entre campos jadis minados, sempre que sciences po lhe dava um breakezito de aulas. Nesse jantar também experimentei ver o mundo via burqa, o que resultou num gigantesco bate cú, dada a imediata sensação de desiquilibrio que causa o dito item.
E hoje, uma lojinha de canto no hotel onde estamos, em Kabul, ofereceu-me esta deliciosa reminiscência - é lindo: o realismo das torres em chamas, o "Septembr" sem o [e], o missil com legenda e tudo e a maravilhosa pomba branca.
O Indri é o maior lemur de Madagascar (e consequentemente do mundo). Mede mais de 1 metro e pesa alguns 10Kg. O lemur já de si é um animal estranho. Olha-se para um e pensa-se: macaco, gato, rato, kanguru com um toque de urso bébé também. Quando, ao lermos o nosso guia, descobrimos que uma das espécies corresponde à discrição "criança mascarada de panda" e ainda por cima tem um grito que parece choro humano, foi a loucura total.
Eram 7h da manhã, enveredámos, então, pelo Parque Natural de Andasibe, seguindo o Etienne, o guia do parque natural. A humidade, a bruma e os misteriosos contronos desfocados de árvores estranhas eram dignos, palavra de honra, do cenário do Blairwitch Project.
Ao fim de duas horas de marcha, aos trambolhões nas raízes das árvores, lá encontrámos uma família de Indris. A chonar (a foto foi tirada de muito longe!). 1h mais tarde, continuavam a chonar. As tantas um espreguiçou-se e começou a saltar de uma árvore para a outra. O Etienne, desejoso de voltar à base pra beber uma jola, começou a correr selva abaixo, selva acima para nos posicionar mesmo em baixo de onde o Indri acordado se decidira instalar. Em poucos minutos estava lá o resto da família e o resto dos turistas que nos seguiram - cãos. Só que de choro, nada. Estava o Etienne já a lamentar a jola e o almoço, quando de repente:
(tenho uma gravação audio em que se nota mesmo o antropomorphismo do "choro" do Indri, mas não consigo por audio neste blog...)
Próximo post: virando a Sul - turismo cultural em Madagascar
Passo a vida a moer o miolo do H por causa de nunca comermos carne aqui em Mazar.
Dado o sentimento de intimidação por ser mulher que se entranhou no meu sistema ao fim de um ano e tal de Afeganistão, tendo a considerar como dele tarefas que impliquem estar especada no meu da rua a falar com homens Afegãos. Neste caso os talhantes. Entranhada no H está a inabalavel desconfiança da carne pendurada ao sol e depenicada por mil moscas. Com isto, resulta comermos comida de pacote ou, como no outro dia, jantarmos meia couve-flor. Assim só couve-flor, cozidinha, branquinha.
Ontem era dia de festa porque cantavam as nossas almas para o menino H e a menina F casados há 3 anos. Angustiada com a falta de víveres para um jantar como deve ser e torcendo o nariz à ideia de ir AO restaurante (aquele, o único - onde toda a gente com quem trabalhamos vai), deparei-me na Nabil Store (uma loja onde não tenho que estar especada no meio da rua), com um pacote de bolo de chocolate instantâneo. Não temo jantar, mas temos sobremesa.
Angústia desperdiçada, foi o que foi, porque sucedeu chegar um visitante da Alemanha, que pôs o H de cicerone a noite toda no Base. Por isso esqueci o jantar - que não tinhamos - e conformei-me com um serão a ver episódios de "Friends", o meu ritual de vida em países estranhos. Nunca me farto - aqueles 6 são parte de mim.
Eram 5h da tarde, ainda estava no escritório, liga-me o H a dizer vai para casa já, que eu tenho agora uma hora livre por isso vou até aí. Em casa esperavam-me um H sorridente mais já de casaco vestido pronto a sair outra vez, duas garrafas de vinho e um bloco de 5Kg de carne Argentina congelada.
A carne fora gentilmente doada pelo cozinheiro da cantina da Base, perplexo face ao estranho civil que lhe pediu por-amor-de-deus-jesus-maria-josé que lhe venda carne para ele oferecer à mulher por ocasião do 3 aniversãrio de casamento.
5 Kg de carne congelada serão talvez o mais romântico presente que recebi até hoje.
Em Agosto fomos extraídos do Afeganistão por causa das eleições presidenciais. Dado que não trabalhamos com nada ligado às eleições, foi-nos dito saiam daqui que só atrapalham os serviços de segurança. Nós: tá bem. Três semanas de férias forçadas! A primeira semana foi passada em Berlim para o casamento do ano que já relatei. E as duas seguintes?
O H queria ilha. Eu queria ilha e ausência-total-de-muçulmanos-pela-tua-rica-saúde, embora fizesse uma excepção se fosse para voltar a Zanzibar. A vida é demasiado curta para voltar aos mesmos sítios - disse o H. Por isso a ideia foi, inicialmente, ir a São Tomé e Príncipe. Acontece que o dito cujo país é caro como o raio, está sempre nublado e ainda tem pouca infrastructura. Por isso ficou para outra vez. Então para onde? MADAGASCAR!
Tudo começou com uma viagem de 19h Berlim-Munique-Joanesburgo-Antananarivo (Tana para os amigos). E de dar com a cabeça nas paredes: um avião apinhado (crise económica o tanas), pernas a inchar, pés a latejar (trombose de viagem?), suor, tremor e pânico a cada espirro ouvido ou sentido (gripe suína?), bexiga a transbordar de 10 em 10 minutos por ultra-hidratação (para prevenir a trombose, diz o folheto) e desespero ao olhar mais uma vez para o lado, onde o H, todo esfalfado na cadeira, me bloqueia mais uma vez a saída para o corredor (e consequentemente para o WC), a dormir que nem um anjinho... Que se lixe o anjinho, estava mas é a ressonar que nem um animal. Como é que ele consegue?
Tana foi uma boa surpresa. Ok... como boa capital Africana, as ruas estavam cheias de Toyotas Hiaces a cair de podre, cheios de gente - velhos, novos e médios - malas, galinhas, couves e afins, com escapes tão rotos que a ASAE certamente a eles se faria se os visse. Mas o trânsito escoava com uma certa ordem, por avenidas grandes e arejadas e edifícios bonitos. Passando por um café, vi uma jovem mulher à conversa com amigas e a fumar. Caiu-me o queixo; choque total. Para quem se pergunte qual será o efeito psicológico de viver num país como o Afeganistão, o efeito é este: o cair do queixo ao ver uma mulher a socializar e a fumar. Interiorizei de tal forma o estatuto sub-humano da mulher neste país que instintivamente me choca ir a outro país e ver a liberdade (ou normalidade?) com a qual outras mulheres vivem. E um sentimento complexo porque não acontece em Berlim ou em Lisboa, onde as mulheres na rua são como eu. Acontece, sim, ao contacto com o "o outro", o indígena, num país que, pessoalmente ou culturalmente, não é o meu. A primeira coisa que ganhei com Madagascar foi a determinação de sair do Afeganistão o mais depressa possível para salvaguardar uma certa noção da normalidade. A segunda coisa que ganhei com Madagascar, ao ouvir Francês em todo lado, foi o conforto de estar num país onde as pessoas me percebem e eu a elas e, com ele, a determinação ainda mais forte de sair do Afeganistão o mais depressa possível - bolas, com tanto poliglotismo, porque é me vou sempre enfiar em sítios onde ninguém fala nenhuma das línguas que eu falo?
No dia seguinte, descansados e limpinhos descemos para a rua para conhecer o guia/condutor que nos iria acompanhar durante uma semana. Inspecionado o veículo, concluímos que era de fiar, que o motor não ia morrer, que não íamos ficar empanados no meio da savana com leões à volta com na Tanzania (até porque em Madagascar não há savana nem leões). O condutor/guia era o Joro (pronunciar Djuro), um jovem simpático que se iria tornar um óptimo companheiro de viagem. O Joro tem 32 anos, é casado e acabou de ser pai pela primeira vez. Seria um jovem como nós, não fosse o seu gosto duvidoso em matéria de óculos de sol. O Joro contou-nos que este ano o negócio andava a meio gás, com a falta de turistas. Em Março deste ano, houve o que alguns dirão ter sido um golpe de estado e o jovem presidente Marc Ravalomanana foi deposto. O Marc estava no poder desde 2001 e, embora tenha sido revolucionário em muitos aspectos (primeiro presidente oriundo do interior e não da região costeira, novo, que criou parques naturais, regulou a observação de baleias e montou uma campanha vigorosa contra o turismo sexual), tinha uma certa tendência para jumelar a vida de presidente com uma vida de businessman. A cena do Marc era os lacticínios: iogurtes, natas, leite, queijo e afins. A a empresa que criou, a Tiko, tem o monopólio do negócio de todos os derivados de vaca e outros que tais, o que não fica nada bem. Apesar de apoiantes terem saído à rua e levado com balas (algumas de borracha, outras reais), o Marc teve que fugir para a Swazilândia e se voltar a pôr os pés em Madagascar vai de cana 4 anos por abuso de poder. Marc foi substituido por um governo de transição liderado por um tal Andry Rajoelina, que, antes de se dar a assuntos de Estado, ganhava a vida como Disque Joca. Tudo isto aconteceu sobre um pano de fundo de complots dignos, engendrados sugerem alguns pela França, ex-metrópole ressabiada em declínio de influência no mundo em geral e em Africa em particular. O resultado de tudo isto, disse o Joro, é que Madagascar estava às moscas.
Amanhã: mais sobre a 1a etapa da viagem, em que andámos pela selva à espera que animais acordassem e começassem a chorar.
Certa noite em Janeiro de 2006, o D veio jantar a nossa casa num xitex que ninguém o parava. Prática muito comum no mundo gay, o D tinha-se inscrito num website social gay há uns tempos. Nessa noite tinha acabado de e-conhecer um certo “acordeonista” que lhe e-deu a volta à e-cabeça. Entusiasmado, mostrou-nos a página do dito. Ia conhecê-lo em pessoa em breve. Nessa noite de Janeiro de 2006, D aceitou ser a testemunha do nosso casamento. Dois anos e meio mais tarde, foi a vez do H testemunhar o casamento do D. Com o T, o “acordeonista”. Foi a cerimónia mais esperada e temida do ano. Esperada porque estávamos a ver que nunca mais desencalhavam do embróglio quem pede a quem em casamento (o D acabou por tomar as coisas em mão). Temida - porque o casamento de inenarráveis fascion victims põe uma certa pressão na indumentária dos convidados, sobretudo das mulheres a quem está aberto todo um mundo de tecidos, estilos, cortes, cores e acessórios. Simplicidade mas com sensualidade; excentricidade sem extravagância; feminilidade com confiança. Eram inúmeras as instruções e expectativas dos noivos. Ainda por cima com uma cerimónia em duas partes – de manhã e à noite – foi um duplo desafio indumentário - diurno e nocturno. Após meses de busca, missão cumprida pelo meu lado: o meu traje diurno foi um fluido vestido de cetim de cor champagne, sem mangas, assorti de um fabuloso “fascinator” – uma badolete com um arranjo de fitas e penas em altura, um chapéu não chapéu (excentricidade sem extravagância). E para a noite, num vestido trapézio de tafetá, às riscas verticais fininhas bege e douradas, que aperta ao pescoço, com uma faixa aberta costas abaixo (simplicidade mas com sensualidade). Tudo com uns sapatos de salto alto, cujo salto por um incrível milagre era um meio termo entre o agulha (que eu caio) e o tacão (que é feio), o que me permitiu usá-los e não sangrá-los (feminilidade com confiança).
O casamento foi no museu de arte contemporânea de Berlim. De manhã foi a cerimónia civil, que infelizmente não lhes dá muitos direitos, a não ser poderem ficar com o outro no hospital em caso de doença. Após a cerimónia, entrou sala adentro uma senhora grande grande, preta, preta, com um vestido magnífico vermelho. Era uma cantora de Gospel que os surpreendeu a cantar “all you need is love” dos Beatles a cappela.
A união foi depois abençoada por um padre protestante, já reformado, com um certo sentido de humor (ora bem estas alianças… costuma ser fácil reconhecer qual é a de quem pelo tamanho, mas aqui assim é mais complicado), para quem o amor é o amor seja entre quem for.
Já lá fora, nos jardins do museu, entre abelhas assassinas e flutas de champagne matinal cerebralmente enxovalhante, choveram pétalas de rosas das nossas mãos para cima do D e do T enquanto dançaram a primeira dança ao som de “Für dich soll’s rote Rosen regnen” – para ti devem chover rosas vermelhas - saído a custo do leitor de CD que o H arrastou consigo a manhã inteira.
Depois houve uma pausa de umas horas. O H (cão!), VIP que é, foi degustar almoço com o casal e os pais do casal. Eu tive de andar Berlim abaixo e Berlim acima, porque o homem com quem me casei resolveu que tinha que comprar um smoking e tomou essa decisão no dia anterior às 6h da tarde, pelo que me sobrou a mim voltar ao alfaiate buscar o traje; e porque o homem com quem me casei jurou que jurou que tinha um noeud papillon em casa (olha que está em casa dos teus pais… não está não, eu trouxe-o de volta. Olha que não; está, está), mas não tinha nada, de maneira que tive que lhe ir comprar um novo mega-express. Feitas as voltas, vestida a indumentária nocturna voltámos todos ao museu para o jantar e a festa.
Como bom casamento alemão, este teve um número de sketchs e surpresas. Na entrada da sala de jantar acumulavam-se garrafas e garrafas de vinho – uma amiga tinha pedido aos convidados para escreverem uma receita de cozinha e trazerem uma garrafa de vinho para acompanhar a respectiva receita, de maneira a dar ao D e ao T um início de garrafeira. Do nosso lado foi Espargete Carbonara e uma garrafa de Esporão Reserva. Havia também a tradicional corda com postais pendurados, para serem mandados aos noivos em datas fixas, como houve no nosso casamento. Houve um slide show de fotos de infância do D e do T, muitas das quais, tendo sido tiradas nos anos 70 e 80, desvendavam calças de veludo cotelé douradas, fatos de treino brilhantes e cortes de cabelo verdadeiramente tenebrosos. Houve também um jogo em que os convidados receberam uma lista de frases e tinham que se levantar se essa frase se aplicasse a si próprios; o D e o T tinham que adivinhar qual era essa frase que todos os convidados levantados tinham em comum. “Estudei em Freiburg” foi fácil. Mais difícil e confuso, no entanto, foi “já vi o D ou o T nu” – já que ¾ da sala se levantou: os pais, claro, mas também ex-namorados e amigos fãs de sauna e de ginásio.
E como em todo o casamento alemão, houve discursos e o momento alto em que o pai do D, aristocrata octogenário, e o pai do T, mais novo mas oriundo de uma terra pequena, receberam de braços abertos o filho… e o marido do filho. Genuinamente e naturalmente.
Antananarivo, a capital de Madagascar, é o nosso ponto de partido porque tem um aeroporto. Antananarivo é no meio da ilha de Madagascar. Há uma estrada de Norte a Sul e uma estrada de Este a Oeste, o que seria um boa notícia, não fosse o facto da ilha ser do tamanho da França e do mapa mostrar partes dessas duas estradas a picotado.
Organizar o circuito em Madagascar é mais complicado do que organizar mesas para um casamento luso-alemão.
Passámos a noite num constante desconforto, a dar voltas e mais voltas na cama, a olhar para o tecto com cansaço mas sem sono - tás acordado? tou. A porta do páteo abre-se e fecha-se violentamente, as luzes piscam agarrando-se com unhas e dentes à electricidade que lhes chega em esforçados solavancos do desgraçado do gerador. De manhã, na cozinha, uma fina pelicula de pó cobre toda a loiça que tinhamos lavado ontem à noite com tanto suor (estavam 40 graus às 22h00). Idem na casa de banho, que tenho que lavar antes me lavar a mim.
Estão de volta os dias ventosos dos Verões de Mazar, que já o ano passado nos perturbavam o sono. Não é uma experiência agradável, mas quando se sai à rua, o espectáculo que é ver as miseriosas burqas esvoaçar como capas de Super Homem em pleno vôo compensa o poeirame.
Bilhete comprado, sonho (quase quase) realizado. De 10 a 25 de Agosto, eu, ele, duas mochilas (e vocês todos via blog) a trepar aos baobabs e a correr atrás de lemurs, em honra aquele grande filme de animação que já marcou a minha vida... adulta.
P.S: outro sonho realizado hoje - sou oficialmente jurista.
Em Agosto há eleições presidenciais aqui no Afeganistão. Tenho falado com os meus colegas por aqui e estou a perceber que ninguém se vai mexer para ir votar.
Ou porque nenhum candidato lhes agrada. São exigentes, bolas, porque há 41!
Ou porque até há um que nem lhes desagrada, mas não vale a pena irem votar porque esse de certeza que não vai ganhar.
Isto num país onde os jornalistas desembaínham microfones em frente ao porta-voz local da UNAMA (missão das Nações Unidas aqui no Afeganistão) e perguntam:
"Boa tarde! que candidato é que a UNAMA apoia?"
Poucos parecem perceber a dinâmica de uma eleição, o peso de um voto. Encaram a eleição como encaram a vida: insignificantes e mudos enquanto indivíduos; alienados sem o vínculo a um grupo forte.
Pela perspectiva dos candidatos a coisa também não é melhor. Não há mensagens nesta campanha presidencial; há símbolos. Não se debate; exibe-se.
Hamid Karzai, por exemplo, já indigitou uma equipa tão patchwork como o país (um de cada étnia e mais houvesse!), à custa nomeadamente de favores legislativos intrigantes como a inenarrável lei que obriga as mulheres casadas de uma certa étnia a terem relações sexuais com os maridos pelo menos 4 vezes por semana.
O Abdullah Abdullah, que é muito famoso aqui no Norte, só aparece em cartazes com o espectro do comandante Massoud, o mítico leão do Panshir que combateu tudo quanto é coisa e foi assassinada uns dias antes do 11 de Setembro) ou a apertar a mão ao Atta, o governador de Balkh (Mazar).
E cada candidato tem um símbolo para ser reconhecido sem equívocos, mesmo por quem não saiba ler. Vejam aqui a lista com as fotos e os símbolos de cada um.
Há o das lanternas, que "ilumina" o país. Há o da pomba e da balança - o Karzai - que grita paz e justiça (e impunidade para os corruptos e direito ao divórcio para as mulheres?). Há o dos presentes (jobs for the boys?). Há o do despertador - acordem gente! Há o dos estetoscópios, que se deve ter enganado na corrida. Há o das duas foices (morte ou comunismo?). Há o dos dois aviões e o dos três aviões (que obssessão). Há aquele que escolheu um foto em vez de um símbolo, e a foto é de uma pomba a andar num relvado - que eu pessoalmente acho um absoluto nojo. Há o inenarrável do cadeado - que não indica nada de bom - e o do machado, que tem cara de poucos amigos, com quem eu, pessoalmente, não me metia.
Mas os melhores símbolos, os mais perturbadores, os mais infelizes, nesta lista hilariante são os das duas candidatas mulheres:
Shahla Ata é uma águia tirada directamente do selo presidencial dos EUA a agarrar na bandeira Afegã. Um símbolo que tem tanto de agressivo como de subserviente.
Frozan Fana é uma maça, que inspira uma só palavra na minha mente: Eva
E sempre um ligeiro périplo voltar ao Afeganistão. Ou porque tenho que dormir uma noite com as soldadas no Uzbequistão, ou porque tenho que dar a volta à península Árabe para cá chegar. Desta vez, foi a segunda situação.
Tudo começa com a partida de Lisboa para o aeroporto, de manhãzinha, recolhendo os post-its que deixo pela casa fora para me relembrar dos últimos items a pôr na mala:
"não esquecer escova de dentes" "levar porco - frigorífico" (o sacro-santo presunto que me serve para refeições rápidas e me agrava a rentenção de água).
Mesmo com tanta viagem no corpo, a noite antes da partida é sempre de sono leve. Por isso lá vou cheia de olheiras, pelas quais escorrem sempre uma lágrimazitas quando entro pela porta de segurança de saquinho dos líquidos e cinto na mão e deixo para trás a minha mãe pela 50a vez.
Lisboa - Frankfurt.
Em Frankfurt é a odisseia para chegar até ao terminal B das partidas inter-continentais. Ando kilómetros, sem a ajuda motriz da passadeira que está - como sempre - avariada, ultrapassada pelos velhadas que têm direito a transporte no carrinho eléctrico. Jovem sofre de mochila pesada às costas com computador e uma muda de roupa - não vá a mala perder-se.
Passageira exemplar, ouço a chamada para a porta de embarque A61 para Dubai e dirijo-me para lá imediatamente com somente uma Marie Claire, um Courrier International e uma caixa de nozes de macadamia cobertas de chocolate de leite no saco do Duty Free.
Frankfurt sendo um hub para vôos de longo curso, vêem-se famílias a dormir nos bancos, putos exaustos a chorar desalmadamente e cabines de fumo para os fumadores que não aguentam - cubos envridaçados, com posters de publicidade gigantesca à Phillip Morris com o quadrado "Smoking kills" e autocolantes absolutamente hilariantes com um círculo com um boneco a fumar dois cigarros ao mesmo tempo e uma barra vermelha por cima - pelos vistos há quem assambarque a nicotina no sistema fumando dois cigarros em simultâneo... e isso é proibido. Falta 1h para a partida. Sento-me e leio sobre as mulheres na Guatemala. Depois leio sobre o vôo da Yemenia que caiu. Depois leio sobre o Irão. Está tudo muito quieto à minha volta. Olho para o relógio: falta 10 min para a partida e reparo não está ninguém à minha volta na porta de embarque. Olé - o que é que se passa aqui? Pergunto à senhora da Lufthansa, que me diz que a porta de embarque mudou - não ouviu? não, e também não ouvi nenhuma chamada com o meu nome! Então corra lá para cima, porta A27 pode ser que tenha sorte. Lá vou eu a arfar escada acima, com a mochila às costas trum trum trum saiam-me da frente! Chego à porta A27 e vejo um maralhal de jovens ocidentais que vão de férias para o Dubai não sei porquê (com tanto país no mundo...), de famílias Dubaianas de óculos de sol Gianni Versace, véu da Chanel na cabeça mas de T-shirt justa e mangas curtinhas, que é uma combinação que nunca percebi. Afinal não há crise, o vôo está atrasado 2h. Havia um problema técnico no avião e tiveram que mudar tudo para outro avião. Meia descansada, meia amedrontada sento-me à espera. Embarcamos finalmente - seis horas e meia de vôo. A minha frente vai uma família de Afegãos-Alemães. Falam Pashtu, devem ser do Sul. A mãe a tentar acalmar os 4 filhos. O pai vai para a fila de trás e fecha os olhos a descansar - não é nada com ele. Quando a mulher se vira para trás para mandar vir com ele, ele enxota-a literalmente - qual Obama com a mosca - batendo-lhe de rojo na cara e torna a adormecer. Fúria, indignação, nojo. Que gente esta.
Chegados a Dubai, corro a ultrapassar o máximo de gente possível para chegar à fila da fronteira sem muita espera. No hall da fronteira, felizmente, estão dezenas de guichets abertos, as filas não são grandes. A minha volta estão os oficiais de fronteira - verdadeiros "sheiks", altos, altivos, de jellabia branca imaculada, rígida com goma, e véu branco segurado por um aro preto na cabeça. Nas outras filas estão Chineses, Filipinos, Indianos. Filas e filas de homens - vêm para trabalhos temporários, deixam as famílias para trás e mandam-lhes dinheiro ao fim do mês. Não sabem Árabe. Não sabem Inglês. Têm-se uns aos outros somente. Os cidadãos dos Emirados Arabes Unidos recebem uma “mesada” do estado para viver; os “sheikhs” são oficiais ou homens de negócios, ponto. Os outros trabalhos são para outras gentes.
Já escaldada por experiências anteriores e sem paciência para aventuras, pedi ao hotel que mandasse alguém para me buscar ao aeroporto. Lá estava o senhor, diligente, de placa na mão que até se lembra de mim. Saimos para a rua e sinto o absurdo que é aquele país – 42 graus (às 2h da manhã) e uma humidade de 200%. Ninguém aguenta tal clima de maneira natural. Talvez por isso haja ar condicionado até em espaços semi-abertos. Talvez por isso não haja passeios nem ruas no Dubai. Há auto-estradas, porque ninguém anda a pé. Hotel – finalmente posso dormir 4h.
No dia seguinte, tenho que apanhar o voo das Nações Unidas para Kabul. Como sempre, apanho um táxi até ao inenarrável Terminal 2, de onde partem voos de companhias dúbias para Bagdad, Meshad, Teerão… O Terminal 2 dá sempre o ligeiro desconforto de se estar a viajar para sítios menos recomendáveis, em aviões não dignos de Terminal 1. Vejo anunciado um voo para Kabul com uma companhia aérea Afegã. Não é o meu! Onde está o voo das Nações Unidas? Ah esse voo agora parte do Terminal 1, não sabia? Obviamente, não.
Apanho um táxi para o Terminal 1, mais meia hora de caminho em auto-estrada à volta do mega-aeroporto, meia irritada com tanta confusão, meia contente por termos sido admitidos ao Terminal 1. No check in está uma fila de estrangeiros, meios entediados, mas prontos a voltar ao serviço. E gente de Kabul, todos se conhecem. Não a mim, desterrada a Norte do Hindu Kush. Para alimentar a sensação de upgrade, o nosso balcão check-in é ao lado do check in para Paris CDG e tudo! Os Franceses que passam por nós e vêem o nosso destino no televisor do balcão olham para nós perplexos. E nós devolvemos o olhar – podemos ir para Kabul, mas vocês estão a embarcar num avião da Air France, não é muito melhor.
O check in está fechado. Esperamos, esperamos - nada. O senhor da ONU aparece finalmente a dizer: todos os voos de Kabul estão em terra sem autorização para levantar, por isso temos que esperar porque o vosso avião é o que vem de Kabul. Mas sabe porquê? Houve algum incidente? Não, não sei porquê.
Pensativos, reflectindo na ofensiva Americana em curso em Helmand, sentamo-nos outra vez à espera, não sabendo se, na verdade, queremos ou não que o avião chegue. Duas horas mais tarde o senhor anuncia que o avião levantou de Kabul e vem a caminho. Ok, seja o que deus quiser.
4h depois aterramos em Kabul. A saída do avião está um senhor a perguntar “European Union?” e eu digo que sim, sem perceber a razão da separação de cidadãos europeus, e o senhor lá me encaminha para o primeiro autocarro. Lá dentro o senhor anuncia que vamos receber já um briefing de segurança. Briefing de segurança? Mas que é isto? Será que aconteceu realmente alguma coisa e estamos a ser evacuados para um sítio seguro? Mas então porque é que nos deixaram levantar de Dubai? O senhor começa então a distribuir telemóveis. Mas que raio, o que é que se passa aqui? Para que é que eu quero um telemóvel? Vendo a minha cara cada vez mais confusa, uma senhora aponta para mim e diz – olhe que esta senhora não é do nosso grupo! Percebo então que me meti numa delegação da União Europeia. Saio do autocarro e entro no que está atrás, onde estão as pessoas que não estão só de passagem.
Tum – outro carimbo no meu passaporto, saio para fora do terminal. Oláaa, onde é que eu estou? O aeroporto de Kabul parece estar numa constante mutação. Nunca, mas nunca chego ao mesmo sítio. E, claro está, não encontro ninguém da GTZ à minha espera. Como nunca sei se eles têm acesso a todas as partes do aeroporto, pego no malão e arrasto-o 500 m até ao outro terminal. Não está lá ninguém da GTZ. Estão no entanto dezenas de Afegãos a olhar para mim, meios espantados, meios no gozo. Telefono para a GTZ. Não saia daí, mandamos já um carro! Pensávamos que tinha perdido o avião. Olha que esta!
Meia hora mais tarde aparece o carro da GTZ. Finalmente vou para o hotel. Não sei porque que raz-me-parta escolhi ficar neste hotel desta vez. E horrível. O quarto não tem janela, a casa de banho pinga do tecto e o poliban está partido. Exausta, não quero saber, deito-me na cama de colchão duro como cornos de touro e tento a custo adormecer. Hoje de manhã mudei-me para outro hotel. Mais acolhedor, mais seguro, com comida boa e um polibam inteirinho e branquinho.
E escrevi este post.
No outro dia disseram-me que o me Português não está emigrantado. Fiquei contente. Então quero deixar aqui uma lista de palavras Portuguesas de que nunca me quero esquecer, acaso um dia suceda mesmo a emigrantação linguística que temo:
Ando à procura de casa - casa... é como quem diz poiso, estação, base, pied-à-terre - aqui em Lisboa. Um dos sítios de que mais gosto, do alto do luxo de quem só está em Lisboa de férias, é a Costa do Castelo. Então tenho andado por là de nariz para o ar à coca do ocasional placard "VENDE-SE" num qualquer andar alto com potencial vista para o rio. Nestas primeiras semanas de Junho, o Castelo está no alvoroço da preparação para os Santos Populares - evento de que tenho tantas memórias boas, embora deteste o sabor e o cheiro da sardinha (à sempre a bifana...).
Andando-se pela Costa do Castelo a horas variadas do dia, vêm-se uma data de jóias. No outro dia, de tarde, estaciono o carro em frente ao Terraço, assim meio em cima do passeio. Aproxima-se então um senhor já entradote, com ar responsável mas não ostentando no entanto nenhum crachá da EMEL a dizer: olhe menina, se quizer esperar mais uns dez minutos pode estacionar ali à frente onde está aquele cinzento, que ele costuma sair as 4. E vendo a minha cara de espanto face ao detalhe da informação, diz o senhor com tom esclarecedor: eu sou o senhor Diogo. Ah tá bem, assim já percebo.
Numa noite, jantei na tasquinha do largo do Castelo. Estavam lá a pendurar fitas (guirlandes), réplicas de manjericos e imagens a dizer "Santa + do Castelo". O rapaz da tasca tinha lá o pai e uns amigos a ajudar. Aquilo não estava a correr nada bem, porque mal o rapaz foi a outro lado qualquer buscar mais decorações, o pai sentou-se numa cadeira e abriu uma jola, os amigos desceram para a frente de um prédio e começaram a conversar com uma senhora (ou senhor?) que entretanto apareceu à janela, à cerca de que bairro ia ganhar a marcha este ano. Uma das amigas - assim cheiinha, com um rolito de chincha roliça à volta da cintura - sentou-se em frente ao pai do rapaz e liga do telemovel para outra amiga: "oh Carla, amanhã queres ir tomar café com a Tânia ou jantar com a Andreia?". A rir-me para mim, olho para o menu que vinha em Português, Espanhol, Inglês e Francês: a Febra à Chefe era "meat of pig to the head".
Por acaso gostava de me poisar num sítio onde há movimento para pendurar guirlandes, onde pais preguiçosos se esquivam ao trabalho assim que filhos viram as costas, onde Carlas, Tânias e Andreias combinam programas, onde ser-se o senhor Diogo é evidente, onde se fala da rua para a janela, onde não sou a única que tem chinchinha à volta da barriguinha, e onde ainda há quem me trate por "menina".
O meu medo não é de não ser promovida, porque no contexto em que trabalho as coisas são tão precárias que o conceito de promoção não é linearmente definido seguindo horários e produção semanal. O meu grande medo é de não conseguir arranjar um trabalho meu, um trabalho para o qual me preparei anos e anos. E o medo de me tornar pária por perder o "andamento".
Andamento é ser-se móvel em permanência e ser-se competitiva à escala mundial, acumular-se as experiencias cada vez mais corajosas ou mais loucas. Porque quem fez Kosovo acaba por fazer Sudão. Quem fez Sudão, vai parar ao Afeganistão, a partir daí o Iraque e o Congo já é só um passito... Por um lado, sem conhecimento de terreno não se serve para Genebra ou Nova Iorque, por outro lado, com excesso de terreno adquire-se o selo de "pied sale" (imagem auto-derisoire de quem anda de chinelo por terriolas poeirentas africanas ou de botas enlameadas pelas montanhas Afegãs) - o que também não é adequado para Genebra ou Nova Iorque. De maneira que se salta de um sítio para o outro na busca incansável ou utopica de um qualquer equilíbrio. Chegando-se aos 40 anos, o equilibrio que se encontrou é a incapacidade de se ser fiel... quer a sítios, quer a pessoas.
Por isso nesta vida, amancebar-se, (pior ainda) casar-se ou (ai jesus credo) parir é pura e simplesmente o fim da picada. Tem-se emergency sex, não se tem relações. Prova é que, há uns tempos, o Comité Internacional da Cruz Vermelha recusava candidaturas de pessoas casadas porque exigia uma dedicação incondicional à missão (como se o casamento fosse mais distracção que a falta dele).
Então tenho o mesmo sentimento ambivalente que ela tem: não quero chegar aos 40 anos encontrando o equilíbrio da infidelidade, mas também não quero ser excluída do andamento. O problema é que ninguém facilita missões para casais. Casais que vão juntos pelo mundo fora até existem, mas abdicaram de fazer o que queriam fazer, fazem aquilo que aparece porque ninguém investe em quem tem pouco andamento.
A grande batalha da minha vida será poder viver com o marido sem andar de rojo atrás dele, a fazer biscates aqui e ali e a tirar cursos como quem tira fotocópias sob desculpa de solidificar um currículo na denegação da possibilidade cada vez mais certa que este só se desenvolva pela aleatória lógica do acaso... Porque perdi o andamento.
Este blog está em período de estudo intenso até 26 de Maio
Ufa, ja nao esto no Afeganistao. Deixei as apicultoras, as pretendentes a gerentes de aviario, as fabricantes de sapatos e malas que nunca me disseram la muito. Deixei tambem as residentes do abrigo e as que as ajudam, essas que ja me dizem mais e que me vao fazer falta. Deixei o sitio onde a explosao de um foguete de festa atrai um sms do servico de seguranca a dizer "o som que ouviram nao foi uma bomba".
Trabalhei 10 ou 12 horas por dia a gerir quase 70 projectos diferentes, para os quais olhava muitas vezes como boi para cavalo (a consistencia do cimento, a quantidade de gravilha). Mas nao me desorientei, estava sempre em cima dos detalhes.
E intrigante como apesar de tanto multitasking bem sucedido nos ultimos meses, me enganei redondamente nas datas em tinha que estar em Londres para a semana de presenca obrigatoria do meu curso de direito. Cheguei a Berlim ontem, fui ao site da escola procurar nao sei o que e reparo que as aulas comecaram ha 3 dias. Nem tive tempo de desfazer a mala, 3 horas mais tarde estava num aviao para Londres. E amanha vou implorar ao director que me deixe continuar no programa, que me deixe estudar, que me deixe fazer os exames - so pela marronisse doentia, merecia que me tratassem como um caso a parte.
Se tudo correr bem, daqui a uns meses ja esta, sou jurista. Nao ha plano para o pos curso, mas com o curso no bolso fica a porta aberta, a esperanca, a utopia, o graal de um dia poder pertencer ao mundo da lei, que e onde me sinto bem.