A minha padaria


A minha padaria fica mesmo na porta ao lado do meu prédio.

É um sítio mágico. O Croissant é a 35 cêntimos de herói, a Bretzel com graines de pavot (o príncipe também se ri da confusão linguística que vai por aqui) é a 45 cêntimos.

Trabalham noite e dia, que até nos passamos quando chegamos tarde e está um cheiro a pão quente e a bolos na escada e em casa só temos legumes e frutos eeuurgh.

Estranhamente, é a única padaria que não faliu, aqui no bairro.

Qual o segredo desta padaria?

Desde o ano passado tenho vindo a desenvolver uma teoria segundo a qual a padaria não passa de uma pequena empresa criada para encobrir actividades menos lícitas dos donos.
Com efeito, desde quando é que, nos dias que correm, se pode ter tanta prosperidade com croissants a 35 cêntimos?; desde quando é que padeiros ouvem heavy metal, guiam motas gigantescas, vestem-se de couro preto, têm tatuagens medonhas nos braços e piercings em toda a cara?

Um enigma.

Mas a resposta está aqui: é o estilo.

Nesta padaria os metaleiros são pessoas encantadoras, não assustam as criancinhas e duvido que participem em rituais satânicos. O death metal a bombar no meio dos pães dá um toque original às manhãs de toda a gente aqui do bairro. O som é alto, é feio, sim, mas os senhores padeiros - o filho, o pai e a mãe, que isto é uma empresa familiar - curtem aquilo à séria.

Com a pressão da clientela cada vez mais numerosa, a metal family lá teve que contratar uma empregada. A dita cuja tem, que eu contei, 5 brincos na orelha direita, trancinhas tipo africana no cabelo, toda vestida de preto com calças que parecem collants e botas da tropa.
E também é uma jóia de rapariga.
Bem haja o metal pão.



Apaixonei-me


No outro dia aventurei-me sozinha com a minha bicla para além das fronteiras de Prenzlauer Berg (o nosso bairro).
Pedalei pedalei pedalei, pelo asfalto, pelos passeios, pelo meio das pessoas... aqui, acreditem, não há regras para as biclas.
Pedalei, pedalei, pedalei, comi mosquitos, flores, folhas, mas estava a gostar.
Até que
Naufrago na Alexander Platz.
Imaginem a praça Marquês de Pombal + Place de l'Etoile + Place de la Concorde todas juntas num rectangulo com 10 avenidas Stalinistas, de 1 Km de largura, que é para os tanques desfilarem à vontade.

E esta torre ali mesmo à minha frente. Imponente, incontornável, elegante.
Buuum.

Rendi-me a esta cidade.

Domingueiros Berlinenses



Ontem estavam 30 graus, então o Príncipe e eu fomos à praia.

A praia em Berlim é isto:

1) apanha-se sol à vontade, livremente naquilo que há 16 anos era um "no-man's land" entre os Muros de Leste e de Oeste;
2) contrariamente a Paris, há espaço para rebolar na areia caso apeteça;
3) as casas de banho são limpinhas e não há filas à porta;
4) a música é um espectaculo e não dá muito alto;
5) as pessoas conversam baixinho umas com as outras;
6) não há Coca-Cola, há Afrikola;
7) não há Limonade, há Bionade;
8) E vê-se o pôr do sol por detrás da Fernsehturm.

Certos sítios em Berlim parecem bocados de Paraíso. Não sei como é que eles fazem, mas tudo é agradável, simples, limpo, calmo, saudável.
Ninguém discute, ninguém diz palavrões, ninguém assedia as meninas em domingo solitário, os bébés exploram as redundezas livremente e se se espetam, levantam-se e continuam sem chorar, os casais gay mostram afecto como todos os outros casais sem que niguém, mas ninguém, à volta olhe para eles com um ar crítico ou de gozo.

Pode não ser assim no resto da Alemanha, mas em Berlim os seres humanos atingiram um grau de sofisticação, beleza e humanidade que não vi em mais lado nenhum até agora.

Esta é a 1ª página do livro que alegrou a minha infância:

Barbapapa.

Retrata o nascimento de Barbapapa.

Só agora é que reparei o quão porno isto é. Atentem na imagem:
A terra abre-se como o colo de um útero!
E aquele senhor ali com um regador muita grande? azze azze
Só o passarinho é que não sei. Se calhar é o médico, que é o que eu preciso depois de ter escrito este post.

Drooling auntie


Tenho saudades desta coisa boa!

O meu frigorífico, esse Twingo

O meu frigorífico (que não é meu, é do príncipe, mas como agora temos que dizer tudo na forma colectiva, demos à propriedade uma dimensão subjetiva) é como o Twingo.

Lembram-se do Twingo? Esse caro mínimo onde cabem, segundo o Carlos Cruz (ou lá quem apresentava o concurso que eu já não me lembro) 20 adultos bem enlatadinhos e até se ganha 1 milhão de escudos num cheque muita grande com letra bonita prá câmara da TV.

Pronto,

No meu frigo cabem 30 talhadas de melancia dispostas em pratos e pirexes, sobre uma pequena quantidade de Vodka.

A cena é que não vou ganhar nem carro, nem um milhão de escudos com esta proeza.

Só uma enorme dor de cabeça quando acordar amanhã depois do barbecue onde vamos esta noite.

Maasmemories



Acho que vou ter saudades de ver senhoras de idade, saia e tailleur, cabelo arranjado, mala pendurada no ante-braço, costas direitas (porque o guidon é tão alto) a pedalar que nem umas malucas nas suas biclas.

Acho que vou ter saudades de ouvir "astublieft" (pronunciar aaaachhh tublift = fáchavor),

Acho que vou ter saudades que uma transeunte me explique que desde a semana passada não é permitido estacionar bicicletas na rua comercial, mas que ali atrás construiram um parking especial onde a posso deixar à vontade, pois porque com este calor dá mesmo vontade andar é a pé pelo centro, não é como no inverno que se quer é pedalar depressa para um sítio quente,

Acho que vou ter saudades que a feirante (sim a feirante meia-idade gordita, rosadita, de avental) do mercado me pergunte se prefiro falar em Inglês, Francês ou Alemão, que para ela tanto dá,

Acho que vou ter saudades do condutor do autocarro parar em frente a uma passadeira e convidar os peões a atravessarem com o gesto de quem convida alguém a entrar num palácio com tapete vermelho à frente,

Acho que vou ter saudades dos peões agradecerem ao condutor do autocarro com um energético polegar para cima,

Acho que vou ter saudades dos meninos de pullover rosa bébé, dos sapatinhos de vela, dos polos de raguebi, de "kip curry", de "frites speciaal", de "frikandel", do Falstaff, da Anouk a dar nos bares, do Albert Heijn, do Easygoing...

Acho que
no fundo
no fundo
no fundo

Vou ter saudades de Maistriste.
O Menno tinha um ar tranquilo.

E o meu ego ta tao inchado que e melhor nao escrever mais.



Já enchi as prateleiras da cozinha de chocolates e comida não Bio.

Já espalhei pelo chão cantos de folhas de papel que enrolo e rasgo compulsivamente quando estou concentrada a ler.

Já parti um copo.

Já colei fotografias de amigas, amigos e familiares divertidos em paredes que, até então, só suportavam singelos posters do Rothko, que, para o Príncipe são do mais colorido que há.

Já espalhei por todo o lado ganchinhos que uso para tirar a franja da frente dos olhos, mas que acabam sempre por desaparecer. O que vale é que se vendem em pacotes de 20, por isso tenho sempre um fundo consequente para substituir os que se perdem.

Já mudei a disposição dos móveis na sala.

E agora,

Monopolizei a caixa de correio.


A minha mana Mary mandou-me um muita ganda pacote, que o prínicpe até ficou todo baralhado porque só recebe envelopes fininhos e jornais, o que é uma seca. Mas não, não era para ele.


E no ganda pacote vinha:

UMA VARINHA MÁGICA
Vinha partida, mas cumpriu a sua função porque, magicamente, me senti finalmente em casa.
São tantos os que foram com as aves neste últimos dias.
A Alemanha é um pais "retro".
Há um autêntico fascínio por coisas dos anos 70 e 80.
As lojas de decoração estão cheias de lâmpadas côr-de-laranja, sofás castanhos, mesas com tampos de vidro, armários brancos etc...

Mas a grande cena é que, aqui, hoje, em 2005, pude saborear um genuino

CAPRISONNE

Aquele sumo que vem numa embalagem de prata toda mole, e ao espetar-se a palhinha sai sempre tudo porque é impossivel não apertar a dita embalagem.

Sabem?
Lembram-se?

Ai, fiquei tão feliz!
20,036 palavras

Du bist so wunderbar, Berlin!

Em Berlim, toda a gente anda com p lado direito das calças alçado.
Tipo pescador.
Sem medo.
Sem vergonha.
A mostrar a meia branca e o pelo e a pele lívida.

Adivinhem porquê.

Estou diagonada



Estou diagonada.
O conceito de estar diagonada vem da Chute, que é o meu livro preferido a seguir à Lolita e ao Barbapapa va au Zoo, onde o Camus descreve um intrumento de tortura que era uma caixa onde uma pessoa só cabia em diagonal, nem sentada nem de pé.

Eu nem me sento en frente à tese, nem me ponho a andar a pé por Berlim, porque tenho que tentar sentar-me em frente à tese.

Tão a ver?

Desmilagre



Com um rápido Puf, desmilagrei a minha tese.

Resolvi reinventar um Capítulo IV que será, possivelmente, o Capítulo I na versão final.

Resultado: tenho 2 semanas para lhe dar à luz e para fazer as revisões no resto antes de mandar tudo ao Menno, dói-me o cérebro, dóiem-me os olhos, dóiem-me as costas, tenho frio, tenho fome e o príncipe nunca mais chega.

Quero um prato de Cerelac, quero Nestum, quero um leitinho com chocolate, quero um leitinho com mel, quero uma sopinha toda passadinha sem bocados de legumes grandes, quero puré com ovos e fiambre, quero bife com batatas fritas e molho, quero a minha mãe, Buááááá!

Milagre




Acabei de perceber que posso fazer milagres sem problemas nenhuns:

De repente, hoje, PUF!

Dei por mim a atacar a introdução da tese, que é sinónimo de: está mesmo mesmo no fim.
Tudo isto por ter simplesmente decidido suprimir o último capítulo e transformá-lo numa coherente e interessante conclusão.

É tão fácil! De um momento para o outro a enorme montanha transformou-se em rato. E tá no papo.

O Menno ainda não sabe do milagre, é verdade, mas tenho a certeza que quando souber não vai estrebuchar, que ele é amigo.

E com tudo isto, amigos, tenho 19,000 das 20,000 palavras exigidas, e dois meses até ao prazo de entrega.