Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Arca de Noe
Nyala e neste momento a Arca de Noe do mundo humanitario. Foi-se tudo embora e ficou um de cada raca, ou antes, de cada organizacao. So aqui no PNUD e que ficamos duas. Mas temos genes raros e preciosos, como tal necessarios para a repopulacao do Mundo apos o diluvio.
Envelopes e pacotes
São bemvindos, espcialmente se contêm:
- Porco (em qualquer forma e feitio)
- Café de máquina (Lavazza, the best)
- Jornais e revistas
- Mais revistas, incluindo: Cosmopolitan, Marie Claire, Vogue, Caras, Hola e Raggazza se ainda existir
- DVDs (falta-me: "Alias" Series 3 e 5, "Friends" series 1 a 4, Desperate Housewives serie 2, "Serviço de urgencias" qualquer serie. Gostava de ter: aquela serie de DVDs sobre o 25 de Abril)
- livros, sobretudo sobre o seguinte: Ruanda, Sierra Leoa, Liberia, Angola, quaisquer reportagens de guerra, livros de viagem, biografias
- Uma corda para saltar à corda
- molhos para massa
- queijo Parmesão
- queijo Manchego
Também gostava muito, mas não pode ser, de uma garrafa de Gin tónico.
- Porco (em qualquer forma e feitio)
- Café de máquina (Lavazza, the best)
- Jornais e revistas
- Mais revistas, incluindo: Cosmopolitan, Marie Claire, Vogue, Caras, Hola e Raggazza se ainda existir
- DVDs (falta-me: "Alias" Series 3 e 5, "Friends" series 1 a 4, Desperate Housewives serie 2, "Serviço de urgencias" qualquer serie. Gostava de ter: aquela serie de DVDs sobre o 25 de Abril)
- livros, sobretudo sobre o seguinte: Ruanda, Sierra Leoa, Liberia, Angola, quaisquer reportagens de guerra, livros de viagem, biografias
- Uma corda para saltar à corda
- molhos para massa
- queijo Parmesão
- queijo Manchego
Também gostava muito, mas não pode ser, de uma garrafa de Gin tónico.
Querida irma:
Esperando desesperadamente que seja femea, aqui vao algumas sugestoes de nomes...
... Normais:
- Leonor
- Beatriz
- Ines
... Originais:
- Pilar
- Miriam
- Ester
- Benedita
- Anita
- Fabiola
- Matilde
... Inter-culturais:
- Leila ("nascida a noite" em Arabe)
- Yasmine ("jasmin" em Arabe)
- Intisar ("triunfo" em Arabe)
- Ashanti (nome afro-africano tambem usado na Indonesia)
- Imani ("fe" em Swahili)
... Famosos:
- Indira
- Sissi
... Divinos:
- Filipa
E porque eu sou casada e hei-de ser mae de filhas, estao proibidos os seguintes nomes:
Tessa, Cecilia, Clara, Vitoria, Mafalda, Ema, Chloe, Lea, Zoe.
PARABENS!
... Normais:
- Leonor
- Beatriz
- Ines
... Originais:
- Pilar
- Miriam
- Ester
- Benedita
- Anita
- Fabiola
- Matilde
... Inter-culturais:
- Leila ("nascida a noite" em Arabe)
- Yasmine ("jasmin" em Arabe)
- Intisar ("triunfo" em Arabe)
- Ashanti (nome afro-africano tambem usado na Indonesia)
- Imani ("fe" em Swahili)
... Famosos:
- Indira
- Sissi
... Divinos:
- Filipa
E porque eu sou casada e hei-de ser mae de filhas, estao proibidos os seguintes nomes:
Tessa, Cecilia, Clara, Vitoria, Mafalda, Ema, Chloe, Lea, Zoe.
PARABENS!
Evacuacao
De volta da Europa...
Mal entrei no aviao de Cartum para Nyala vi logo que havia molho a seria no Darfur.
O aviao costuma fazer Nyala (Darfur-Sul) - Geneina (Darfur-Oeste) - Fasher (Darfur-Norte), mas os dois passageiros para Fasher tiveram que desembarcar antes de descolarmos porque "dadas as circunstancias, o aviao nao vai aterrar em Fasher".
Circunstancias? Que circunstancias?
Milicias Arabes atacaram Fasher. Coisa inedita dado que Fasher e uma cidade grande. Os rebeldes do SLA-M defenderam-se e morreu gente no meio do mercado. Depois do ataque, as milicias posicionaram-se a volta da cidade, com o SLA-M e o exercito regular a fazer um cordao de "seguranca". Sim porque apesar de tudo, o SLA-M e o governo sao supostos estar no mesmo lado dado que os dois assinaram o Acordo de Paz do Darfur em Maio passado...
Hoje, as milicias tornaram a atacar o mercado. Alguem naquele cordao de "seguranca" esta a abrir as portas. Muitos dos rebeldes do SLA perderam tudo o que tinham a pala das milicias Arabes, por isso o porteiro benevolente nao ha-de ser o SLA de certeza. Os proximos dias vao com certeza por ainda mais a nu o apoio que o exercito regular da a estas milicias para propagar uma politica racista no minimo, genocidaria no maximo. Estas milicias Arabes sao os ditos "janjawid", ou "diabos a cavalo", que tem aterrorizado a populacao do Darfur. Sao "Arabes" porque pertencem a tribus Darfurianas que se dizem Arabes, por oposicao as tribos que se dizem Africanas. Se querem que vos diga, nao consigo ver a diferenca entre eles: nao e religiao (tribus africanas sao muculmanas), nao e cor de pele (sao todos escuritos para mim), nao e a ocupacao (ha Africanos nomadas e Arabes sedentarios e vice-versa), nao e a regiao de origem... E basicamente uma auto-percepcao.
Estas sao portanto as circunstancias que levaram os dois passageiros do meu voo a desembarcar e que levaram as Nacoes Unidas a evacuar o staff "nao essencial" para Cartum.
E ontem por volta das 6h da tarde, um desfile vergonhoso de carros brancos com as letras "UN" percorreu Fasher, mostrando a todos que a minima coisa a ONU evacua. Nao se arrisca a que brancos sequer corram risco. E sinistro. Ja e mau evacuar, deixando o staff local sem proteccao, mas faze-lo de maneira ostensiva e vergonhoso.
Aqui em Nyala nao se fala em evacuacao. A situacao esta como sempre esteve. Continuo a organizar o meu atelier sobre justica juvenil e a sessao de cinema de domingo que vem, o SLA-M continua em confronto com o SLA-GW, os deslocados continuam a denunciar o acordo de paz e a pedir uma forca de intervencao da ONU, o governo continua a negar autorizacoes de viagem ao pessoal das ONGs etc.
Vou preparar o saco de evacuacao de 15Kg que nunca cheguei a preparar apesar de ser a regra, mas para alem disso a vida em Nyala continua a ser a vida em Nyala. E espero realmente nao ter de sair daqui nas condicoes em que os meus colegas de Fasher sairam. Que humilhacao. Que irresponsabilidade.
Mal entrei no aviao de Cartum para Nyala vi logo que havia molho a seria no Darfur.
O aviao costuma fazer Nyala (Darfur-Sul) - Geneina (Darfur-Oeste) - Fasher (Darfur-Norte), mas os dois passageiros para Fasher tiveram que desembarcar antes de descolarmos porque "dadas as circunstancias, o aviao nao vai aterrar em Fasher".
Circunstancias? Que circunstancias?
Milicias Arabes atacaram Fasher. Coisa inedita dado que Fasher e uma cidade grande. Os rebeldes do SLA-M defenderam-se e morreu gente no meio do mercado. Depois do ataque, as milicias posicionaram-se a volta da cidade, com o SLA-M e o exercito regular a fazer um cordao de "seguranca". Sim porque apesar de tudo, o SLA-M e o governo sao supostos estar no mesmo lado dado que os dois assinaram o Acordo de Paz do Darfur em Maio passado...
Hoje, as milicias tornaram a atacar o mercado. Alguem naquele cordao de "seguranca" esta a abrir as portas. Muitos dos rebeldes do SLA perderam tudo o que tinham a pala das milicias Arabes, por isso o porteiro benevolente nao ha-de ser o SLA de certeza. Os proximos dias vao com certeza por ainda mais a nu o apoio que o exercito regular da a estas milicias para propagar uma politica racista no minimo, genocidaria no maximo. Estas milicias Arabes sao os ditos "janjawid", ou "diabos a cavalo", que tem aterrorizado a populacao do Darfur. Sao "Arabes" porque pertencem a tribus Darfurianas que se dizem Arabes, por oposicao as tribos que se dizem Africanas. Se querem que vos diga, nao consigo ver a diferenca entre eles: nao e religiao (tribus africanas sao muculmanas), nao e cor de pele (sao todos escuritos para mim), nao e a ocupacao (ha Africanos nomadas e Arabes sedentarios e vice-versa), nao e a regiao de origem... E basicamente uma auto-percepcao.
Estas sao portanto as circunstancias que levaram os dois passageiros do meu voo a desembarcar e que levaram as Nacoes Unidas a evacuar o staff "nao essencial" para Cartum.
E ontem por volta das 6h da tarde, um desfile vergonhoso de carros brancos com as letras "UN" percorreu Fasher, mostrando a todos que a minima coisa a ONU evacua. Nao se arrisca a que brancos sequer corram risco. E sinistro. Ja e mau evacuar, deixando o staff local sem proteccao, mas faze-lo de maneira ostensiva e vergonhoso.
Aqui em Nyala nao se fala em evacuacao. A situacao esta como sempre esteve. Continuo a organizar o meu atelier sobre justica juvenil e a sessao de cinema de domingo que vem, o SLA-M continua em confronto com o SLA-GW, os deslocados continuam a denunciar o acordo de paz e a pedir uma forca de intervencao da ONU, o governo continua a negar autorizacoes de viagem ao pessoal das ONGs etc.
Vou preparar o saco de evacuacao de 15Kg que nunca cheguei a preparar apesar de ser a regra, mas para alem disso a vida em Nyala continua a ser a vida em Nyala. E espero realmente nao ter de sair daqui nas condicoes em que os meus colegas de Fasher sairam. Que humilhacao. Que irresponsabilidade.
Solitaire
De volta a Khartoum por um dia, e desesperada por comida decente, tirei 2h para almocar hoje e fui ao Solitaire.
O Solitaire e uma instituicao em Khartoum.
Pequeno cafe-restaurante em mezzanine, mesas com tampo de madeira e pe de ferro forjado, acesso a internet sem fios gratuito e staff Filipino. O menu tem desde sandes e saladas apetitosas a bife strogonoff e sumos de todas as cores e feitios.
Continua a passar o eterno CD que ja passava quando eu ca vivia, que inclui temas como "Unbrake my heart" da grande Tony Braxton dos meus 13 anos. As duas televisoes com coneccao ao satelite tambem ainda estao la, com a mesmo interrupcao de sinal de 15 em 15 minutos, que me pos de cabelos em pe a protestar aos saltos, aquando dos jogos da gloriosa seleccao no Mundial de Futebol em Junho.
E um sitio elitista ao quadrado.
50% dos clientes sentados cada um a sua mesa, solitaires, sao brancos, endinheirados (diplomatas) ou nao (pessoal das ONG) que nao se importam de pagar 5 Euros por um cafe se com ele vier ar condicionado e internet.
Os outros 50% sao a creme de la creme da sociedade, solitaires Sudaneses. Jovens impecavelmente maquilhadas, com tobes (enorme tecido que as mulheres enrolam a volta do corpo e cabeca aqui) coloridas e em algodao puro, a cheirar a Chanel e sapatos de salto agulha. Algumas estao solitarias, a procura de companhia? Outras vem acompanhadas por maridos e irmaos de jellabia impecavelmente branca e engomada, de turbante bem colocado na cabeca (sinal de formalidade - como a gravata para nos) e sapatos engraxados - pelo miudo ali da esquina?
Khartoum e a casa de uma gigantesca elite Sudanesa. A elite Sudanesa e uma serie de familias, que por casamento ou negocio, criaram elos entre tribus importantes. Sao esses individuos que governam o pais e matam. E sao tambem esses individuos que criticam o pais sabendo que nunca, nunca um policia ou soldado violara o codigo de honra e de tradicao que aqui reina.
No Sudao, os grandes criminosos e os grandes defensores de direitos humanos comeram a mesma mesa, conhecem os pais e irmaos uns dos outros. E tanto um grupo como o outro sao intocaveis, protegidos por um codigo que eles proprios formaram. Um codigo que os solitairisa.
O Solitaire e uma instituicao em Khartoum.
Pequeno cafe-restaurante em mezzanine, mesas com tampo de madeira e pe de ferro forjado, acesso a internet sem fios gratuito e staff Filipino. O menu tem desde sandes e saladas apetitosas a bife strogonoff e sumos de todas as cores e feitios.
Continua a passar o eterno CD que ja passava quando eu ca vivia, que inclui temas como "Unbrake my heart" da grande Tony Braxton dos meus 13 anos. As duas televisoes com coneccao ao satelite tambem ainda estao la, com a mesmo interrupcao de sinal de 15 em 15 minutos, que me pos de cabelos em pe a protestar aos saltos, aquando dos jogos da gloriosa seleccao no Mundial de Futebol em Junho.
E um sitio elitista ao quadrado.
50% dos clientes sentados cada um a sua mesa, solitaires, sao brancos, endinheirados (diplomatas) ou nao (pessoal das ONG) que nao se importam de pagar 5 Euros por um cafe se com ele vier ar condicionado e internet.
Os outros 50% sao a creme de la creme da sociedade, solitaires Sudaneses. Jovens impecavelmente maquilhadas, com tobes (enorme tecido que as mulheres enrolam a volta do corpo e cabeca aqui) coloridas e em algodao puro, a cheirar a Chanel e sapatos de salto agulha. Algumas estao solitarias, a procura de companhia? Outras vem acompanhadas por maridos e irmaos de jellabia impecavelmente branca e engomada, de turbante bem colocado na cabeca (sinal de formalidade - como a gravata para nos) e sapatos engraxados - pelo miudo ali da esquina?
Khartoum e a casa de uma gigantesca elite Sudanesa. A elite Sudanesa e uma serie de familias, que por casamento ou negocio, criaram elos entre tribus importantes. Sao esses individuos que governam o pais e matam. E sao tambem esses individuos que criticam o pais sabendo que nunca, nunca um policia ou soldado violara o codigo de honra e de tradicao que aqui reina.
No Sudao, os grandes criminosos e os grandes defensores de direitos humanos comeram a mesma mesa, conhecem os pais e irmaos uns dos outros. E tanto um grupo como o outro sao intocaveis, protegidos por um codigo que eles proprios formaram. Um codigo que os solitairisa.
Uma manha em Nyala
06h03:
Allaaaaaahwabkar allaaaaahwakbar entoa a mesquita do lado. Pronto acordei. Bolas.
06h05:
Tento sair de baixo da rede mosquiteira e irrito-me porque a sola dos pes, por estar tao seca e estalada, adere a rede e puxa aquilo tudo para baixo. A rede toca-me no cabelo e pronto, fico cheia de electricidade estatica. Com este puxa/estica todo, a corda onde a rede esta pendurada agita e faz cair a bola-abajur de papel (daquelas da Ikea) que tambem la esta pendurada a enfeitar porque o quarto so tem uma luz de neon entao nao da para abajures.
06h07:
Faco xixi na casa de banho.
06h08:
Enfio-me na cama outra vez. Mesma lengalenga da sola dos pes na rede mosquiteira, so que sem a bola-abajur cair porque essa ja estao no chao e dali nao passa.
07h00:
"November Delta 5, this is Sierra Base for radio check over. November delta 5 loud and clear over. Roger, November Delta 5 loud and clear over and out". Comecou o radio check matinal para os guardas. Acordei outra vez.
07h15:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no snooze.
07h20:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no smooze.
07h25:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira, pego no telemovel, carrego no snooze e pouso-o em cima do colchao ao lado da almofada para nao ter que lidar com a rede, apre!
07h26:
Penso sera que as ondas do telemovel me vao dar cancro no cerebro, por ele estar tao perto?
07h30:
Toca o despertador do telemovel e carrego logo no snooze.
07h35:
Toca o despertador do telemovel. Penso em Korn Flakes com Yogurte e mel e em cafe com leite. Desligo o despertador e saio da cama. Mesma saga da rede mosquiteira.
07h36:
Penso no que vou vestir. Penso se vou ou nao lavar a cabeca. Pego em duas toalhas se sim. Pego so numa se nao.
07h37:
Duche. Sabe bem, e quentinho. Mas fica a casa de banho toda molhada, e uma chatice. Penso que tenho que trazer oleo para bebe de Khartoum que esta pele esta uma desgraca.
07h47:
Estou limpa e vestida. Ponho os cortinados para cima. Faco a cama. Do um no a rede mosquiteira. Espero que a corda pare de balancar. Penduro a bola-abajur decorativa na corda outra vez.
07h48:
Saio de dentro de casa para ir a cozinha (a cozinha e la fora). Vem logo o guarda "Sabah hal her! Tamam?" ("Manha de paz! Bem?") e eu "Sabah hal Nur. Al Hamdulillah" ("Manha de luz! Gracas a deus"). Como e que consegues estar tao desperto a esta hora com varios radio checks nocturnos em cima?
07h50:
Trago os Korn Flakes e o cafe para dentro de casa que esta um frio do arco da velha (acreditem, isto nao e Khartoum!) e como em frente a televisao a ver a BBC World.
07h53:
Sai a D. do quarto para o duche.
07h54:
Sai o T. do quarto para o outro duche. Penso: sera que sou eu o despertador deles? Nunca se levantam antes de mim...
08h00:
Aparece o motorista a porta da sala. "Filipa, Kef? Tamam?" ("Filipa, como estas? Bem?"). "Hello! Tamam" ("ola, bem"). E ele outra vez "Al hamdulillah" ("gracas a deus").
08h15:
Vou lavar o dente. Penso: sera que devia lavar o dente com agua engarrafada? Esta casa de banho esta um nojo depois de 2 duches.
08h20:
Dizemos todos adeus aos guardas, saimos do perimetro a volta da casa e entramos todos no carro.
08h25:
Chegada ao escritorio. Penso: devia mesmo comprar uma bicicleta e fazer este percurso a pedalar em vez de sentada num enorme jipe branco com UN escrito em grande letras azuis, com os meus colegas caucasianos, conduzidos por um colega Sudanes, logo nao caucasiano. De bina, as pedras que os miudos atiram nao me devem atingir e se pedalar muita muita rapido nem ouco os "cssss, cssss" dos homens com quem me cruzar, certo?
08h26:
Passagem pela casota dos guardas do escritorio. "Sabah hal Her!". "Sabah hal Nur!". Vem a S., a secretaria, que exige tres beijinhos + uma abraco + um bacalhau e ala la para cima.
08h28:
Tiro o computador da gaveta, logo-o e abro o Outlook. Ao mesmo tempo abro o Yahoo! Mail. Tudo vazio.
08h30:
Abro o documento em que estava a trabalhar ontem.
08h32:
Comecam a chover emails no Outlook. O dia comecou.
09h25:
Procuro um motorista. Nao encontro.
09h28:
Chamo um motorista via radio: "November Delta 7.1, this is November Delta 4.9 do you copy over". "This is November Delta 7.1 move to channel 7". "Moving". "November Delta 7.1 can you come to the office now?". "Affirmative, I am on my way. over". "thanks. over and out"
09h30:
Chega o motorista. Entro no carro para ir para a Unicef.
09h35:
Chego a Unicef. Reuniao.
10h40:
Saio da Unicef. Decido voltar a pe para o escritorio para nao estar a espera do motorista.
Comeco a andar. Tudo a olhar. Ouco um "Khawaja. I loviu." Penso: que chatice ter perdido os elasticos do cabelo, ao menos podia prende-lo em vez de andar com ele a solta tipo femea assanhada.
11h50:
De volta ao escritorio. Tenho que responder aos emails que entretanto chegaram, fazer um resumo da reuniao da Unicef. Fazer aquilo que me comprometi a fazer na reuniao...
11h53:
Entra a S., a secretaria. Mais 3 beijinhos, mais um abraco, mais um bacalhau. Vem recolher os 300 dinars para o Fatour (pequeno almoco para eles, almoco para nos)
12h50:
Somos chamados para o Fatour. Tudo la para baixo para a cozinha. Menu: feijao em oleo, salada, ovos mexidos com tomate, figado. Tudo em pratos comuns, no centro da mesa. Nao se usa talheres. Cada um pega no seu pao, tira um bocadinho e usa como garfo. I., a nossa cozinheira, passa-me um copo de Karkadeh (flor vermelha a partir da qual fazem um refresco muita bom) e diz-me nao sei que em Arabe, com um tom de gozo, um sorriso aberto e um brilho de esperteza nos olhos, veu a cair da cabeca (mas nao faz mal) e a descobrir um penteado marado com uns totos hisurtos espetados para cada lado que nao se esperaria de uma enorme senhora na casa dos 30 e muitos anos.
Penso, a I. e a minha pessoa preferida destas todas.
13h00:
Acabei de comer. Levanto-me. "Shukran I.!" ("Obrigada I.!") e volto para a minha mesa. Acabou a manha.
Allaaaaaahwabkar allaaaaahwakbar entoa a mesquita do lado. Pronto acordei. Bolas.
06h05:
Tento sair de baixo da rede mosquiteira e irrito-me porque a sola dos pes, por estar tao seca e estalada, adere a rede e puxa aquilo tudo para baixo. A rede toca-me no cabelo e pronto, fico cheia de electricidade estatica. Com este puxa/estica todo, a corda onde a rede esta pendurada agita e faz cair a bola-abajur de papel (daquelas da Ikea) que tambem la esta pendurada a enfeitar porque o quarto so tem uma luz de neon entao nao da para abajures.
06h07:
Faco xixi na casa de banho.
06h08:
Enfio-me na cama outra vez. Mesma lengalenga da sola dos pes na rede mosquiteira, so que sem a bola-abajur cair porque essa ja estao no chao e dali nao passa.
07h00:
"November Delta 5, this is Sierra Base for radio check over. November delta 5 loud and clear over. Roger, November Delta 5 loud and clear over and out". Comecou o radio check matinal para os guardas. Acordei outra vez.
07h15:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no snooze.
07h20:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no smooze.
07h25:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira, pego no telemovel, carrego no snooze e pouso-o em cima do colchao ao lado da almofada para nao ter que lidar com a rede, apre!
07h26:
Penso sera que as ondas do telemovel me vao dar cancro no cerebro, por ele estar tao perto?
07h30:
Toca o despertador do telemovel e carrego logo no snooze.
07h35:
Toca o despertador do telemovel. Penso em Korn Flakes com Yogurte e mel e em cafe com leite. Desligo o despertador e saio da cama. Mesma saga da rede mosquiteira.
07h36:
Penso no que vou vestir. Penso se vou ou nao lavar a cabeca. Pego em duas toalhas se sim. Pego so numa se nao.
07h37:
Duche. Sabe bem, e quentinho. Mas fica a casa de banho toda molhada, e uma chatice. Penso que tenho que trazer oleo para bebe de Khartoum que esta pele esta uma desgraca.
07h47:
Estou limpa e vestida. Ponho os cortinados para cima. Faco a cama. Do um no a rede mosquiteira. Espero que a corda pare de balancar. Penduro a bola-abajur decorativa na corda outra vez.
07h48:
Saio de dentro de casa para ir a cozinha (a cozinha e la fora). Vem logo o guarda "Sabah hal her! Tamam?" ("Manha de paz! Bem?") e eu "Sabah hal Nur. Al Hamdulillah" ("Manha de luz! Gracas a deus"). Como e que consegues estar tao desperto a esta hora com varios radio checks nocturnos em cima?
07h50:
Trago os Korn Flakes e o cafe para dentro de casa que esta um frio do arco da velha (acreditem, isto nao e Khartoum!) e como em frente a televisao a ver a BBC World.
07h53:
Sai a D. do quarto para o duche.
07h54:
Sai o T. do quarto para o outro duche. Penso: sera que sou eu o despertador deles? Nunca se levantam antes de mim...
08h00:
Aparece o motorista a porta da sala. "Filipa, Kef? Tamam?" ("Filipa, como estas? Bem?"). "Hello! Tamam" ("ola, bem"). E ele outra vez "Al hamdulillah" ("gracas a deus").
08h15:
Vou lavar o dente. Penso: sera que devia lavar o dente com agua engarrafada? Esta casa de banho esta um nojo depois de 2 duches.
08h20:
Dizemos todos adeus aos guardas, saimos do perimetro a volta da casa e entramos todos no carro.
08h25:
Chegada ao escritorio. Penso: devia mesmo comprar uma bicicleta e fazer este percurso a pedalar em vez de sentada num enorme jipe branco com UN escrito em grande letras azuis, com os meus colegas caucasianos, conduzidos por um colega Sudanes, logo nao caucasiano. De bina, as pedras que os miudos atiram nao me devem atingir e se pedalar muita muita rapido nem ouco os "cssss, cssss" dos homens com quem me cruzar, certo?
08h26:
Passagem pela casota dos guardas do escritorio. "Sabah hal Her!". "Sabah hal Nur!". Vem a S., a secretaria, que exige tres beijinhos + uma abraco + um bacalhau e ala la para cima.
08h28:
Tiro o computador da gaveta, logo-o e abro o Outlook. Ao mesmo tempo abro o Yahoo! Mail. Tudo vazio.
08h30:
Abro o documento em que estava a trabalhar ontem.
08h32:
Comecam a chover emails no Outlook. O dia comecou.
09h25:
Procuro um motorista. Nao encontro.
09h28:
Chamo um motorista via radio: "November Delta 7.1, this is November Delta 4.9 do you copy over". "This is November Delta 7.1 move to channel 7". "Moving". "November Delta 7.1 can you come to the office now?". "Affirmative, I am on my way. over". "thanks. over and out"
09h30:
Chega o motorista. Entro no carro para ir para a Unicef.
09h35:
Chego a Unicef. Reuniao.
10h40:
Saio da Unicef. Decido voltar a pe para o escritorio para nao estar a espera do motorista.
Comeco a andar. Tudo a olhar. Ouco um "Khawaja. I loviu." Penso: que chatice ter perdido os elasticos do cabelo, ao menos podia prende-lo em vez de andar com ele a solta tipo femea assanhada.
11h50:
De volta ao escritorio. Tenho que responder aos emails que entretanto chegaram, fazer um resumo da reuniao da Unicef. Fazer aquilo que me comprometi a fazer na reuniao...
11h53:
Entra a S., a secretaria. Mais 3 beijinhos, mais um abraco, mais um bacalhau. Vem recolher os 300 dinars para o Fatour (pequeno almoco para eles, almoco para nos)
12h50:
Somos chamados para o Fatour. Tudo la para baixo para a cozinha. Menu: feijao em oleo, salada, ovos mexidos com tomate, figado. Tudo em pratos comuns, no centro da mesa. Nao se usa talheres. Cada um pega no seu pao, tira um bocadinho e usa como garfo. I., a nossa cozinheira, passa-me um copo de Karkadeh (flor vermelha a partir da qual fazem um refresco muita bom) e diz-me nao sei que em Arabe, com um tom de gozo, um sorriso aberto e um brilho de esperteza nos olhos, veu a cair da cabeca (mas nao faz mal) e a descobrir um penteado marado com uns totos hisurtos espetados para cada lado que nao se esperaria de uma enorme senhora na casa dos 30 e muitos anos.
Penso, a I. e a minha pessoa preferida destas todas.
13h00:
Acabei de comer. Levanto-me. "Shukran I.!" ("Obrigada I.!") e volto para a minha mesa. Acabou a manha.
O meu briefing bi-semanal sobre seguranca
"An incident occurred yesterday at twelvehundred hours in the locality of Mike-Uniform-Hotel-Alpha-Juliet-Echo-Romeo-India-Alpha, where an INGO convoy of three vehicles transporting NFIs was looted by unidentified attackers. The vehicles had left Nyala at zeroninehundred hoursNone of the vehicles was MoSS compliant so they were unable to establish radio communication with Sierra Base. Communication was fortunately established via one Thuraya that the assailants for some reason did not take. We advise all staff to check all vehicles for MoSS compliance and to communicate with the base throughout their journey. UNDSS will not issue MoPs for the area at stake until the FSCA assesses the situation on the ground. Please advise all HOs and OICs to attend the SMT meeting."
Para que todos percebamos:
Twelvehundred hours = 1200 = 12:00 = 12h00
INGO = International Non-Governmental Organisation
NFIs = Non-Food Items
zeroninehundred hours = 0 900 = 09:00 = 09h00
MoSS = Minumum Operating Security Standards
UNDSS = United Nations Department of Safety and Security
FSCA = Field Security Coordination Assistant
Sierra Base = Security Base (main security office)
Thuraya = telefone satelite (custa um balurdio, mas funciona sempre, porque o governo gracas a dios nao consegue desligar satelites)
MoP = Movement of Personel, autorizacao necessaria para todo e qualquer movimento de pessoal fora da cidade.
HOs = Heads of Office = chefes
OICs = Officers In Charge
SMT = Security Management Team
Mas a perola destes briefings e mesmo o belo do alfabeto militar:
Zulu? Porque Zulu e nao Zebra?
Uf! Que bom estar quase a ir de R&R (=arenar = Rest and Recuperation = sete dias durante os quais o staff e obrigado a ir arejar para outras bandas. Aqui e de 6 em 6 semanas).
Para que todos percebamos:
Twelvehundred hours = 1200 = 12:00 = 12h00
INGO = International Non-Governmental Organisation
NFIs = Non-Food Items
zeroninehundred hours = 0 900 = 09:00 = 09h00
MoSS = Minumum Operating Security Standards
UNDSS = United Nations Department of Safety and Security
FSCA = Field Security Coordination Assistant
Sierra Base = Security Base (main security office)
Thuraya = telefone satelite (custa um balurdio, mas funciona sempre, porque o governo gracas a dios nao consegue desligar satelites)
MoP = Movement of Personel, autorizacao necessaria para todo e qualquer movimento de pessoal fora da cidade.
HOs = Heads of Office = chefes
OICs = Officers In Charge
SMT = Security Management Team
Mas a perola destes briefings e mesmo o belo do alfabeto militar:
A: Alpha
B: Bravo
C: Charlie
D: Delta
E: Echo
F: Foxtrot
G: Golf
H: Hotel
I: India
J: Juliet
K: Kilo
L: Lima
M: Mike
N: November
O: Oscar
P: Papa
Q: Quebec
R: Romeo
S: Sierra
T: Tango
U: Uniform
V: Victor
W: Whiskey
X: X-Ray
Y: Yankee
Z: Zulu
Zulu? Porque Zulu e nao Zebra?
Uf! Que bom estar quase a ir de R&R (=arenar = Rest and Recuperation = sete dias durante os quais o staff e obrigado a ir arejar para outras bandas. Aqui e de 6 em 6 semanas).
Desenvolvi uma alergia à Hena. A minha decoração corporal é agora uma mixto de hena a desaparecer e de borbulhas/bolhas. Ao menos a forma floral mantém-se.
Isto tudo em pele branca cadavérica não dá com nada. Parece que me pintei com marcador para quadro branco roubado à minha mãe e que ela me obrigou a tomar banho e agora está tudo a esbater-se.
Isto tudo em pele branca cadavérica não dá com nada. Parece que me pintei com marcador para quadro branco roubado à minha mãe e que ela me obrigou a tomar banho e agora está tudo a esbater-se.
Boa notícia.
Quem quizer saber mais sobre o assunto, leia este excelente livro
Quando estou submergida no mundo das fêmeas e da Hena, aqui, penso sempre: será que esta é? Será que aquela é? Com a aproximação de um casamento, será que têm medo? Em breve descobrirei mais sobre este assunto.
Quem quizer saber mais sobre o assunto, leia este excelente livro
Quando estou submergida no mundo das fêmeas e da Hena, aqui, penso sempre: será que esta é? Será que aquela é? Com a aproximação de um casamento, será que têm medo? Em breve descobrirei mais sobre este assunto.
Arussa
Eid
Eid marca o fim do Ramadão e está a acontecer agora.
Para os Sudaneses quer dizer intensa vida social e partilha de comida com familiares e amigos.
Para mim quer dizer:
1) visitar as casas de todo o staff local aqui do escritório (e são muitas...);
2) roçar a crise diabética com uma dose diária de 2Kg de bonbons, bolinhos e afins e 2L diários de coca-cola ou Mirinda roxa (sabor a sintese de amora);
3) juntar a minha mão a várias outras mãos para alcançar o feijão em óleo de sésamo e as bolinhas de falafel (croquetes de grão de bico) ao jantar;
4) perceber que sou "arusso": noiva;
5) dançar como "arusso" que sou: estalando os dedos e encolhendo e desencolhendo os ombros ao ritmo de uma música monocórdica que por misteriosa razão nunca acaba;
6) submeter-me a sessão de hena para "arussos": pinturas nas duas mãos e nos dois pés. As hereges não "arusso" só pintam uma mão;
7) praticar o rlirlirlirlirlirlirlirlirli que fazem as verdadeiras mulheres daqui.
Se fosse homem andaria à vontade nas ruas de Nyala, não teria grupos suspeitos a olhar insistentemente e não ouviria o constante e universal "csss, csss...".
Mas sendo mulher tenho acesso a este mundo de fêmeas. E extenuante, mas vale a pena!
Para os Sudaneses quer dizer intensa vida social e partilha de comida com familiares e amigos.
Para mim quer dizer:
1) visitar as casas de todo o staff local aqui do escritório (e são muitas...);
2) roçar a crise diabética com uma dose diária de 2Kg de bonbons, bolinhos e afins e 2L diários de coca-cola ou Mirinda roxa (sabor a sintese de amora);
3) juntar a minha mão a várias outras mãos para alcançar o feijão em óleo de sésamo e as bolinhas de falafel (croquetes de grão de bico) ao jantar;
4) perceber que sou "arusso": noiva;
5) dançar como "arusso" que sou: estalando os dedos e encolhendo e desencolhendo os ombros ao ritmo de uma música monocórdica que por misteriosa razão nunca acaba;
6) submeter-me a sessão de hena para "arussos": pinturas nas duas mãos e nos dois pés. As hereges não "arusso" só pintam uma mão;
7) praticar o rlirlirlirlirlirlirlirlirli que fazem as verdadeiras mulheres daqui.
Se fosse homem andaria à vontade nas ruas de Nyala, não teria grupos suspeitos a olhar insistentemente e não ouviria o constante e universal "csss, csss...".
Mas sendo mulher tenho acesso a este mundo de fêmeas. E extenuante, mas vale a pena!
O sonho a dois meses de distância
Está decidido o principe e eu vamos voar até aqui!
E explorar tuuuuudo!
Atékenfim!!
E explorar tuuuuudo!
Atékenfim!!
Pronk, ganda bronk
Por causa do que escreveu aqui à cerca das desfeitas do exército Sudanês face aos rebeldes no Darfur, Jan Pronk, representante do Kofi Annan no Sudão, tem 72h para sair do país.
Mas convenhamos, era uma questão de tempo. Tirando o posto de chefe das forças da ONU no Rwanda em Abril de 1994, o posto de representante da ONU no Sudão em 2006 é provavelmente uma dos mais difíceis de aguentar.
O cargo foi criado no contexto do acordo de paz Norte-Sul de 2005 e da criação de um governo transitório de União Nacional, após 20 e tal anos de guerra civil. Enquanto a paz se faz a Sul, o Este desasossega-se e o Oeste rompe em guerra (Darfur), não por pretensões independentistas como o Sul, mas por um semelhante sentimento de marginalização e um desejo de representação a nível do governo central. Com um país deste tamanho, que de federalista tem só o nome, instabilidades regionais são ao mesmo tempo uma consequencia e um teste para o acordo de paz Norte-Sul. Daí o escrutínio diligente de Pronk a questões que se situam tecnicamente - e apenas tecnicamente - fora do seu mandato. Daí a bronk.
E este acontecimento é realmente revelador dos limites do Governo de União Nacional Norte-Sul:
O teste não está a correr bem, dado que Pronk foi declarado persona non grata em nome do Governo pelo Presidente, ignorando totalmente a posição do Vice-Presidente Salva Kiir (sucessor do histórico John Garang, falecido - diz que acidentalmente mas ó ó mon oeil - em Agosto do ano passado), que chegou ao absurdo de denunciar a decisão que saíu do seu próprio escritório. Em troca de paz e de uma eventual futura ceceção ao longo de uma linha de fronteira ainda por definir que passa por reservas de petróleo das quais o Norte não tem intenção nenhuma de abdicar, os representantes do Sul-Sudão acomodaram-se em Khartoum numa estado de letargia à espera que o tempo até 2011 passe depressa. Por este autêntica deserção, o Sul é agora cúmplice do anti-ONUismo da clique do Presidente e, caso a expulsão de Pronk cause a suspensão do mandato da UNMIS, acabou de perder a instituição que lhes garantia apoio político e material necessário para reconstruir o Sul.
Em segundo lugar, a expulsão de Pronk traz obviamente mais más notícias para o Darfur:
Após meses e meses de alarido e de grito ao genocídio pelos Americanos, que só contribuiu para antagonizar ainda mais as relações entre Khartoum e a comunidade internacional, a ONU tinha finalmente conseguido obter um compromisso, segundo o qual seriam enviados para o Darfur não os tão contestados capacetes azuis do famoso Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, mas sim os menos conhecidos observadores militares do quase incógnito mas não menos interessante Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas. Isto num contexto em que a missão de paz da União Africana tinha acabado de ser prolongada (Outubro 2006) e recebido várias promessas de apoio financeiro por parte, entre outros, de vários Estados Arabes. Foi um passo para a frente. E esta expulsão deu dois passos para trás. O apoio financeiro do países Arabes não chegou, os combates governo-rebeldes e rebeldes-rebeldes recomeçaram, acompanhados pelas habituais deslocações de população en masse, a ONU perdeu o seu representante no país e Khartoum recusa que um novo representante seja nomeado enquanto o novo Secretário Geral da ONU não tomar posse. O que acontecerá em Janeiro, altura em que o mandato da União Africana terá acabado de expirar.
E um cálculo quase matemático do governo de Khartoum para conservar a faca e o queijo na mão em relação ao Darfur.
Mas convenhamos, era uma questão de tempo. Tirando o posto de chefe das forças da ONU no Rwanda em Abril de 1994, o posto de representante da ONU no Sudão em 2006 é provavelmente uma dos mais difíceis de aguentar.
O cargo foi criado no contexto do acordo de paz Norte-Sul de 2005 e da criação de um governo transitório de União Nacional, após 20 e tal anos de guerra civil. Enquanto a paz se faz a Sul, o Este desasossega-se e o Oeste rompe em guerra (Darfur), não por pretensões independentistas como o Sul, mas por um semelhante sentimento de marginalização e um desejo de representação a nível do governo central. Com um país deste tamanho, que de federalista tem só o nome, instabilidades regionais são ao mesmo tempo uma consequencia e um teste para o acordo de paz Norte-Sul. Daí o escrutínio diligente de Pronk a questões que se situam tecnicamente - e apenas tecnicamente - fora do seu mandato. Daí a bronk.
E este acontecimento é realmente revelador dos limites do Governo de União Nacional Norte-Sul:
O teste não está a correr bem, dado que Pronk foi declarado persona non grata em nome do Governo pelo Presidente, ignorando totalmente a posição do Vice-Presidente Salva Kiir (sucessor do histórico John Garang, falecido - diz que acidentalmente mas ó ó mon oeil - em Agosto do ano passado), que chegou ao absurdo de denunciar a decisão que saíu do seu próprio escritório. Em troca de paz e de uma eventual futura ceceção ao longo de uma linha de fronteira ainda por definir que passa por reservas de petróleo das quais o Norte não tem intenção nenhuma de abdicar, os representantes do Sul-Sudão acomodaram-se em Khartoum numa estado de letargia à espera que o tempo até 2011 passe depressa. Por este autêntica deserção, o Sul é agora cúmplice do anti-ONUismo da clique do Presidente e, caso a expulsão de Pronk cause a suspensão do mandato da UNMIS, acabou de perder a instituição que lhes garantia apoio político e material necessário para reconstruir o Sul.
Em segundo lugar, a expulsão de Pronk traz obviamente mais más notícias para o Darfur:
Após meses e meses de alarido e de grito ao genocídio pelos Americanos, que só contribuiu para antagonizar ainda mais as relações entre Khartoum e a comunidade internacional, a ONU tinha finalmente conseguido obter um compromisso, segundo o qual seriam enviados para o Darfur não os tão contestados capacetes azuis do famoso Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, mas sim os menos conhecidos observadores militares do quase incógnito mas não menos interessante Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas. Isto num contexto em que a missão de paz da União Africana tinha acabado de ser prolongada (Outubro 2006) e recebido várias promessas de apoio financeiro por parte, entre outros, de vários Estados Arabes. Foi um passo para a frente. E esta expulsão deu dois passos para trás. O apoio financeiro do países Arabes não chegou, os combates governo-rebeldes e rebeldes-rebeldes recomeçaram, acompanhados pelas habituais deslocações de população en masse, a ONU perdeu o seu representante no país e Khartoum recusa que um novo representante seja nomeado enquanto o novo Secretário Geral da ONU não tomar posse. O que acontecerá em Janeiro, altura em que o mandato da União Africana terá acabado de expirar.
E um cálculo quase matemático do governo de Khartoum para conservar a faca e o queijo na mão em relação ao Darfur.
A minha padaria
Começa a ser um leitmotiv neste blog, mas não posso deixar de mencionar que encontrei "a minha padaria" em Nyala-South Darfur. Fica ali para trás na estrada principal, em passando a Unicef, na parte onde a estrada alarga para um descampado, tão a ver?
Fornos enormes a dar para a estrada e pão, redondinho, sem fermento, sempre quente e saboroso, a Itnên o saco de 10.
Fornos enormes a dar para a estrada e pão, redondinho, sem fermento, sempre quente e saboroso, a Itnên o saco de 10.
Bugalhamento
Neste sítio há bugalhada em todo o lado: moscas gigantes que saltam 50 cm acima do chão, gafanhotos brancos que saltam por cime da minha cabeça, baratas pretas, baratas verdes pequeninas, grilos histéricos (um entrou em stress preso dentro da minha mochila por baixo da cama ontem à noite e eu levei meia hora a identificar de onde vinha o estrilho que não me deixava dormir), e os inevitaveis mosquitos-oxalá-não-portadores-de-malaria-que-eu-esqueço-me-sempre-do repelente.
Há também o buga-killer: o rato darfuriano. Corpo alongado, sinuoso, castanho, pelo sedoso.
Talvez por saber que o chão está limpo, talvez por cheirar a Omo, não sinto nojo absolutamente nenhum destas criaturas.
Há também o buga-killer: o rato darfuriano. Corpo alongado, sinuoso, castanho, pelo sedoso.
Talvez por saber que o chão está limpo, talvez por cheirar a Omo, não sinto nojo absolutamente nenhum destas criaturas.
Só falta o Príncipe
Eu sei que ninguém acredita, mas estou mesmo contente por estar aqui. Nyala tem uma atmosfera, uma energia, um magnetismo que me estão a fascinar e a angustiar ao mesmo tempo, porque à volta da cidade é miséria profunda e caos total.
Mas não imaginam como me senti hoje, quando dei uma volta pela cidade. Fim de tarde, luz de quase quase pôr-do-sol, temperatura quente mas aconchegante, numa estrada serpenteando pelo mercado. A certa altura a vegetação faz-se mais densa e o mercado morre e dou por mim numa ponte. Cheguei ao Wadi. O rio. E não mais que ume larguissima banda de areia, com uma ou outra árvore no meio, mas dezenas de pessoas passeiam, de mão dada ou abaraçadas - os homens - outros muito direitos, recolhidos sobre si e afastados - as mulheres. E à minha direita de repente o Sol, enorme, trémulo, côr-de-laranja intenso.
E ao pensar "estou em Africa" o peito encheu-se não sei se de emoção, se de medo, se de felicidade e expirei: "só falta o Príncipe".
Mas não imaginam como me senti hoje, quando dei uma volta pela cidade. Fim de tarde, luz de quase quase pôr-do-sol, temperatura quente mas aconchegante, numa estrada serpenteando pelo mercado. A certa altura a vegetação faz-se mais densa e o mercado morre e dou por mim numa ponte. Cheguei ao Wadi. O rio. E não mais que ume larguissima banda de areia, com uma ou outra árvore no meio, mas dezenas de pessoas passeiam, de mão dada ou abaraçadas - os homens - outros muito direitos, recolhidos sobre si e afastados - as mulheres. E à minha direita de repente o Sol, enorme, trémulo, côr-de-laranja intenso.
E ao pensar "estou em Africa" o peito encheu-se não sei se de emoção, se de medo, se de felicidade e expirei: "só falta o Príncipe".
Impressões preliminares
Nyala é menos quente que Khartoum
Nyala é mais verde que Khartoum
Nyala é mais pobre que Khartoum
Nyala é mais cara que Khartoum
Nyala é mais verde que Khartoum
Nyala é mais pobre que Khartoum
Nyala é mais cara que Khartoum
Verão em Berlim
Ontem, ainda Agosto era, ligámos os aquecedores em todas as divisões do apartamento.
Já parti um guarda-chuva por causa da força do vento e ando de casaco comprido e cachecol na rua. Quando a chuva abranda e pego na bicicleta fico com frieiras nas mãos porque não pus luvas e no outro dia desci o mais fundo que uma Sul-Europeia pode descer: fui a um Sun Studio apanhar raios de sol sintéticos numa espécie de nave espacial. Após ter superado o medo de estar ali deitada debaixo de raios UV, devo dizer que até relaxei e me imaginei no Algarve. Ao fim de alguns minutos comecei a sentir a pele da cara a esticar, como quando se volta para casa depois da praia, e fiquei contente com a vida em geral e a minha em particular. Não se vê grande bronze, mas foram 5 € bem utilizados porque me salvaram do suicídio.
Não obstante, independentemente dos progressos do sistema de raios UV, prometo aqui solenemente nunca mas nunca criar filhos num país do Norte.
A bolha
De manhã consulto todos os jornais e documentos disponíveis online para tentar perceber o que se vai passando no Darfur. Leio que ataques contra civis e pessoal humanitário aumentaram drasticamente, que crianças estão a ser recrutadas para o combate, que Khartoum está a concentrar tropas no Norte e Oeste da região, que o mandato da União Africana expira a 30 de Setembro e ninguém sabe o que vai acontecer depois, que o exercito de Khartoum vai combater a força da ONU se esta algum dia puser os pés no Darfur.
De tarde entrevisto potenciais DJs, revejo menus de alta gastronomia, preparo cartões para lugares, faço provas de vestido de noiva, faço desporto para perder alguns quilos, percorro sapatarias e considero dar ou não dar 400€ por um bolo.
Estou neste momento a viver em duas bolhas, duas vidas que têm os seus próprios ritmos mas que evoluem em vácuo, em circuito fechado, tendo como horizonte uns quantos meses aqui e uns quantos meses ali.
Preciso superar a tentação da esquizofrenia do meio-dia.
De tarde entrevisto potenciais DJs, revejo menus de alta gastronomia, preparo cartões para lugares, faço provas de vestido de noiva, faço desporto para perder alguns quilos, percorro sapatarias e considero dar ou não dar 400€ por um bolo.
Estou neste momento a viver em duas bolhas, duas vidas que têm os seus próprios ritmos mas que evoluem em vácuo, em circuito fechado, tendo como horizonte uns quantos meses aqui e uns quantos meses ali.
Preciso superar a tentação da esquizofrenia do meio-dia.
A minha padaria

Os habitués deste blog já conhecem a minha paderia aqui de Berlim, gerida por uma família de motoqueiros tatuados com cara de maus que vende os melhores pães e croissants do bairro e que não assusta as crianças.
Pois bem, a família de padeiros foi de férias e deixou este delicioso cartaz à porta. Reproduz a foto que têm lá dentro em formato mega mega-gigante e a cores.
Para verem que não exagerei na descrição!
Adaptação
Parte da readaptação à civilização é habituar-me a andar na rua de saia curta e T-shirt curta sem me sentir nua, dar a mão ao príncipe em público sem me sentir julgada, ouvir sinos de igreja e não sermões de minaretes, poder comprar natas frescas e água tónica em qualquer lado e beber uma jola no café da esquina.
E é também continuar a sentir-me estrangeira e embarassada por não conseguir exprimir-me com a senhora do supermercado, com o senhor dos jornais e com a padeira (coisa que estranhamente não acontecia com o Arabe).
E mais fácil viver com a barreira cultural e linguística do Sudão do que com a de Berlim. Lá, sou diferente de qualquer maneira, faça o que fizer. Aqui estou integrada numa aparência de normalidade em que me sinto muito mais isolada e autista.
Talvez o investimento que fiz ontem em livros de exercícios de Alemão nível B-1 traga frutos.
E é também continuar a sentir-me estrangeira e embarassada por não conseguir exprimir-me com a senhora do supermercado, com o senhor dos jornais e com a padeira (coisa que estranhamente não acontecia com o Arabe).
E mais fácil viver com a barreira cultural e linguística do Sudão do que com a de Berlim. Lá, sou diferente de qualquer maneira, faça o que fizer. Aqui estou integrada numa aparência de normalidade em que me sinto muito mais isolada e autista.
Talvez o investimento que fiz ontem em livros de exercícios de Alemão nível B-1 traga frutos.
Direitos humanos em jogo
Este é provavelmente a coisa mais ridicula que já vi:
www.darfurisdying.com
Em contrapartida este tem potancial:
www.peacemaker.com
O mais irónico é que há umas semanas atrás eu tinha elaborado uma teoria para um jogo a que dei o nome de "Peacemaker" que depois mudei para "Peacebroker".
O princípio do jogo era:
- situação de partida caótica: regiões do mundo em guerra
- cada jogador representa um Estado e recebe um cartão com o pano de fundo da sua própria história: antigas alianças, crimes cometidos, crimes sofridos, fragilidades internas, parcerias económicas etc...
- o objectivo do jogo é estabilizar o mundo
- o método é exercer diplomacia junto dos outros jogadores
- cada jogador encarna o seu país (jeu de rôle) e toma decisões seguindo um princípio de racionalidade, tendo em conta o seu passado, os seus interesses e a evolução da atitude dos outros jogadores.
O que é lindo é que neste meu jogo, cada partida seria diferente, em função dos jogadores que nela participam.
Ainda tenho que pensar melhor nos detalhes, mas alguém partocina a minha ideia?
www.darfurisdying.com
Em contrapartida este tem potancial:
www.peacemaker.com
O mais irónico é que há umas semanas atrás eu tinha elaborado uma teoria para um jogo a que dei o nome de "Peacemaker" que depois mudei para "Peacebroker".
O princípio do jogo era:
- situação de partida caótica: regiões do mundo em guerra
- cada jogador representa um Estado e recebe um cartão com o pano de fundo da sua própria história: antigas alianças, crimes cometidos, crimes sofridos, fragilidades internas, parcerias económicas etc...
- o objectivo do jogo é estabilizar o mundo
- o método é exercer diplomacia junto dos outros jogadores
- cada jogador encarna o seu país (jeu de rôle) e toma decisões seguindo um princípio de racionalidade, tendo em conta o seu passado, os seus interesses e a evolução da atitude dos outros jogadores.
O que é lindo é que neste meu jogo, cada partida seria diferente, em função dos jogadores que nela participam.
Ainda tenho que pensar melhor nos detalhes, mas alguém partocina a minha ideia?
Adeus Khartoum!
Nyala

Fui ao Darfur para ver como é e concluí que sim, posso là viver durante um ano.
No Darfur há chuva, então as cores são diferentes de Khartoum. Parece mais Africa.

Conheci o meu futuro escritório.
E mais não vi porque em Nyala não se vê o que é o Darfur.
Em apenas algumas horas conheci no entanto futuros colegas de trabalho de quem gostei muito. A Norueguesa frágil e loirinha que coordena a ajuda num campo com 1 Milhão deslocados a Sul da cidade, que esteve no Rwanda em 94 e no Congo logo a seguir. O Americano que vai ser meu chefe que esteve em Timor ao mesmo tempo que eu, mas que eu não conheci. E foi-me indicada a presença de um Português com o Comité da Cruz Vermelha e de uma data de lusófonos que passaram a certa altura algum tempo em Angola.
Khartoum não tem esta riqueza de expatriados. Tem diplomatas excessivamente pagos e levemente racistas.
Vou gostar de Nyala.
Salam - Paz
Estive dois dias em Kosti, uma cidadezinha a 400 Km a Sul de Khartoum seguindo o Nilo Branco, ainda na parte Norte (muculmana) do Sudao.
Fomos visitar um projecto organizado em varias escolas da cidade: promocao de direitos humanos atraves de actividades extra-escolares de danca e musica. Ha um ano atras era impensavel ver criancas a cantar sobre a unidade do Sudao e a riqueza de ter tantas etnias, religioes, linguas e cultura num so pais.
Esto era uma encenacao sobre as varias etnias do Sul do Sudao: um grupo de raparigas de Kosti (com veu na cabeca por serem muculmanas), disfarcadas de Sudistas (com uns panos coloridos a volta da cintura a ampliar o tamanho do traseiro), dancando de forma muito sensual. Sim, porque as Sudistas, sao aquelas mulheres lindas de morrer, que nao tem que andar todas cobertas porque nao sao muculmanas, que tem um rabo espevitado e que abanam as ancas como mais ninguem sabe fazer. E foi um espectaculo ver miudas muculamanas, de 10-12 anos a encarnar essa imagem sem inibicao nenhuma (embora sem o ritmo de ancas que tem as verdadeiras Sudistas...):

Face a tal espectaculo, discursamos:

(Esq: Luca - Dir: Zeinab, que juntamente com moi-meme formam a super task force da Delegacao para direitos humanos)
Visitamos mais escolas e o que vimos foi o seguinte:
Professoras:

Professores:

chavalinhas:

e chavalinhos:
Fomos visitar um projecto organizado em varias escolas da cidade: promocao de direitos humanos atraves de actividades extra-escolares de danca e musica. Ha um ano atras era impensavel ver criancas a cantar sobre a unidade do Sudao e a riqueza de ter tantas etnias, religioes, linguas e cultura num so pais.
Esto era uma encenacao sobre as varias etnias do Sul do Sudao: um grupo de raparigas de Kosti (com veu na cabeca por serem muculmanas), disfarcadas de Sudistas (com uns panos coloridos a volta da cintura a ampliar o tamanho do traseiro), dancando de forma muito sensual. Sim, porque as Sudistas, sao aquelas mulheres lindas de morrer, que nao tem que andar todas cobertas porque nao sao muculmanas, que tem um rabo espevitado e que abanam as ancas como mais ninguem sabe fazer. E foi um espectaculo ver miudas muculamanas, de 10-12 anos a encarnar essa imagem sem inibicao nenhuma (embora sem o ritmo de ancas que tem as verdadeiras Sudistas...):

Face a tal espectaculo, discursamos:

(Esq: Luca - Dir: Zeinab, que juntamente com moi-meme formam a super task force da Delegacao para direitos humanos)
Visitamos mais escolas e o que vimos foi o seguinte:
Professoras:

Professores:

chavalinhas:

e chavalinhos:
Um jovem 5 estrelas
Temos um novo ocupante no nosso apartamento.
Apos ter ficado umas semanas encalhado no Egipto a espera do Visto, periodo durante o qual resolveu entrevistar alguns refugiados Sudaneses que vivem na ruas do Cairo, a passar fome, cuspidos para fora da humanidade pelos Egipcios e pelo ACNUR dado que o Sudao, segundo o staff do Guterres, e hoje um pais seguro... chegou a Khartoum para ajudar uma ONG de direitos humanos Sudanesa durante um mes e tal (tal como o Suisso com quem vivo desde Fevereiro tem estado a fazer).
Apos ter ficado umas semanas encalhado no Egipto a espera do Visto, periodo durante o qual resolveu entrevistar alguns refugiados Sudaneses que vivem na ruas do Cairo, a passar fome, cuspidos para fora da humanidade pelos Egipcios e pelo ACNUR dado que o Sudao, segundo o staff do Guterres, e hoje um pais seguro... chegou a Khartoum para ajudar uma ONG de direitos humanos Sudanesa durante um mes e tal (tal como o Suisso com quem vivo desde Fevereiro tem estado a fazer).
Foi "recrutado" quando o ilustre Dr. Mudawi, fundador da dita ONG e "habitue" dos alertas da Amnistia Internacional, dado a regularidade com o poem na prisao - desgracado -, foi a America apertar a mao ao Bush va-se la saber porque, deixando com tal de boca aberta a comunidade sensivel ao direito humano em geral e a ele em particular.
O que e certo e que este jovem de barba e oculos redondos e muita pequenino e magrinho, ou nao tivesse ele origem hebraica, que nao gosta do Bush, que estuda em Harvard, que vendeu malas Louis Vuitton falsas aos Chineses em Paris, que abriu uma livraria nos confins da ilha de Santorini (www.atlantisbooks.org), e tudo isto em apenas 25 aninhos de vida...
E daqueles Americanos que o mundo deveria conhecer para nao desesperar.
Um jovem 5 estrelas.
A minha Seleccao
Toca a andar!
Nunca fui chamada para uma entrevista na vida. Sou estagiaria profissional.
Hoje, telefona-me um jovem da ONU com quem tenho collaborado e diz-me nao queres trabalhar connosco a dar treino a advogados em Nyala?
Nao e lindo?
E eu: ate Outubro nao posso fazer nada. E ele, ta bem nao faz mal, em Outubro pode ser.
Nao e lindo?
Ariops! Va la ver!
Hoje, telefona-me um jovem da ONU com quem tenho collaborado e diz-me nao queres trabalhar connosco a dar treino a advogados em Nyala?
Nao e lindo?
E eu: ate Outubro nao posso fazer nada. E ele, ta bem nao faz mal, em Outubro pode ser.
Nao e lindo?
Ariops! Va la ver!
La se vai um amigo Sudanes
Ja vos tinha falado do jovem condutor de taxi que costumava levar-me ao trabalho todos os dias e que era gago e parecia o meu sobrinho.
Por uma qualquer insondavel razao, a boa disposicao tornou-se progressivamente num estado queixoso a cerca das dificuladades da vida, na chatice que e viver aqui, da chatice que ganhar para a familia toda etc. Ao mesmo tempo, recusou uma proposta que lhe fiz de passar a levar tambem duas colegas minhas para o trabalho, quando ouviu os nomes delas e percebeu que nao eram jovens brancas de cabeca descoberta e calcas, mas mulheres sudanesas. Sim, realmente nao da tanto estilo.
A curiosidade tornou-se indiscricao: "entao voces sao duas raparigas a viver com um homem? Cada um tem o seu quarto?", "e como e que o teu marido nao se sente ofendido?"
A amena cavaqueira tornou-se conversa escabrosa: "quando estou com uma prostituta...". Ao que eu respondi, nao me estas e a respeitar a mim com essa conversa e vais-te calar e e ja que depois das merdas puritanas que estavas a dizer ha dois minutos isso nao calha nada bem.
E no outro dia, quando chegamos a porta do escritorio uma colega minha Sudanesa estava a entrar e a cara dele transformou-se completamente. Parecia o lobo mau a olhar para ela: "vou-te comer". Sim, essa minha colega Sudanesa tem a pele clarinha, veste-se como uma princesa e e linda de morrer.
Ironia do destino, seria essa mesma colega que ele conduziria ao trabalho todos os dias se nao tivesse recusado a minha proposta por razoes se nao racistas, pelo menos elitistas.
Quando fechei a porta disse-lho e afastei-me para sempre a pensar ainda bem que nao me meti muito mais neste filme.
E foi assim que o Moh entrou para a categoria dos homens que metem um enorme nojo.
Por uma qualquer insondavel razao, a boa disposicao tornou-se progressivamente num estado queixoso a cerca das dificuladades da vida, na chatice que e viver aqui, da chatice que ganhar para a familia toda etc. Ao mesmo tempo, recusou uma proposta que lhe fiz de passar a levar tambem duas colegas minhas para o trabalho, quando ouviu os nomes delas e percebeu que nao eram jovens brancas de cabeca descoberta e calcas, mas mulheres sudanesas. Sim, realmente nao da tanto estilo.
A curiosidade tornou-se indiscricao: "entao voces sao duas raparigas a viver com um homem? Cada um tem o seu quarto?", "e como e que o teu marido nao se sente ofendido?"
A amena cavaqueira tornou-se conversa escabrosa: "quando estou com uma prostituta...". Ao que eu respondi, nao me estas e a respeitar a mim com essa conversa e vais-te calar e e ja que depois das merdas puritanas que estavas a dizer ha dois minutos isso nao calha nada bem.
E no outro dia, quando chegamos a porta do escritorio uma colega minha Sudanesa estava a entrar e a cara dele transformou-se completamente. Parecia o lobo mau a olhar para ela: "vou-te comer". Sim, essa minha colega Sudanesa tem a pele clarinha, veste-se como uma princesa e e linda de morrer.
Ironia do destino, seria essa mesma colega que ele conduziria ao trabalho todos os dias se nao tivesse recusado a minha proposta por razoes se nao racistas, pelo menos elitistas.
Quando fechei a porta disse-lho e afastei-me para sempre a pensar ainda bem que nao me meti muito mais neste filme.
E foi assim que o Moh entrou para a categoria dos homens que metem um enorme nojo.
Post para a Mary
Com uma lagrima a transbordar do olho para cima dos meus papeis, queria deixar aqui uma mensagem para a minha irma Maryzinha, para lhe dizer que estarei sempre a escuta para o que der e vier que lhe acontecer em Paris, e em particular nas seguintes ocasioes:
- Nos fins de tarde chuvosos em que ao sair da BNF escorregar no tapete rolante...
- Nas segundas-feiras em que, derivado a BNF estar fechada, tiver que ir para o Beaubourg e nao encontrar outra cadeira que nao ao lado de um ou outro pobre clochard que la esta a ler as Paginas Amarelas ao contrario para se abrigar da chuva e do frio la fora...
- Nos fins-de-semana em que fara 3h de fila para entrar em qualquer bilbioteca...
- No dia do concours, em que entrara numa sala com varios milhares de concorrentes...
- No dia da oral em que tera o peso de ja so ser uma entre dezenas de concorrentes e estar tao perto...
- No dia em que entrar.
- No dia em que nos anunciar que bai pra America
E tambem:
- No dia em que vir que lhe aparecer celulite dada a vida sedentaria e as barras de chocolate Kinder...
- No dia em que se apaixonar
- Nos dias em que detestar Paris
- Nos dias em que adorar Paris
E queria dar-lhe tambem alguns conselhos:
- Tira a carta de conducao antes de ires, senao nunca a vais tirar. Se quizeres podemos po-la na nossa lista de casamento e desviamos os fundos para ti.
- Nao leves barras de chocolate Kinder para os exames, leva barras de cereais.
- tem cuidado com a tralha que acumulas
- trata bem da minha mesa e cadeira com inscricoes
- vai as manifestacoes de estudantes e treina a resistencia ao gas lacrimogeneo, uma experiencia lacrimal unica
- houve radio (RFI "Une semaine en Afrique": et nous avons Mamadou Toure qui nous appelle de Bamako, au Mali...)
- Ve as Urgencias aos Domingos a noite
- Ve o Envoye Special as quintas a noite
- Ve o telejornal da FR2
E partilhar com ela alguns dizeres sabios:
- aguenta-te a bronca
- quem nao arrisca nao petisca
- mais vale mais vale cuber que desister
- deitar cedo e cedo erguer da saude e faz crescer
- deus ajuda quem cedo madruga
- se conduzir nao beba
- o melhor amigo do homem e a irma Filipa
- ha mar e mar ha ir e voltar
- Nos fins de tarde chuvosos em que ao sair da BNF escorregar no tapete rolante...
- Nas segundas-feiras em que, derivado a BNF estar fechada, tiver que ir para o Beaubourg e nao encontrar outra cadeira que nao ao lado de um ou outro pobre clochard que la esta a ler as Paginas Amarelas ao contrario para se abrigar da chuva e do frio la fora...
- Nos fins-de-semana em que fara 3h de fila para entrar em qualquer bilbioteca...
- No dia do concours, em que entrara numa sala com varios milhares de concorrentes...
- No dia da oral em que tera o peso de ja so ser uma entre dezenas de concorrentes e estar tao perto...
- No dia em que entrar.
- No dia em que nos anunciar que bai pra America
E tambem:
- No dia em que vir que lhe aparecer celulite dada a vida sedentaria e as barras de chocolate Kinder...
- No dia em que se apaixonar
- Nos dias em que detestar Paris
- Nos dias em que adorar Paris
E queria dar-lhe tambem alguns conselhos:
- Tira a carta de conducao antes de ires, senao nunca a vais tirar. Se quizeres podemos po-la na nossa lista de casamento e desviamos os fundos para ti.
- Nao leves barras de chocolate Kinder para os exames, leva barras de cereais.
- tem cuidado com a tralha que acumulas
- trata bem da minha mesa e cadeira com inscricoes
- vai as manifestacoes de estudantes e treina a resistencia ao gas lacrimogeneo, uma experiencia lacrimal unica
- houve radio (RFI "Une semaine en Afrique": et nous avons Mamadou Toure qui nous appelle de Bamako, au Mali...)
- Ve as Urgencias aos Domingos a noite
- Ve o Envoye Special as quintas a noite
- Ve o telejornal da FR2
E partilhar com ela alguns dizeres sabios:
- aguenta-te a bronca
- quem nao arrisca nao petisca
- mais vale mais vale cuber que desister
- deitar cedo e cedo erguer da saude e faz crescer
- deus ajuda quem cedo madruga
- se conduzir nao beba
- o melhor amigo do homem e a irma Filipa
- ha mar e mar ha ir e voltar
Vida humana a 47 Graus centigrados
Estou agora de volta a Khartoum onde sou neste momento cobaia num gigantesco teste de resistencia humana a temperaturas solares.
Toda a populacao expatriada participa.
Os locais ja o fizeram ha milhares de anos e passaram.
Posso dizer-vos o seguinte:
- o ratio agua ingerida/urina produzida e de 5000 ml para 0.00 ml.
- ocorrem perdas de equilibrio e disturbios visuais ao fim dos primeiros 10 passos na rua
- tem-se uma permanente sensacao de ressequimento e irritacao nas vias respiratorias, um sintoma tipico do chamado "sindroma do cuspidor de fogo"
- regista-se uma inflamacao generalizada dos vasos sanguineos na zona das canelas. Tal sintoma nao e grave e trata-se facilmente com 10 minutos de massagem ao final da tarde, que era bom que fossem dadas por principes alemaes mas nao e possivel entao paciencia.
- observa-se um ressequimento generalizado da pele, inlcuindo na area abdominal, va-se la saber porque. Aconselha-se a aplicacao de oleo para Bebe Johnson's (1500 dinars no Amarat Center) apos os dois duches diarios sobre a pele ainda humida e enxugar levemente com a toalha, que ficara decerto a cheirar a rabo de bebe mas nao faz mal, antes isso do que o cheiro da agua do Nilo usada na maquina de lavar.
O Adamastor em imagens
Britney Spears inventa metodo contraceptivo com duracao de 9 meses (mas nao mais): a gravidez
http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/4756941.stm
http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/4756941.stm
Mohamed
O Mohamed tem um taxi azul e leva-me ao trabalho todos os dias menos sextas, sabados e feriados que ai nao trabalho.
O Mohamed fala Ingles perfeitamente e e um prato, daqueles de um gajo se mandar pro chao a rir.
O Mohamed parece o meu sobrinho Pedro, mas em mais crescido, com a mesma espontaneidade a fazer comentarios que nao lembra ao Camane e depois a rir-se muito. A passar de um assunto para o outro mais depressa que o Pepe Rapido. Ou a exprimir a sua furia contra nao sei o que com muita muita energia e uns segundos depois exprimir o seu contentamento com outra coisa qualquer com a mesma muita muita energia.
O Mohamed fala tao rapido que de vez em quando vem-lhe uma gagez e fica ali enca-enca-enca- encalhadito numa palavra, coitadito.
E todos os dias tem no tablier do carro um rebucado para mim e outro para Emilia, que quando esta ca apanha o taxi comigo.
Adamastor em Khartoum
Estava ontem na esplanada do Cafe Universal,
como a cada fim de tarde acontece,
quando, estando descuidada a falar com outro comensal,
uma nuvem que os ares escurece
sobre nossas cabecas aparece.
Tao temerosa vinha e carregada,
que pos os estranjas paralisados,
e o Cafe numa enorme cagada,
lancando po e terra para todos os lados
acastanhando tudo, ate, la dentro, a banca dos gelados.
"Oh potestade (disse) sublimada:
que ameaco divino ou que segredo
este clima e esta areia nos apresenta
que mor coisa parece que tormenta?"
Mas nesse instante apanhei com um menu plastificado voador em cheio na bochecha que ate vi estrelas, que aquilo tem os cantos afiados e deixou marca, e tive que parar de introduzir a Louise, que gritava a tentar tapar o milkshake, a esse grande poema epico, que e Os Lusiadas.
Negros sonhos
A noite de ontem foi populada pelas seguintes cenas:
I Acto:
O dia 16 de Setembro chegou. Estou em Portugal, vou casar. O orcamento da empresa de catering e o dobro do esperado, o vestido nao esta feito, os hoteis que recomendamos tem pessimo servico. Os convidados comecam a chegar. Ando a conduzir de um lado para o outro no transito de Lisboa. As 16h30 aproximam-se e nao estou lavada, nem vestida, nem penteada como deve ser. E sento-me no chao a chorar.
II Acto:
Estou desesperadamente a procura de emprego. Faco correcoes no CV, telefonemas. Recebo encorajamentos de amigos e colegas. Vigio obsessivamente a Inbox do meu email. Nenhuma tentativa da resultado. Comeco a escrever uma candidatura espontanea para... um estagio. E sento-me no chao a chorar.
Posso dizer-vos que a dor de estomago com que acordei hoje ainda nao passou.
E sao 3h da tarde.
I Acto:
O dia 16 de Setembro chegou. Estou em Portugal, vou casar. O orcamento da empresa de catering e o dobro do esperado, o vestido nao esta feito, os hoteis que recomendamos tem pessimo servico. Os convidados comecam a chegar. Ando a conduzir de um lado para o outro no transito de Lisboa. As 16h30 aproximam-se e nao estou lavada, nem vestida, nem penteada como deve ser. E sento-me no chao a chorar.
II Acto:
Estou desesperadamente a procura de emprego. Faco correcoes no CV, telefonemas. Recebo encorajamentos de amigos e colegas. Vigio obsessivamente a Inbox do meu email. Nenhuma tentativa da resultado. Comeco a escrever uma candidatura espontanea para... um estagio. E sento-me no chao a chorar.
Posso dizer-vos que a dor de estomago com que acordei hoje ainda nao passou.
E sao 3h da tarde.
Tamam
Todos os dias passo de taxi na avenida Mac Nimir. Antes de chegar a rotunda com uma especie de estatua de um fosforo gigante, que parece o logotipo da Amnistia Internacional mas nao e nada, vejo sempre um senhor velhote de oculos escuros, apoiado numa bengala.
As vezes esta todo roto e sujo.
Outras vezes esta de jallabia branquinha a cheirar a Omo lava a mao.
O taxi para sempre naquela zona por causa do transito.
E ele diz-me sempre a janela:
Kef? Tamam?
(como estas? bem?)
E faz-me o gesto do polegar para cima.
As vezes esta todo roto e sujo.
Outras vezes esta de jallabia branquinha a cheirar a Omo lava a mao.
O taxi para sempre naquela zona por causa do transito.
E ele diz-me sempre a janela:
Kef? Tamam?
(como estas? bem?)
E faz-me o gesto do polegar para cima.
Escapou-se-me completamente: sabem um livro de anedotas, dos anos 80, que tinha um miudo e um professor na capa. Muita famoso. De matar a rir.
No outro dia, nao sei porque, pensei no raio do livro. Mas nao ha meio de me lembrar do nome daquilo. E agora estou assi encalhadita, sempre a pensar naquilo. PRECISO DE DESCANSO!
Quem me conseguir relembrar o nome do livro ganha uma magnifica replica de Rickshaw feita em lata.
(Isto parece-me ser uma tarefa facil para o Dotor Zorze)
No outro dia, nao sei porque, pensei no raio do livro. Mas nao ha meio de me lembrar do nome daquilo. E agora estou assi encalhadita, sempre a pensar naquilo. PRECISO DE DESCANSO!
Quem me conseguir relembrar o nome do livro ganha uma magnifica replica de Rickshaw feita em lata.
(Isto parece-me ser uma tarefa facil para o Dotor Zorze)
Pa, ninguem comenta quando conto coisas serias sobre o Sudao e presumo que tambem nao querem saber nada do meu trabalho que por acaso se tornou mais interessante nestas ultimas semanas, por isso ca vai:
- a Helen, nossa empregada, nao veio esta semana. E chato porque ele e que tem a segunda chave e o Marco ja chegou de ferias e precisa dela e tambem porque tivemos dois dias de Haboub, de maneira que a casa esta coberta por uma fina mas persistente camada de po.
- esta tudo a apanhar doencas estranhissimas, com sintomas de febre ligeira, vias respiratorias obstruidas e cansaco gigantesco. Nao e malaria, nao e nada que se veja no sangue, mas anda tudo de rastos. Eu ate agora escapei.
- escapei tambem, ate agora, a saga dos disturbios intestinais lagarto, lagarto, lagarto
- por falar em lagarto, no outro dia aparceu um lagarto na casa de uma amiga minha que assustou muito uma outra amiga. Uma terceira amiga que la estava foi socorre-la e sem querer esmagou o lagarto ao abrir a porta da WC. Deixaram-no ali porque tinham nojo de lhe tocar. E nao e que no dia seguinte o corpo do lagarto tinha desaparecido?
- esta noite houve um massacre de formigas no meu lava-loicas: tinha deixado um copo com agua a meia altura e elas, desgracadas que andam sempre atras de algo liquido para matar a sede (sim, posso deixar 1 frasco de mel aberto que elas nada, acreditem), precipitaram-se para dentro do copo e morreram afogadas.
- encontrei um sitio onde se pode comprar um pacote com 10 rolos de papel higienico pelo mesmo preco que nos outros sitios se compra 1 pacote com dois rolos somente.
Ah e ja me esquecia: hoje, o Principe faz 31 anos!!
Realmente, ja era tempo de comecar a pensar em casar.
- a Helen, nossa empregada, nao veio esta semana. E chato porque ele e que tem a segunda chave e o Marco ja chegou de ferias e precisa dela e tambem porque tivemos dois dias de Haboub, de maneira que a casa esta coberta por uma fina mas persistente camada de po.
- esta tudo a apanhar doencas estranhissimas, com sintomas de febre ligeira, vias respiratorias obstruidas e cansaco gigantesco. Nao e malaria, nao e nada que se veja no sangue, mas anda tudo de rastos. Eu ate agora escapei.
- escapei tambem, ate agora, a saga dos disturbios intestinais lagarto, lagarto, lagarto
- por falar em lagarto, no outro dia aparceu um lagarto na casa de uma amiga minha que assustou muito uma outra amiga. Uma terceira amiga que la estava foi socorre-la e sem querer esmagou o lagarto ao abrir a porta da WC. Deixaram-no ali porque tinham nojo de lhe tocar. E nao e que no dia seguinte o corpo do lagarto tinha desaparecido?
- esta noite houve um massacre de formigas no meu lava-loicas: tinha deixado um copo com agua a meia altura e elas, desgracadas que andam sempre atras de algo liquido para matar a sede (sim, posso deixar 1 frasco de mel aberto que elas nada, acreditem), precipitaram-se para dentro do copo e morreram afogadas.
- encontrei um sitio onde se pode comprar um pacote com 10 rolos de papel higienico pelo mesmo preco que nos outros sitios se compra 1 pacote com dois rolos somente.
Ah e ja me esquecia: hoje, o Principe faz 31 anos!!
Realmente, ja era tempo de comecar a pensar em casar.
Em missao

Estou de volta apos uma semana passada na zona de Abyei, Kordofan.
A zona e muito interessante porque:
O Kordofan faz parte das zonas de transicao entre Sudao-Sul e Sudao-Norte. E por la que passara a fronteira, caso o pais se divida em 2011. Se o pais se divir, a regiao vai decidir por referendo se se junta ao Sul ou ao Norte.
E tambem por la que passam as pipelines cheias de petroleo para Khartoum e que empresas chinesas andam atarefadas com gigantescas maquinas de exploracao petrolifera.
Por fim, vivem la Dinkas (sedentarios vindos do Sul ha decadas) e Misserya (arabes nomadas que transitam pela regiao em cada estacao).
A volta para Khartoum, fomos bloqueados na estrada durante 2h por um grupo de nomadas, furiosos por nao terem agua e nao receberem assistencia.
E estranho. Certas zonas por onde passamos pareciam relativamente ricas, outras extremamente pobres, onde a criancas mostravam sinais evidentes de mal-nutricao.
A missao em si foi interessante tambem:
Fui com uma colega visitar um projecto de agricultura/seguranca alimentar feito com fundos nossos por uma ONG alema. A ONG e alema, mas a equipa e toda Sudanesa. Ainda bem que la fomos, porque o que vimos e digno de um case study para um projecto mal gerido e mal pensado.
Pensei que erros destes ja nao se viam desde os anos 90, dada a quantidade de estudos que foram feitos sobre a eficiencia da ajuda ao desenvolvimento etc. Mas ha gente que anda a dormir, tanto na sede da ONG na Alemanha, como em Bruxelas que nos transferiu o projecto ha pouco tempo e que nos deixou como heranca um rol de problemas sem fim.
De resto, vivemos em Tukuls (cabanas de terra cm telhado de palha), banhamo-nos ao balde, dormimos com morcegos e comemos Fuul (feijao com cebola e oleo de sesamo) ao pequeno almoco, almoco e jantar.
A chegada, Khartoum pareceu-nos Paris.
Apos um bom duche em casa, a minha banheira ficou preta.
A pior sensacao do mundo
Nao se gostar do trabalho que se esta a fazer e ficar-se, no entanto, com um no na garganta por se ter sido excluido do recrutamento para esse mesmo trabalho.
Estou feliz
No Sudao, ha Cerelac.
Vem com a fotografia de um ursinho azul,

e nao com a fotografia do rapaz (obviamente o meu irmao Pedro), da bebe (obviamente eu) e da mae (obviamente a minha).

Vem em caixas redondas metalicas, com uma tampa de plastico, o que da muito mais jeito do que a caixa da cartao com o saco em semi-aluminio todo mole, que nunca se abre nem se fecha como deve ser.
E e tao bom!
Vem com a fotografia de um ursinho azul,

e nao com a fotografia do rapaz (obviamente o meu irmao Pedro), da bebe (obviamente eu) e da mae (obviamente a minha).

Vem em caixas redondas metalicas, com uma tampa de plastico, o que da muito mais jeito do que a caixa da cartao com o saco em semi-aluminio todo mole, que nunca se abre nem se fecha como deve ser.
E e tao bom!
Mas sera que eles nao se cansam?
http://www.liberation.fr/page.php?Article=371993
Ha uma falta de dialogo atroz em Franca. O Governo anuncia medidas a bruta, sem ter e conta negociacoes sindicais previas. O que e compreensivel ate certo ponto, porque nenhuma negociacao sindical em Franca pode ser chamada realmente chamada "negociacao". O dialogo dentro da sala de reunioes e sempre surdo. Ninguem faz concessoes.
Depois vai o povo pra rua e o povo nao se cansa. Os anos em que vivi em Franca foram os anos em que mais manifestei. Mas se querem que vos diga, ja nem me lembro bem porque. Cria-se sempre uma dinamica em que continua tudo na rua, mas a estrategia perde-se. Nunca uma concessao do governo e suficiente, como tal nunca uma manifestacao tem fim.
Custa-me um pouco ver estes jovens na rua ha semanas e semanas. Quem me dera a mim que me dessem um contrato, um salario, mesmo sabendo que vou estar a ser testada durante o primeiro ano e me vou arriscar a perder o trabalho se meter os pes. E uma pressao enorme, e verdade, sobretudo para quem nao tem ainda muita experiencia. Mas nao passa pela cabeca de ninguem que seja possivel, hoje em dia, ter um emprego estavel a saida da faculdade!
A situacao actual e que gente qualificada anda a trabalhar se ser paga fazendo o mesmo que fazem os colegas do lado que recebem um bom salario. Isto as vezes durante anos ate se conseguir ter um contrato, por causa do inenarravel pre-requesito dos " 2 anos de experiencia profissional previa". E ha agora quem comece a nao considerar estagios como experiencia profissional... Ai, sera o fim da picada.
E muito mais urgente acabar com a pratica dos estagios nao remunerados, que sao, eles sim, uma exploracao nojenta. Os estagiarios franceses manifestaram por isto no ano passado, mas provavelmente ja ninguem se lembra. E que essas manifestacoes tinham so algumas centenas de pessoas. Os estudantes nao aderiram. Com certeza achavam que o que os espera a saida da escola nao e um estagio.
Por isso, penso eu de que as condicoes de contratacao e de despedimento sao uma outra guerra completamente diferente, para ser levada daqui a uns anos. Nao agora.
Ja sei que vou levar com um comentario da revolucionaria Sofia, mas como diz a minha mae: estes jovens querem um "emprego", nao querem trabalhar. E enervam-me tanto!!
Ha uma falta de dialogo atroz em Franca. O Governo anuncia medidas a bruta, sem ter e conta negociacoes sindicais previas. O que e compreensivel ate certo ponto, porque nenhuma negociacao sindical em Franca pode ser chamada realmente chamada "negociacao". O dialogo dentro da sala de reunioes e sempre surdo. Ninguem faz concessoes.
Depois vai o povo pra rua e o povo nao se cansa. Os anos em que vivi em Franca foram os anos em que mais manifestei. Mas se querem que vos diga, ja nem me lembro bem porque. Cria-se sempre uma dinamica em que continua tudo na rua, mas a estrategia perde-se. Nunca uma concessao do governo e suficiente, como tal nunca uma manifestacao tem fim.
Custa-me um pouco ver estes jovens na rua ha semanas e semanas. Quem me dera a mim que me dessem um contrato, um salario, mesmo sabendo que vou estar a ser testada durante o primeiro ano e me vou arriscar a perder o trabalho se meter os pes. E uma pressao enorme, e verdade, sobretudo para quem nao tem ainda muita experiencia. Mas nao passa pela cabeca de ninguem que seja possivel, hoje em dia, ter um emprego estavel a saida da faculdade!
A situacao actual e que gente qualificada anda a trabalhar se ser paga fazendo o mesmo que fazem os colegas do lado que recebem um bom salario. Isto as vezes durante anos ate se conseguir ter um contrato, por causa do inenarravel pre-requesito dos " 2 anos de experiencia profissional previa". E ha agora quem comece a nao considerar estagios como experiencia profissional... Ai, sera o fim da picada.
E muito mais urgente acabar com a pratica dos estagios nao remunerados, que sao, eles sim, uma exploracao nojenta. Os estagiarios franceses manifestaram por isto no ano passado, mas provavelmente ja ninguem se lembra. E que essas manifestacoes tinham so algumas centenas de pessoas. Os estudantes nao aderiram. Com certeza achavam que o que os espera a saida da escola nao e um estagio.
Por isso, penso eu de que as condicoes de contratacao e de despedimento sao uma outra guerra completamente diferente, para ser levada daqui a uns anos. Nao agora.
Ja sei que vou levar com um comentario da revolucionaria Sofia, mas como diz a minha mae: estes jovens querem um "emprego", nao querem trabalhar. E enervam-me tanto!!
Queixinhas
Pa!
Tou-me a passar com esta delegacao.
1) Nao ta ca ninguem. As pessoas com quem trabalho normalmente bazaram de ferias.
2) estou protanto eu com o chefe, que passou o ultimo mes e meio de ferias por isso ta a nora. Minha nossa senhora da Azoia! Vai pra reunioes e nao me diz nada, e depois, quando fica ao papel, vem-me pedir para escrever cenas e organizar cenas e quem se lixa e o mexilhao que tem que perceber em 10 minutos o que ele anda a discutir nas reunioes onde nao me leva.
3) Depois de eu fazer o que ele me pede, pensam que ele comeca a incluir-me mais nas reunioes e tal?... NAO! Tenho eu que andar atras dele, ainda por cima para o ver fazer figuras deprimentes.
Minha nossa senhora. Eh pa, a serio que eu nao devia tar a perder tempo neste sitio. Tou furiosa.
Tou-me a passar com esta delegacao.
1) Nao ta ca ninguem. As pessoas com quem trabalho normalmente bazaram de ferias.
2) estou protanto eu com o chefe, que passou o ultimo mes e meio de ferias por isso ta a nora. Minha nossa senhora da Azoia! Vai pra reunioes e nao me diz nada, e depois, quando fica ao papel, vem-me pedir para escrever cenas e organizar cenas e quem se lixa e o mexilhao que tem que perceber em 10 minutos o que ele anda a discutir nas reunioes onde nao me leva.
3) Depois de eu fazer o que ele me pede, pensam que ele comeca a incluir-me mais nas reunioes e tal?... NAO! Tenho eu que andar atras dele, ainda por cima para o ver fazer figuras deprimentes.
Minha nossa senhora. Eh pa, a serio que eu nao devia tar a perder tempo neste sitio. Tou furiosa.

A situacao das mulheres em pais muculmano e tragica.
Mas vou ser muito sincera: quando vejo uma jovem trajada assim na rua, a conversar com uma amiga, aparentemente relaxada e feliz, so me veem a cabeca perguntas triviais, como:
- Como e que ela se assoa?
- Como e que ela come?
- Como e que ela bebe?
- Se tiver mau halito, como e dentro daquele espaco fechado?
- Sera que a voz e diferente se ela tirar o veu da frente da boca?
- Onde e que ela encosta o telemovel, por dentro ou por fora?
- Sera que ouve bem atraves do veu?
- Com que frequencia e que ela lava o traje?
- Que lingerie e que condiz com aquele traje?
Nos dois meses que ja aqui passei, consegui responsta para algumas destas questoes. Por exemplo:
- Elas bebem por uma palhinha, pondo a garrafa por baixo do veu.
- Comem sem ver as maos, levando o garfo a boca por baixo do veu.
- No outro dia vi uma com o telemovel entalado entre o veu e a cara. Da jeito!
- No souq, a lingerie que se vende nas tendinhas e em cetim rosa chock com rendas. A cor pode variar, mas e esse o estilo que parece condizer com o traje.
Eu que ando com T-shirts justinhas e jeans cintura descaida depois ponho roupa interior de algodao branco sem enfeites.
O ponto comum e que ha algo que tanto eu como elas nao assumimos.
Esta semana estive de folga dois dias, derivado ao fim da estadia do principe no Sudao - snif - sobre a qual nao vou dissertar derivado a ficar muito deprimida pois, bem vistas as coisas, pro que este estagio esta a dar talvez o sacrificio nao valha a pena. Mas prontos. Fico por aqui.
Vai dai, abalamos para o deserto para ver uns calhaus dispostos em piramide a 3h de carro para nordeste de Khartoum.
Nao fomos de carro, fomos de tocarro, o que merece uma descricao:
Pensao voces, bem tocarros no Sudao deve ser ca um nojo faco ideia.
Mas nao.
Chega-se a um descampado que faz funcao tipo de terminal da Carreira e e-se puxado para varios lados por jovens histericos a proporem entrada para varios tipos de veiculos. Escolhe-se o veiculo e entra-se. E depois espera-se que o veiculo encha e arranque, o que nao demora muito.
La dentro: janelas cobertas com lindos panos e rendas semi-plastificadas em tons de roxo, radio a bombar musica arabe muito repetitiva que, dado o numero de "habibie" pronunciados, provavelmente bastante kitsch. Mais uma vez, eu e as meninas pre-puberes erams as unicas femeas sem veu.
Estar dentro do tocarro e um alivio porque e fresquinho. Para alem disso, o jovem que nos "recrutou" para o tocarro veio bater a nossa janela para nos oferecer duas garrafas de agua fresca! Olha, os 2000 dinars (8€) que pagamos para 100 Km de viagem incluem garrafas de agua!
Mal sabiamos nos, que durante a viagem, um moco passa pelos passageiros a distribuir agua e refrescos em garrafa a borla. Mais tarde passou a oferecer um bolo de chocolate em pacote. Isto depois do senhor passageiro atras de nos, ter comprado um pacote de bolachas a paragem num posto de policia, pelo caminho, e nos te-lo oferecido. Isto e a mim nao, que sou femea e eles nao falam com femeas, mas ao principe, considerado automaticamente "friend" do dito senhor.
Tivemos que sair do autocarro a meio caminho. Sabiamos que as piramides e que o hotel-tenda onde iamos ficar estavam no meio do deserto, mas nao esperavamos isto:

Depois foi encontrar o hotel-tenda, sobrevivendo ao assedio de dois miudos que por forca nos queriam levar ate as piramides de burro. E nos, mas queremos encontrar o hotel-tenda, e nao queremos gastar pela vossa viagem de burro o mesmo que nos custou a viagem no super tocarro desde Khartoum, tenham la paciencia...
Telefonamos ao italiano que gere o hotel-tenda e ele veio salvar-nos no seu Patrol.
Pousamos a nossa trouxa e decidimos caminhar ate as piramides para ver. Pelo caminho, pumba, la vem o razparta do miudo no burro outra vez. Eu ate ja estava a ficar com pena dele, a pensar, se calhar os 1000 dinars era um salario para a familia toda quando, qual nao e o meu espanto, o jovem recebe, do alto do seu burro, um sms no telemovel. E o telemovel dele e bem melhor que o meu devo dizer...
Por isso continuamos a andar.
A certa altura, outra interrupcao telefonica com a minha mae a ligar por causa de 30 € que fiquei a dever ao hospital em Bruxelas. E eu, no meio da areia, num fim de mundo, a perguntar se ela podia pagar-me a divida que daqui do Sudong e dificil:

Valeu a pena porque o que vimos foi isto:

Depois estavamos estafados de andar pelas dunas, entao sucumbimos a pressao nao do puto do burro, mas de dois jovens montados a camelo que por ali andavam. E voltamos para o hotel-tenda a camelo. Ainda nos cansou mais, que aquilo e desconfortavel, mas ficou a foto para a historia:
Vai dai, abalamos para o deserto para ver uns calhaus dispostos em piramide a 3h de carro para nordeste de Khartoum.
Nao fomos de carro, fomos de tocarro, o que merece uma descricao:
Pensao voces, bem tocarros no Sudao deve ser ca um nojo faco ideia.
Mas nao.
Chega-se a um descampado que faz funcao tipo de terminal da Carreira e e-se puxado para varios lados por jovens histericos a proporem entrada para varios tipos de veiculos. Escolhe-se o veiculo e entra-se. E depois espera-se que o veiculo encha e arranque, o que nao demora muito.
La dentro: janelas cobertas com lindos panos e rendas semi-plastificadas em tons de roxo, radio a bombar musica arabe muito repetitiva que, dado o numero de "habibie" pronunciados, provavelmente bastante kitsch. Mais uma vez, eu e as meninas pre-puberes erams as unicas femeas sem veu.
Estar dentro do tocarro e um alivio porque e fresquinho. Para alem disso, o jovem que nos "recrutou" para o tocarro veio bater a nossa janela para nos oferecer duas garrafas de agua fresca! Olha, os 2000 dinars (8€) que pagamos para 100 Km de viagem incluem garrafas de agua!
Mal sabiamos nos, que durante a viagem, um moco passa pelos passageiros a distribuir agua e refrescos em garrafa a borla. Mais tarde passou a oferecer um bolo de chocolate em pacote. Isto depois do senhor passageiro atras de nos, ter comprado um pacote de bolachas a paragem num posto de policia, pelo caminho, e nos te-lo oferecido. Isto e a mim nao, que sou femea e eles nao falam com femeas, mas ao principe, considerado automaticamente "friend" do dito senhor.
Tivemos que sair do autocarro a meio caminho. Sabiamos que as piramides e que o hotel-tenda onde iamos ficar estavam no meio do deserto, mas nao esperavamos isto:

Depois foi encontrar o hotel-tenda, sobrevivendo ao assedio de dois miudos que por forca nos queriam levar ate as piramides de burro. E nos, mas queremos encontrar o hotel-tenda, e nao queremos gastar pela vossa viagem de burro o mesmo que nos custou a viagem no super tocarro desde Khartoum, tenham la paciencia...
Telefonamos ao italiano que gere o hotel-tenda e ele veio salvar-nos no seu Patrol.
Pousamos a nossa trouxa e decidimos caminhar ate as piramides para ver. Pelo caminho, pumba, la vem o razparta do miudo no burro outra vez. Eu ate ja estava a ficar com pena dele, a pensar, se calhar os 1000 dinars era um salario para a familia toda quando, qual nao e o meu espanto, o jovem recebe, do alto do seu burro, um sms no telemovel. E o telemovel dele e bem melhor que o meu devo dizer...
Por isso continuamos a andar.
A certa altura, outra interrupcao telefonica com a minha mae a ligar por causa de 30 € que fiquei a dever ao hospital em Bruxelas. E eu, no meio da areia, num fim de mundo, a perguntar se ela podia pagar-me a divida que daqui do Sudong e dificil:

Valeu a pena porque o que vimos foi isto:

Depois estavamos estafados de andar pelas dunas, entao sucumbimos a pressao nao do puto do burro, mas de dois jovens montados a camelo que por ali andavam. E voltamos para o hotel-tenda a camelo. Ainda nos cansou mais, que aquilo e desconfortavel, mas ficou a foto para a historia:
Sexta-feira insolita
Na Sexta-feira passada fomos a Omdurman, que e uma cidade colada a Khartoum para Norte.
Vimos camelos do Darfur, depois do chauffeur do taxi ter percebido que o que queriamos era ver os "beeeeuuuuuueeee", como ele disse.
E nos, sim esses mesmos:

Depois fomos para um cemiterio para assistir ao agrupamento de Sufis, que e uma vertente mistica do Islao, a dancar umas dancas estranhas. E impressionante a atmosfera! Um Anciao disse-nos que iamos ter 3 filhos, dois rapazes e uma rapariga. Ao que parece, os Sufis dao na adivinhacao. Disse-nos tambem que o pais dele - Sudao - era a partir de agora o nosso pais tambem. Um encontro simpatico. Tinham-nos dito que os Sufis dancavam tipo loucos a girar em transe. Mas nao aconteceu nada de tudo isso... So se balancaram para a frente e para tras, mas a musica era digna de um transe.

Bebemos cha com o Sr. Taxista por cima de campas debaixo de uma tempestade de areia que me esgravatou os olhos:

Depois o senhor do Taxi tinha que voltar para Khartoum, entao olha nao pudemos ficar mais tempo.
Tenho que la voltar.
Vimos camelos do Darfur, depois do chauffeur do taxi ter percebido que o que queriamos era ver os "beeeeuuuuuueeee", como ele disse.
E nos, sim esses mesmos:

Depois fomos para um cemiterio para assistir ao agrupamento de Sufis, que e uma vertente mistica do Islao, a dancar umas dancas estranhas. E impressionante a atmosfera! Um Anciao disse-nos que iamos ter 3 filhos, dois rapazes e uma rapariga. Ao que parece, os Sufis dao na adivinhacao. Disse-nos tambem que o pais dele - Sudao - era a partir de agora o nosso pais tambem. Um encontro simpatico. Tinham-nos dito que os Sufis dancavam tipo loucos a girar em transe. Mas nao aconteceu nada de tudo isso... So se balancaram para a frente e para tras, mas a musica era digna de um transe.

Bebemos cha com o Sr. Taxista por cima de campas debaixo de uma tempestade de areia que me esgravatou os olhos:

Depois o senhor do Taxi tinha que voltar para Khartoum, entao olha nao pudemos ficar mais tempo.
Tenho que la voltar.
Novo recruta no mundo humanitario
Esta confirmado:
O meu Principe, o meu futuro marido, vai num futuro muito proximo comecar uma carreira vitalicia nas Nacoes Unidas, no escritorio de Coordinacao da Accao Humanitaria!!!!
Foi 1 ano e meio de processo de recrutamento, que era para ele, que ja esta na casa dos 30 nao e verdade, a ultima oportunidade de se candidatar ao concurso para funcionarios da ONU.
Hamdulillah acabou tudo bem!
Agora e so uma questao de tempo ate lhe proporem um contrato. No entretanto, vai trabalhando para a cooperacao alema.
Ai que rico partido que eu arranjei!
Coisas que gosto em Khartoum:
- o som do apelo a reza das mesquitas;
- o cheiro das arvores em frente a minha casa;
- os autocarros: param em qualquer lado, nao ha paragens. Para se sair e assim: estala-se os dedos para o Sr. Pica; o Sr. pica faz "csss csss" para o Sr. condutor e o Sr. condutor para e abre a porta.
- os cantaros de barro cheios de agua em frente a cada casa, a disposicao de quem passa, para beber ou para as ablucoes pre-reza;

- a maneira como o transito caotico escoa facilmente;
- a rapidez dos rickshaws (moto-taxis);

- o facto de todos os condutores de rickshaw conhecerem o Figo e o Pauleta (no outro disse-me o Jose, da Etiopia, que me conduziu a casa, que o Figo agora joga em Italia. E verdade?);
- o miudo mais novo da familia que vive no res-do-chao da minha casa, cuja energia fisica e vocal nunca se despende;
- o Suliman que arranja o cafe e o cha, e que lava os tupperwares do meu almoco na Delegacao que se desloca a arrastar os pes muito depressa;
- O Walid, que conduz um carro da cruz vermelha com oculos de sol Ray Ban, a ouvir Destiny's Child
- o senhor da venda de legumes na esquina da minha rua.
Coisas que nao gosto em Khartoum:
- os taxistas
- o po
- o tanque de agua da minha casa que esta sempre encalhado
- o preco exorbitante do cafe
- o preco exorbitante das rendas
- nao poder andar de perna ao leu
- o senhor da venda de frutas na esquina da minha rua.
- o som do apelo a reza das mesquitas;
- o cheiro das arvores em frente a minha casa;
- os autocarros: param em qualquer lado, nao ha paragens. Para se sair e assim: estala-se os dedos para o Sr. Pica; o Sr. pica faz "csss csss" para o Sr. condutor e o Sr. condutor para e abre a porta.
- os cantaros de barro cheios de agua em frente a cada casa, a disposicao de quem passa, para beber ou para as ablucoes pre-reza;

- a maneira como o transito caotico escoa facilmente;
- a rapidez dos rickshaws (moto-taxis);

- o facto de todos os condutores de rickshaw conhecerem o Figo e o Pauleta (no outro disse-me o Jose, da Etiopia, que me conduziu a casa, que o Figo agora joga em Italia. E verdade?);
- o miudo mais novo da familia que vive no res-do-chao da minha casa, cuja energia fisica e vocal nunca se despende;
- o Suliman que arranja o cafe e o cha, e que lava os tupperwares do meu almoco na Delegacao que se desloca a arrastar os pes muito depressa;
- O Walid, que conduz um carro da cruz vermelha com oculos de sol Ray Ban, a ouvir Destiny's Child
- o senhor da venda de legumes na esquina da minha rua.
Coisas que nao gosto em Khartoum:
- os taxistas
- o po
- o tanque de agua da minha casa que esta sempre encalhado
- o preco exorbitante do cafe
- o preco exorbitante das rendas
- nao poder andar de perna ao leu
- o senhor da venda de frutas na esquina da minha rua.
Atmosfera em Khartoum

10.000 pessoas marcharam pelas ruas de Khartoum ontem a protestar contra a possivel transformacao da Missao da Uniao Africana no Darfur numa Missao das Nacoes Unidas (capacetes azuis).
O que e o Darfur?
O conflito no Darfur (Oeste do Sudao) subiu de escala em 2003, com a formacao de 2 grupos rebeldes (um de inspiracao islamica outro nao) que pegaram em armas para combater a excessiva centralizacao de poder dos dirigentes de Khartoum.
Khartoum respondeu apoiando milicias arabes armadas, deslocando-se a cavalo ou em jipes, para atacar rebeldes e civis. Sao os chamados janjaweed ("diabos a cavalo"). Os ataques desenrolavam-se muitas vezes logo a seguir a raides aereos das forcas governamentais, que preparavam o terreno.
Nao e uma guerra de independencia, como entre o Sul e o Norte. Nao e tao pouco um conflito inter-religioso, sendo que grande parte da populacao do Darfur e muculmana.
E um conflito relacionado com representatividade e reparticao de riquezas entre centro e periferia com um pano de fundo racista arabes vs. negros (O Sudao foi durante seculos uma plataforma de trafico de escravos - negros - e o negocio era liderado pos Arabes).
Em Abril de 2004 foi assinado um cessar-fogo entre rebeldes e forcas governamentais e centenas de soldados de varios paises Africanos foram mandados para o Darfur sob o comando da Uniao Africana. O mandato destas tropas e a supervisao do cessar-fogo enquanto ciclos consecutivos de negociacoes de paz se vao desenrolando na Nigeria (Abuja).
A violencia no entanto nao parou, sobretudo com a aparicao de divisoes internas nos grupos rebeldes. Ataques contra civis continuam a acontecer por parte dos rebeldes, das forcas governamentais, dos janjaweed, e da propria policia e a populacao vive aterrorizada. Milhares de pessoas comecaram a atravessar a fronteira do Tchade e o Tchade nao esta nada contente. As principais vitimas sao mulheres, porque grande parte da violencia no Darfur e de caracter sexual.
Porque capacetes azuis?
E a primeira vez que a Uniao Africana se implica numa accao desta envergadura, e as capacidades financeiras e operacionais desta organizacao sao limitadas.
Dai a ideia de transferir o comando das tropas para as Nacoes Unidas, que tem mais experiencia e mais recursos para tal operacao. Os soldados seriam os mesmos, Africanos, so que vestidos com uniformes com o logo da ONU.
Mas o governo (inlcuindo os ministros oriundos do Sul, que combateram uma guerra civil contra as autoridades centrais de Khartoum durante 30 anos) esta contra, por achar que e uma ingerencia nos assuntos internos do Sudao.
E agora Senhoras e Senhores: um rol de absurdidades e desenvolvimentos perigosos:
- assimilacao das Nacoes Unidas aos Estados Unidos (embora os EUA tenham dito que nem mortos contribuiriam com tropas para uma missao da ONU no Darfur)
- assimilacao do Sudao ao Iraque (uma missao das Nacoes Unidas deste tipo implica o acordo do Sudao, por isso nunca seria uma invasao)
- ameacas de morte ao representante da ONU no Sudao
- apelos a Jihad contra todos os interesses Ocidentais
Tudo isto e instigado pelo governo. A manifestacao de ontem foi adiada tres vezes, porque o governo precisou de algum tempo para requisitar camioes e autocarros para transportar "manifestantes" para o centro de Khartoum.
Vai dai, o Sudao esta indubitavelmente no bom caminho:
Com efeito, estas manifestacoes ocorre num pais que:
1) e o maior beneficiario de ajuda humanitaria e de ajuda ao desenvolvimento do mundo e que depende dessa ajuda para construir infrastruturas basicas e comecar a retirar beneficios do petroleo que tem.
2) acabou, no entanto, de adoptar uma lei que obriga todas as ONGs a pedirem autorizacao ao governo antes de receberem quaisquer fundos, especialmente se forem fundos estrangeiros.
3) daqui a 5 anos sera dividido em 2, por causa do referendo que se realizara no Sul.
4) tem uma superficie gigantesca, com varias regioes perifericas para alem do Darfur que se sentem igualmente excluidas, por exemplo a zona Este, na fronteira com a Etiopia e a Eritreia.
Zona de onde o governo acabou de expulsar as duas unicas ONGs que la trabalhavam, gracas as quais cerca de 50.000 pessoas tinham acesso a agua, alimentos e medicamentos.
Estamos portanto todos optimistas.
Ali Farka Toure
Morreu o homem do blues Maliano, que tanto tem embalado as nossas noites em Khartoum.
http://mali-music.com/Cat/CatA/AFT/AFTBioA.htm
http://mali-music.com/Cat/CatA/AFT/AFTBioA.htm
Para quando um novo Primeiro Dia?
A principio e simples...
fico entusiasmada porque vou para longe, ando que nem durmo, so falo disso chateio o miolo ao interlocutor.
Chego e ando na excitacao total por ter conseguido apanhar um rickshaw sem me perder e por ter negociado o preco do kilo de tomate ao senhor ali da venda.
Comeco a conhecer os colegas, a ler montes de coisas, comeco a ir a reunioes, a fazer telefonemas, a redigir umas coisas.
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo...
chega uma fase de acalmia e percebo que tudo o que ando a fazer e aquilo que vem a cabeca de fazer, nao algo que o escritorio precise. Para eles tanto se lhes da. Ficam muito agradecidos com qualquer iniciativa, mas se ela nao vier tambem nao faz mal. Ainda para mais, houve uma reorganizacao aqui e o meu novo chefe acha que "os direitos humanos ocupam demasiado lugar na Seccao Politica". Que e onde me puseram. De maneira que ando para aqui sem nenhum incentivo, a fazer coisas ad-hoc.
Diz-se do passado que esta moribundo....
Bonito. 6 anos a estudar e uma divida ao banco para isto.
O que quer dizer que estou pronta para sair daqui assim que aparecer outra oportunidade onde:
1) nao seja estagiaria
2) os direitos humanos nao sejam uma questao marginal
3) me usem para alguma coisa que faca sentido
Porque aqui:
Estou a perder tempo.
Por isso:
Accionei a minha rede de contactos
E agora:
E cruzar os dedos, para que amanha ou depois de amanha ou depois de depois de amanha ou qualquer dia proximo seja o primeiro dia do resto da minha vida.
fico entusiasmada porque vou para longe, ando que nem durmo, so falo disso chateio o miolo ao interlocutor.
Chego e ando na excitacao total por ter conseguido apanhar um rickshaw sem me perder e por ter negociado o preco do kilo de tomate ao senhor ali da venda.
Comeco a conhecer os colegas, a ler montes de coisas, comeco a ir a reunioes, a fazer telefonemas, a redigir umas coisas.
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo...
chega uma fase de acalmia e percebo que tudo o que ando a fazer e aquilo que vem a cabeca de fazer, nao algo que o escritorio precise. Para eles tanto se lhes da. Ficam muito agradecidos com qualquer iniciativa, mas se ela nao vier tambem nao faz mal. Ainda para mais, houve uma reorganizacao aqui e o meu novo chefe acha que "os direitos humanos ocupam demasiado lugar na Seccao Politica". Que e onde me puseram. De maneira que ando para aqui sem nenhum incentivo, a fazer coisas ad-hoc.
Diz-se do passado que esta moribundo....
Bonito. 6 anos a estudar e uma divida ao banco para isto.
O que quer dizer que estou pronta para sair daqui assim que aparecer outra oportunidade onde:
1) nao seja estagiaria
2) os direitos humanos nao sejam uma questao marginal
3) me usem para alguma coisa que faca sentido
Porque aqui:
Estou a perder tempo.
Por isso:
Accionei a minha rede de contactos
E agora:
E cruzar os dedos, para que amanha ou depois de amanha ou depois de depois de amanha ou qualquer dia proximo seja o primeiro dia do resto da minha vida.
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