Direita e Humana
Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Eu, elas e os dealers
Sucede que elas não dormem a sesta em casa se estão as duas juntas e não há pior pesadelo do que ter duas miúdas de 2 anos rabujentas em casa. Então ponho-as no carrjnjo e caminho até ao único parque que há aqui ao lado para que elas durmam um bocado (resulta ao fim de 10 mins de trajecto por calcada, demora 20 mins se for por asfalto). Sucede tambem que este parque e o epicentro da venda de haxixe aqui em Berlim (e provavelmente outras coisas, mas dessas ainda Nao vi sinal nem cheiro). Então estou aqui eu, elas a ressonar no carrinho, e dezenas de jovens com ar de quem não está ali a fazer nada, agrupados a cada entrada do parque. Nao fosse isto Berlim, há no entanto uma coabitação pacífica entre a normalidade e a marginalidade. Outras desgracados país e mães vejo aqui como eu a abanar o rasparta do carrinho para que rebentos durmam a malvada da sesta. E ali ao fundo vê-se uma mensagem na parede de uma área para andar de skate e patins: "Dealers pisguem-se, o parque é para os miúdos". E o que é certo é que Nao há dealers na zona dos patins e skates.
O factor X
Tem sempre piada ouvir-se uma opinião ou descrição "profissional" sobre os nossos filhos. Os profissionais neste caso sao os educadores/as de infancia aqui da creche e os filhos em questão são a dupla L & M. Digo que tem piada porque chego sempre à conclusão que ou um de nos está a ser enganado à séria ou que elas são esquizofrenicas. Já não basta serem gémeas, são também o Dr. Jekyll e Mr. Hyde ao longo do dia.
Dizem-me portanto os educadores que a Léa:
- Fala Alemão pelos cotovelos;
- Parece ter um ascendente enorme sobre a Matilde;
- Faz resistencia a algumas das regras da creche, por exemplo a regra de se ir dormir a sesta depois de almoco.
Dizem-me que a Matilde:
- Não se expressa muito verbalmente, e quando o faz é em Inglês;
- Tem uma postura observadora até agora, e geralmente so entra nalguma actividade se a Léa lá estiver ou ao menos se souber onde a Léa está;
- Obedece às regras todas da creche, inclusive a da sesta, e até ajuda os educadores a convencer a Léa a dormir.
Cá em casa é assim:
A Léa:
- Nunca pia Alemão. De vez em quando sai-lhe uma ou outra coisa em Português, mas proclama regularmente que ela o que fala e Inglês.
- Brinca ao que a Matilde a deixar brincar.
- Não perde muito tempo a resistir a regras e gosta de dormir.
A Matilde:
- Não se cala. E desde meados de Janeiro a logorreia é em Alemão.
- Lidera todas as brincadeiras e actividades.
- Por regra, faz sempre o contrario do que sabe que deve e arma berreiros tenebrosos quando confrontada, com a dura realidade de que quem manda, ao fim e ao cabo, são os pais. Ah e nunca, nunca dorme a sesta cá em casa e quando a Léa quer dormir, a Matilde salta para cima da cama dela e faz boing boing até a irmã desistir da ideia.
As realidades são de tal maneira antagonistas que isto nem sequer chega a ser um puzzle. E mais uma equacão: alguns dados conhecidos (ex: ambas sabem falar Alemão embora nao o mostrem necessariamente), mas sempre sempre um sacana de um X que nos relembra que no fundo no fundo, conhecemos os nossos filhos tanto e tão bem como as palmas das mãos de outro gajo qualquer.
Dizem-me portanto os educadores que a Léa:
- Fala Alemão pelos cotovelos;
- Parece ter um ascendente enorme sobre a Matilde;
- Faz resistencia a algumas das regras da creche, por exemplo a regra de se ir dormir a sesta depois de almoco.
Dizem-me que a Matilde:
- Não se expressa muito verbalmente, e quando o faz é em Inglês;
- Tem uma postura observadora até agora, e geralmente so entra nalguma actividade se a Léa lá estiver ou ao menos se souber onde a Léa está;
- Obedece às regras todas da creche, inclusive a da sesta, e até ajuda os educadores a convencer a Léa a dormir.
Cá em casa é assim:
A Léa:
- Nunca pia Alemão. De vez em quando sai-lhe uma ou outra coisa em Português, mas proclama regularmente que ela o que fala e Inglês.
- Brinca ao que a Matilde a deixar brincar.
- Não perde muito tempo a resistir a regras e gosta de dormir.
A Matilde:
- Não se cala. E desde meados de Janeiro a logorreia é em Alemão.
- Lidera todas as brincadeiras e actividades.
- Por regra, faz sempre o contrario do que sabe que deve e arma berreiros tenebrosos quando confrontada, com a dura realidade de que quem manda, ao fim e ao cabo, são os pais. Ah e nunca, nunca dorme a sesta cá em casa e quando a Léa quer dormir, a Matilde salta para cima da cama dela e faz boing boing até a irmã desistir da ideia.
As realidades são de tal maneira antagonistas que isto nem sequer chega a ser um puzzle. E mais uma equacão: alguns dados conhecidos (ex: ambas sabem falar Alemão embora nao o mostrem necessariamente), mas sempre sempre um sacana de um X que nos relembra que no fundo no fundo, conhecemos os nossos filhos tanto e tão bem como as palmas das mãos de outro gajo qualquer.
C.
Eh pá é desta. Não passa de hoje. Já lá vai mais de um ano de silêncio blóguico e agora já não há desculpa. Sobretudo havendo tanto para contar e comentar e observar. E difícil escolher por onde começar depois de tal silêncio. Então começo com esta, que nos vai chegar em Junho:
E com a observação que ha um certo desmazelo numa segunda gravidez. (Esta é uma observaçao bastante tragica para alguem que é, ela propria, uma 4a filha.) Da primeira vez andava ansiosamente de mao na barriga ao fim do 3o mes, a confundir gazes com pontapes fetais. Lia avidamente os emails semanais que chegavam do babycenter.com a explicar que o bebe era do tamanho de um Kumquat. Comecei a tirar religiosamente fotografias do perfil abdominal a partir da 6a semana de gravidez, quando o que la se via era nada mais do que excesso de Nutela. E sei la mais o que... E agora nao. Os pontapes, sim, ja os sinto. Mas tambem ja tenho meio kilo de feto ca dentro. As fotos, tirei duas, e ja confortavelmente em roupa de maternidade.
E por isso comeco por ela, que merece mais atencao. Que nos apareceu com inesperada facilidade. Que nos espantou por nao ter penis. Que ha de chegar ao mundo sem bisturis nem (vamos a ver) anestesias. Que é a prova real da harmonia, força e optimismo que reinam aqui em casa, apesar do caos, do cansaco, das birras, das incertezas, das mudancas.
E com a observação que ha um certo desmazelo numa segunda gravidez. (Esta é uma observaçao bastante tragica para alguem que é, ela propria, uma 4a filha.) Da primeira vez andava ansiosamente de mao na barriga ao fim do 3o mes, a confundir gazes com pontapes fetais. Lia avidamente os emails semanais que chegavam do babycenter.com a explicar que o bebe era do tamanho de um Kumquat. Comecei a tirar religiosamente fotografias do perfil abdominal a partir da 6a semana de gravidez, quando o que la se via era nada mais do que excesso de Nutela. E sei la mais o que... E agora nao. Os pontapes, sim, ja os sinto. Mas tambem ja tenho meio kilo de feto ca dentro. As fotos, tirei duas, e ja confortavelmente em roupa de maternidade.
E por isso comeco por ela, que merece mais atencao. Que nos apareceu com inesperada facilidade. Que nos espantou por nao ter penis. Que ha de chegar ao mundo sem bisturis nem (vamos a ver) anestesias. Que é a prova real da harmonia, força e optimismo que reinam aqui em casa, apesar do caos, do cansaco, das birras, das incertezas, das mudancas.
Do direito ao doi-doi
Bem! educar putos nos Estados Unidos e de uma gaja dar em doida. Os parque infantis tem chao acolchoado (nao estou a gozar, e assim uma especie de tartan com bolhas de ar la dentro, que uma pessoa a andar naquilo pensa que esta a pisar plasticina), veem-se mais adultos que miudos e os adultos parecem estar mais excitados que os miudos. Parecem cheerleaders aos ginchos quando a crianca, embalada em 10 quilos de la polar la se deixa escorregar escorrega abaixo ("good job, Aidan/Sophie/Carter/Gracie"); ou arbitros de cara circunspecta como aquele caramelo Italiano careca que arbitrava os jogos importantes todos do Mundial - como e que o gajo se chama? - a resolver prontamente qualquer litigio que involva 4 maos e 1 objecto com o saro-santo e universal "let's share"; ou ainda em socorristas dignos de INEM nos feriados de Agosto na IP5, a correr prontamente ao auxilio da cria quando esta chora que nem uma desalmada porque deu um bate-cu ao pe dos baloicos. E ja para nao falar na necessidade de entrar em amena cavaqueira com qualquer fellow progenitor que se apresente num raio de 2 metros. Minha nossa senhora, vao mais e dar uma granda volta! parques infantis sao para os putos aprenderem a viver e a socializar e a negociar o time-sharing dos brinquedos sem a vigilancia constante de adultos em estado anfetaminico. E aquela cancao: "e entao nao sei bem como foi, escorreguei cai no chao, no joelho ficou um doi-doi, no nariz um arranhao", esquece-ce! Ja nenhum puto percebe o conceito de se esfolar todo com a porcaria dos chaos de tartan. Eu ainda me lembro de ir de rojo pelo chao da maternelle do liceu frances que era nem mais nem menos do que gravilha pura da boa, meus senhores, e aquilo entrava pelas feridas adentro e infectava tudo, que ate saia pus e ficava o penso rapido todo colado que grande jorda. Hoje em dia canto a musica as Armenias e elas se soubessem falar perguntavam "oh mae o que e um doi-doi?". Enfim... nao fossem elas recusarem-se a deixar-me cortar-lhes as unhas, nem saberiam o que e um arranhao. O que vale e que ha rapazitos de 4-5 anos aqui no predio e esses sao uns verdadeiros chimpazes da confrontacao e nao ha adultos vigilantes que os controlem. Muito empurrao ja levou o Matildame a pala desses chavalitos. E ela nao se da por vencida, levanta-se, faz cara de Popeye (um dia destes, quando tiver tempo, explico a cara de Popeye dela) e planta-se de novo em frente deles que aquele triciclo e dela sim senhor. E que orgulho que me da ver aqueles galos a crescer por entre aquele caracolame loirinho todo.
Foi preciso um furacao...
... para me fazer voltar ao blog. Ao fim de quase seis meses (mais nao foi do que a mais pura e absoluta falta de tempo para blogar).
Falar sobre o furacao Sandy vivendo-se no Upper West Side é um pouco como falar de ataques Talibans vivendo-se em Mazar-e-Sharif: o perigo està sempre la para o Sul, aqui no Norte està tudo bem. E e verdade. Nao tivessemos nos mudado de casa e deixado aquele glorioso apartamento no SoHo junto com as suas baratas e ratos, estariamos neste momento sem luz, nem agua, nem aquecimento ha 3 dias. Olhariamos para a rua la fora e veriamos uma escuridao sinistra, adivinhando vultos ao dobrar da esquina. Veriamos bocas de incendio a jorrar agua e gente com baldes em punho a abastacer-se para ablucoes à gato e para dar de beber a autoclismos. Teriamos visto tambem a West Broadway fazer-se rio, e carros, barcos. Mas nao. Em Janeiro mudamo-nos ca para cima, para uma zona alta e nessa zona alta para um 17o andar. De maneira que nao nos faltou a agua, nem a luz nem o aquecimento. Luxo dos luxos: o metro aqui até funciona. Ponho-me no trabalho em 20 mins como antes (nao ponho porque estou doente e acamada, mas estivera eu recuperada, poria sim senhor). Sandy nao nos afectou portanto. Mas la que foi a maior ventania que vi na minha vida (e o 17o andar ai nao ajudou muito) e varias vezes me lembrei do Melancholia (razparta o filme ainda hoje me da pesadelos) ai isso foi.
Falar sobre o furacao Sandy vivendo-se no Upper West Side é um pouco como falar de ataques Talibans vivendo-se em Mazar-e-Sharif: o perigo està sempre la para o Sul, aqui no Norte està tudo bem. E e verdade. Nao tivessemos nos mudado de casa e deixado aquele glorioso apartamento no SoHo junto com as suas baratas e ratos, estariamos neste momento sem luz, nem agua, nem aquecimento ha 3 dias. Olhariamos para a rua la fora e veriamos uma escuridao sinistra, adivinhando vultos ao dobrar da esquina. Veriamos bocas de incendio a jorrar agua e gente com baldes em punho a abastacer-se para ablucoes à gato e para dar de beber a autoclismos. Teriamos visto tambem a West Broadway fazer-se rio, e carros, barcos. Mas nao. Em Janeiro mudamo-nos ca para cima, para uma zona alta e nessa zona alta para um 17o andar. De maneira que nao nos faltou a agua, nem a luz nem o aquecimento. Luxo dos luxos: o metro aqui até funciona. Ponho-me no trabalho em 20 mins como antes (nao ponho porque estou doente e acamada, mas estivera eu recuperada, poria sim senhor). Sandy nao nos afectou portanto. Mas la que foi a maior ventania que vi na minha vida (e o 17o andar ai nao ajudou muito) e varias vezes me lembrei do Melancholia (razparta o filme ainda hoje me da pesadelos) ai isso foi.
A rosa e a Bastilha
Concordo que a saída da crise se faça com crescimento e nao só com austeridade. E por isso a França de hoje é uma lufada de ar fresco. Estou agora no entanto refém de um sentimento contraditório entre o optimismo geral/genérico que a eleicao do Hollande me traz e a falta de inspiraçao que o Hollande me suscita. E estranho que um momento tao importante da história francesa venha das maos de um homem tao desprovido de carisma. Mas pronto, se ainda vivesse em Paris, estaria na Praça da Bastilha de rosa em punho esta noite.
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