As minhas colegas de trabalho sao jovens mulheres mais ou menos da minha idade. Todas elas viveram vários períodos de guerra e todas elas perderam 5 anos de vida entre 1996 e 2001, enquanto os Talibas estiveram no poder. Nao puderam ir à escola, nao puderam trabalhar, nao puderam sequer sair de casa. Estas jovens mulheres praticamente nao viveram entre os 15 e os 20 anos.
A F. vem de uma família de etnia Tadjique e tem 9 irmaos e irmas. Durante os Talibas, o pai dela decidiu mudar a família toda para a regiao de origem da família: o Badakhshan. Badakhshan é a provincia que fica no extremo Nordeste do Afeganistao, com um corredor fininho que se estende até à infima fronteira com a China. E uma provincia de montanhas e de neves eternas, com sítios tao remotos que nunca viram presenca humana e que os Talibas nunca conseguiram controlar. E uma província com uma populacao recolhida, forte, habituada ao sacrifício, que produziu no entanto uma legiao de poetas e escritores famosos no Afeganistao. A F. escapou aos Talibas passando 5 anos no extremo isolamento da sua província Natal, com aulas improvizadas em casa dadas pelo pai. Assim que os Talibas cairam, F e a sua família voltaram para Mazar-e-Sharif. Hoje a F é Administradora do meu escriorio e professora de Ingles na faculdade. Tem 25 anos.
A FA é também Tadjique. Durante o período dos Talibas, a FA ficou em Mazar, no extremo isolamento dos quatros muros da casa familiar. Com coragem organizou sessoes de costura em casa, onde vizinhas ainda mais corajosas se aventuravam para nao darem em loucas sempre em casa e para ganharem um dinheirito com o que fosse que conseguissem bordar e que os homens da casa conseguissem vender. Para fazerem os poucos metros de suas casas para a casa da FA tinham de arranjar um homem para as acompanhar porque mulheres nao podiam andar na rua sozinhas. Tinham também que ser discretas à entrada, porque iniciativas colectivas com qualquer cariz educativo ou laboral que fosse eram também proibídas para as mulheres. Hoje a FA tem 27 anos e é a advogada da minha ONG. Nao tem a mente mais rápida do mundo, mas tem os tomates que faltam a muitas mulheres mais inteligentes. Fala muito, de maneira confiante e vai para o tribunal sem medo defender o caso de mulheres "impuras" que fugiram de casa porque os maridos lhes batiam diariamente ou porque os pais as queriam casar à forca.
A R é de etnia Hazara. Os Hazaras sao Shiitas, com um facies muito asiático e uma reputacao de efeciencia e esperteza. Sao também um etnia tradicionalmente perseguida e discriminda no Afeganistao e, por essa razao, estao associados a trabalhos duros e subservientes (recolha de lixo, limpeza das ruas, criados). Os Talibas adoptaram uma política próxima da limpeza étnica em relacao aos Hazaras e muitos deles foram massacrados. Pouco antes dos Talibas chegarem ao poder, a R e a sua família fugiram para o Irao. Lá ficou anos e anos, casou-se aos 18 com um homem mais velho, teve um filho e uma filha. Acabou a escola, mas depois nao estudou mais. Com a partida dos Talibas, R, o marido, os filhos e cunhado, a cunhada e a sogra decidiram voltar ao Afeganistao e estabeleceram-se em Mazar, num bairro onde toda a gente se parece com eles – outros Hazaras. A R comecou a trabalhar como "assistente social" na minha ONG, a aconselhar mulheres com problemas de violencia doméstica. A R é profundamente (e honestamente) religiosa, tem uma voz suave, um sentido de justica profundo e aparenta um estado de calma constante. Distinguiu-se de tal forma que passou a ser a chefe da safe house (a casa gerida pela minha ONG, onde mulheres podem ficar em caso de emergencia). Das 5h às 8h da noite, a R vai para a faculdade estudar direito e ciencia política. A faculdade é longe de casa e a R tem sempre dificuldade em arranjar um taxi que a leve a casa. De vez em quando diz em tom de gozo uma piada que nao passa na cabeca de nenhuma mulher dizer: que vai tirar a carta e comprar, nao um carro, mas um Saranj (uma motinha de caixa aberta) para poder vir para casa à vontade. Na ONG, a R. superviza tres assistentes sociais mais velhas que ela e é responsável por uma média de 12 mulheres em estado de depressao intensa, algumas em real risco de suicídio. As assistentes sociais nem sempre reconhecem a autoridade da R. Chegam atrasadas ao trabalho, recusam-se a trabalhar horas extra. E a R desdobra-se em quatro para estar em todo o lado. A R tem as notas mais altas do ano dela e é a única no escritório que percebe a diferenca entre violacao e adultério. Estou neste momento a convence-la a nao se despedir. Tem 27 anos.
A N., é de étnia Tadjique e tem um pai exageradamente controlador. Durante os Talibas, a N nao saiu de casa. Teve a ocasional aula, para nao perder a capacidade de ler e escrever, mas nada mais. Foi um período completamente perdido. Quando os Talibas caíram a N. Tinha 16 anos. Insistiu em voltar à escola e estudar na faculdade. O pai lá deixou, ciente que sem educacao nao se é ninguém. Hoje a N. tem um diploma de Ingles, trabalha como intérprete na minha ONG e, tal como a F., dá aulas na faculdade. Depois do trabalho, a N. tem que ir sempre directa para casa, para limpar a casa e cozinhar para 12 pessoas. O pai só a deixa estar fora de casa o tempo estritamente necessário para o trabalho. Durante o Eid, a N. foi a única que nao fez a corrida das casas dos colegas connsoco, porque o pai nao a deixou sair de casa. A N. é a que tem a mente mais aberta e a maior capacidade intelectual aqui no grupo de colegas. Nao tem pressa em casar, embora seja a única maneira de sair de casa, porque pode ser pior a emenda que o soneto se o marido for um idiota. Por isso vai com calma. Ofereceram-lhe uma bolsa de estudo para um Master na Turquia, mas o pai nao a deixou ir. A N. aceitou porque nao respeitar o pai nao é uma libertacao, é perder os parametros com viveu a vida toda e perder-se um pouco a si mesmo também, e porque a verdade é que a ideia de ir para outro país assim de repente a aterroriza. Mais tarde talvez. Vai com calma. Quando fala dos problemas do Afeganistao, a N. insiste escrupulosamente em desdobrar o caleidoscópio do ser e do parecer: uma mulher que foge de casa é uma mulher desesperada, mas a sociedade (incluindo algumas das colegas aqui do escritório) ve-a como uma pecadora e o pecado é visto como um crime no Afeganistao, mesmo que nao esteja na lei, por isso poem-na na prisao, percebes Filipa-jan? Ninguém mais neste escritório tem a capacidade de formular uma análise assim. A N. nunca saiu de Mazar-e-Sharif. No outro dia estava no carro que me levou a casa. A minha casa fica no extremo Este da cidade e eu ia falando do quao gosto do meu bairro. Quando lá chegámos, a N. disse: obrigada, nunca tinha vindo até tao longe em Mazar. Tem 23 anos.
Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Jovens mulheres
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1 comentário:
É incrível!
Gostei mesmo de te ler.
Beijinhos, Mab
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