O Tuga não é Portugal

Não quero que este blogue se torne num exercício cibernético de e-ela-a-dar-no-ceguinho (o Tuga). Sou Portuguesa, falo a língua de Camões, gosto da Mariza, do Jorge Palma e do António Variações, se um dia comprar casa há-de ser em Lisboa. Mas tenho mesmo de aprender a não ler os comentários dos leitores do Público online. Ou melhor até: deixar de ler o Público online. E deixar de ver telejornais online. É que é Tuginha no seu pior. Cimeira da Nato em Lisboa: só consegui ter descrições detalhadas com mapa e tudo de rotas de comitivas e manifestações e consequentes cortes de trânsito. Ah e do material de segurança que só chegou hoje, dois dias após o fecho da Cimeira. E, claro, de como tudo isto é só uma manigância do Sócrates para distrair o pessoal dos verdadeiros problemas da Nação. E de como o Obama ainda é pior que o Bush e vá de retro a América - Satanás nuclear.

O futuro da Nato é um assunto sério e interessante. Talvez seja ave rara nos meios em que tenho andado, mas não sou alérgica a armas, nem a uniformes, não sou anti-Nato, até acho que deviam ter entrado no Kosovo mais cedo. É importante haver uma coalição de Estados democráticos (a Albânia será talvez uma excepção) com capacidade de intervenção militar. E é fascinante ver como a organização se reinventou no pós-Guerra Fria e o rapprochement com a Rússia, que esta Cimeira bem mostrou.

Percebo que haja quem discorde, mas acho que a questão merece diálogo e não gritaria. Atenção e não autismo. E merece definitivamente bem mais do que uma manifestação de jovens mascarados de palhaços.

Digam a um Afegão numa rua de Cabul ou Mazar-e-Sharif que a Nato se vai retirar amanhã. Ele vai abanar a cabeça e pensar "olha agora seja o que deus quizer" e vai para casa a pensar como é que vai conseguir pedir um visto à embaixada Americana. Digam-me por favor que, para além de manifestações dignas de Carnaval de Torres, houve conferências e mesas redondas onde se discutiu como deve ser o papel da Nato no Afeganistão. Os sucessos do treino do exército Afegão, das patrulhas conjuntas, o sentimento de segurança que a larga maioria da população em todo o Centro e Norte do Afeganistão tem consistentemente declarado nos últimos quatro anos. Mas também as disfunções da cadeia de comando, a responsabilidade por mortes de civis durante bombardeamentos aéreos, a necessidade de analisar como a presença da Nato no Afeganistão cria novas dinâmicas no conflito e de tentar identificar qual é a red line - quando é que ficar faz mais mal que bem. Digam-me que se discutiu a tão famosa cooperação civil-militar e a necessária distinção entre espaço humanitário e espaço militar. Distinção que a Nato teima que teima em não aceitar, no Afeganistão.

E há outra coisa: há uns anos, a visibilidade internacional de Portugal era basicamente do tamanho da base das Lajes, das praias do Algarve e do pernil do Figo/Ronaldo. Ou seja: parque de estacionamento, sol e bola. Nos últimos anos, tivemos um Alto Comissário para os Refugiados, um Presidente da Comissão, um Tratado de Lisboa, uma presidência da UE elogiada por muitos, uma eleição para o Conselho de Segurança da ONU e, embora talvez mais visível daqui do que daí, um enorme activismo em várias questões no seio da ONU (violência sexual em conflitos, países menos desenvolvidos etc.). Portugal é um país pequeno, mas não deixa a cadeira vazia e tem tomates para ir atrás de posições de responsabilidade. E isso devia inspirar-nos. A mim, apesar dos Tugas e dos Ipades deste mundo, inspira-me.

1 comentário:

Anónimo disse...

Olá Filipa
Eu sou daqueles que continua a pensar que o mundo era melhor sem armas mas que estas são inexoravelmente necessárias, porque constituem o maior mercado mundial promovido por todos os Governos (uns vendedores, outros compradores).
Nesta perspectiva a NATO é para mim uma loja de venda de armas onde sob o argumento da paz se procuram novas oportunidades de guerra.
Desta vez, onde alguns vêem enterrar-se o machado da guerra fria eu vejo elevar-se uma nova frente de tensão. Desta vez entre a Europa (incluindo a Rússia) e os restantes países do ocidente, contra as economias orientais. Onde hoje se fala em proteger a Europa contra a ameaça do Irão, amanhã esta protecção será alargada à Coreia do Norte, Paquistão e porque não, a prazo, à China e à India (são estes os 2 países que realmente preocupam a NATO).
Tirando isto, concordo com tudo o que disseste.
Bjs
Mano