A morte do segredo de Estado

A confidencialidade dos assuntos de Estado pode esconder as coisas mais terríveis e dar azo a uma impunidade que merece bem ser desmantelada. Mas é também o que permite diálogo entre inimigos e troca de informação vital. Uma coisa é o jornalista de investigação que vai ao fundo das questões, recolhe informação, confirma informação, analiza informação, protege fontes, e publica dentro dos limites da lei e seguindo o código deontológico da sua profissão. Outra coisa é um website, como a Wikileaks, onde qualquer soldado de 23 anos meio frustrado com a vida pode divulgar documentos secretos (e outros nem sequer secretos) assim sem pensar duas vezes. Ainda por cima documentos que vão da mera cusquice política (quero lá saber que chamem Teflon à Merkel), à repetição daquilo que toda a gente já está farto de saber (a ONU é um viveiro de espiões e os diplomatas Americanos nunca, nunca são flor que se cheire), à questão muito mais grave da divulgação de negociações sobre assuntos sensíveis que só podem acontecer dentro de um clima de confidencialidade (Coreia do Norte). Esta misturada toda mostra uma triste tendência para o escândalo e o sensacionalismo.

Há quem diga que graças à Wikileaks, há agora um verdadeiro escrutínio público da coisa política, um triunfo da Verdade. Discordo. Primeiro, porque a existência do Segredo não equivale a um qualquer reino da Mentira. Forma somente um espaço do não-dito, do não-assumido, que é uma lufada de ar fresco para Governos entricheirados na rigidez de um populismo puramente doméstico (Irão). Segundo, porque a "morte" do segredo de Estado não cria um clima de transparência no mundo. Cria desconfiança e, consequentemente, mais opacidade. A confidencialidade de certas questões de Estado era o que me fazia, muitas vezes, pensar que o mundo não é tão mau como parece. Que há mais para lá do que se lê nos jornais, que há diálogo e cooperação que não assumidos publicamente, mas que existem. Acho que o mundo estaria melhor sem o Wikileaks e com mais jornalismo de qualidade. E fica aqui o meu apoio a este comentário publicado no Público (ignorando, claro está, os comentários do gloriosos leitores).

2 comentários:

Anónimo disse...

Concordo contigo. Parece-me de muito mau agoiro a multiplicação eventual de casos como este.
Bjs, Mab

Anónimo disse...

http://maquinaespeculativa.blogspot.com/
Lê aqui o comentário do Porfírio. Bjs, Mab