Eu, o Ipad e o desespero de ser Portuguesa

Trabalhei um ano e meio no Sudão.

Acompanhei, em Cartum, os primeiros passos do governo de união nacional, criado pelo acordo de paz de 2005, que pôs termo a décadas de guerra no Sul do Sudão e que prevê a organização de um referendo sobre a independência do Sul do Sudão em Janeiro de 2011. Vi a dificuldade com que os eleitos Sudistas (não) se integraram na vida política de Cartum. E fi-lo a partir da delegação da Comissão Europeia.

Visitei várias zonas dos estados ditos de "transição", zonas em situação de permanente conflito, onde etnias Sudistas e Nordistas cohabitam tant bien que mal, onde há exploração petrolífera e construção de pipelines por empresas Chinesas e onde a eventual futura fronteira entre Sudão Norte e Sudão Sul irá passar (mais abaixo diz Cartum, mais acima diz Juba).

Mais tarde, cheguei ao Darfur logo após a assinatura de outro histórico "acordo de paz" em 2006, e vi como falhou em dar representatividade política aos Darfuris e como falhou em acabar com os ataques contra certas etnias, fazendo do Darfur um novo Sul do Sudão. Vi também (e quase senti na pele) a extrema tensão entre Cartum e a ONU e as disfunções da presença internacional no Sudão.

Acho que conheço a situação no Sudão. Relativamente bem.

Antes de tudo isto, estudei direitos humanos e democratização num programa financiado e apoiado pela Comissão Europeia, que incluiu uma semana de treino em observação eleitoral.

Não é portanto de espantar que, nos últimos 4 anos, tenha esperado ansiosamente pela oportunidade de participar na missão de observação eleitoral da Comissão Europeia no Sudão. Inscrevi-me na lista de potenciais observadores Portugueses e no mês passado lá veio o tão esperado pedido de candidaturas, dirigido especialmente a quem tivesse experiência de trabalho no Sudão e treino em observação eleitoral. Mal contendo a expectativa, assinalei a minha disponibilidade ao Ipad (entidade que gere as candidaturas Portuguesas) e esperei.

Foi com incredulidade que recebi hoje um email da Comissão a dizer que fui sugerida por Portugal na LISTA DE RESERVA para a missão de observação no Sudão e que lamentam comunicar que não fui seleccionada.

É mais uma das inúmeras situações de bloqueio em me encontrei sempre que tive que passar pelo Ipad. Há dias em que tenho mesmo pena de não ter avançado para a frente com o processo de naturalização em França.

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