O nascimento de uma Nacao

Estes sao os símbolos que estao a aparecer nos boletins do referendo no Sul do Sudao e no círculo, cabe a impressao digital com tinta indelével, porque muitos nao sabem ler nem escrever. O referendo vai durar uma semana, porque o Sul do Sudao é grande e tem poucas estradas. Mas isso é um problema para mais tarde. Esta semana, sao milhoes a fazer fila, jubilantes, em frente a escolas, tendas ou mesas debaixo de árvores. Penso no Gibson, um colega Sul-Sudanês com quem trabalhei no Darfur, que nos resolvia as financas do escritório num ápice, que me chamava "Filipaaa, strrrrroooong lady", que por ser do Sul era gozado pela cozinheira do escritório, que educou duas filhas gémeas (hoje médicas) sozinho, depois de ter perdido a mulher há muitos anos, e que falava vezes sem fim do seu lote de terra no Sul, para onde voltaria quando chegasse o tempo da independência.

E nem acredito que nao estou lá para ver.

Galocha


Há muitas coisas a que ainda nao me habituei aqui. Mas entre tempestades, gelo a derreter e jorda de lama em todo o lado, converti-me à moda da galocha. Sao tao incorfortáveis como quando tinha 5 anos, mas estas têm flores, porque sou menina, entao nao faz mal.

A morte do segredo de Estado

A confidencialidade dos assuntos de Estado pode esconder as coisas mais terríveis e dar azo a uma impunidade que merece bem ser desmantelada. Mas é também o que permite diálogo entre inimigos e troca de informação vital. Uma coisa é o jornalista de investigação que vai ao fundo das questões, recolhe informação, confirma informação, analiza informação, protege fontes, e publica dentro dos limites da lei e seguindo o código deontológico da sua profissão. Outra coisa é um website, como a Wikileaks, onde qualquer soldado de 23 anos meio frustrado com a vida pode divulgar documentos secretos (e outros nem sequer secretos) assim sem pensar duas vezes. Ainda por cima documentos que vão da mera cusquice política (quero lá saber que chamem Teflon à Merkel), à repetição daquilo que toda a gente já está farto de saber (a ONU é um viveiro de espiões e os diplomatas Americanos nunca, nunca são flor que se cheire), à questão muito mais grave da divulgação de negociações sobre assuntos sensíveis que só podem acontecer dentro de um clima de confidencialidade (Coreia do Norte). Esta misturada toda mostra uma triste tendência para o escândalo e o sensacionalismo.

Há quem diga que graças à Wikileaks, há agora um verdadeiro escrutínio público da coisa política, um triunfo da Verdade. Discordo. Primeiro, porque a existência do Segredo não equivale a um qualquer reino da Mentira. Forma somente um espaço do não-dito, do não-assumido, que é uma lufada de ar fresco para Governos entricheirados na rigidez de um populismo puramente doméstico (Irão). Segundo, porque a "morte" do segredo de Estado não cria um clima de transparência no mundo. Cria desconfiança e, consequentemente, mais opacidade. A confidencialidade de certas questões de Estado era o que me fazia, muitas vezes, pensar que o mundo não é tão mau como parece. Que há mais para lá do que se lê nos jornais, que há diálogo e cooperação que não assumidos publicamente, mas que existem. Acho que o mundo estaria melhor sem o Wikileaks e com mais jornalismo de qualidade. E fica aqui o meu apoio a este comentário publicado no Público (ignorando, claro está, os comentários do gloriosos leitores).

O Tuga não é Portugal

Não quero que este blogue se torne num exercício cibernético de e-ela-a-dar-no-ceguinho (o Tuga). Sou Portuguesa, falo a língua de Camões, gosto da Mariza, do Jorge Palma e do António Variações, se um dia comprar casa há-de ser em Lisboa. Mas tenho mesmo de aprender a não ler os comentários dos leitores do Público online. Ou melhor até: deixar de ler o Público online. E deixar de ver telejornais online. É que é Tuginha no seu pior. Cimeira da Nato em Lisboa: só consegui ter descrições detalhadas com mapa e tudo de rotas de comitivas e manifestações e consequentes cortes de trânsito. Ah e do material de segurança que só chegou hoje, dois dias após o fecho da Cimeira. E, claro, de como tudo isto é só uma manigância do Sócrates para distrair o pessoal dos verdadeiros problemas da Nação. E de como o Obama ainda é pior que o Bush e vá de retro a América - Satanás nuclear.

O futuro da Nato é um assunto sério e interessante. Talvez seja ave rara nos meios em que tenho andado, mas não sou alérgica a armas, nem a uniformes, não sou anti-Nato, até acho que deviam ter entrado no Kosovo mais cedo. É importante haver uma coalição de Estados democráticos (a Albânia será talvez uma excepção) com capacidade de intervenção militar. E é fascinante ver como a organização se reinventou no pós-Guerra Fria e o rapprochement com a Rússia, que esta Cimeira bem mostrou.

Percebo que haja quem discorde, mas acho que a questão merece diálogo e não gritaria. Atenção e não autismo. E merece definitivamente bem mais do que uma manifestação de jovens mascarados de palhaços.

Digam a um Afegão numa rua de Cabul ou Mazar-e-Sharif que a Nato se vai retirar amanhã. Ele vai abanar a cabeça e pensar "olha agora seja o que deus quizer" e vai para casa a pensar como é que vai conseguir pedir um visto à embaixada Americana. Digam-me por favor que, para além de manifestações dignas de Carnaval de Torres, houve conferências e mesas redondas onde se discutiu como deve ser o papel da Nato no Afeganistão. Os sucessos do treino do exército Afegão, das patrulhas conjuntas, o sentimento de segurança que a larga maioria da população em todo o Centro e Norte do Afeganistão tem consistentemente declarado nos últimos quatro anos. Mas também as disfunções da cadeia de comando, a responsabilidade por mortes de civis durante bombardeamentos aéreos, a necessidade de analisar como a presença da Nato no Afeganistão cria novas dinâmicas no conflito e de tentar identificar qual é a red line - quando é que ficar faz mais mal que bem. Digam-me que se discutiu a tão famosa cooperação civil-militar e a necessária distinção entre espaço humanitário e espaço militar. Distinção que a Nato teima que teima em não aceitar, no Afeganistão.

E há outra coisa: há uns anos, a visibilidade internacional de Portugal era basicamente do tamanho da base das Lajes, das praias do Algarve e do pernil do Figo/Ronaldo. Ou seja: parque de estacionamento, sol e bola. Nos últimos anos, tivemos um Alto Comissário para os Refugiados, um Presidente da Comissão, um Tratado de Lisboa, uma presidência da UE elogiada por muitos, uma eleição para o Conselho de Segurança da ONU e, embora talvez mais visível daqui do que daí, um enorme activismo em várias questões no seio da ONU (violência sexual em conflitos, países menos desenvolvidos etc.). Portugal é um país pequeno, mas não deixa a cadeira vazia e tem tomates para ir atrás de posições de responsabilidade. E isso devia inspirar-nos. A mim, apesar dos Tugas e dos Ipades deste mundo, inspira-me.

November Delta

No Darfur éramos quatro November Deltas (November para Nyala, Delta para pnuD). Quatro jovens que, com uma mão cheia de advogados e um insubstituível e hilariante antigo juiz, formaram a equipa mais bem rodada da região naqueles gloriosos meses de 2006-2007. Ser November Delta é ter a garra de uma alcateia de lobos à caça em pleno Inverno, é perceber-se depressa o que se está a passar à nossa volta, é aprender com os melhores e combater contra os piores (sejam eles homens armados ou colegas que se tornam num perigo de tão incompetentes que são), é rir-se cinicamente da paz no mundo, mas saber-se ver sucessos nas pequenas coisas que melhoraram a vida deste ou daquele homem, desta ou daquela mulher; é ultrapassar-se períodos difíceis por se saber porquê e para onde se vai.

Três anos depois reunimo-nos (quase) todas em Nova Iorque.

K, seguiu para o Uganda (com que tanto sonhava) e depois para a Costa do Marfim e depois veio para aqui, onde dirige o escritório de uma das maiores ONGs humanitárias. Casou-se há uns meses com um jovem que foi frequente hóspede da casa Delta em Nyala, até ter sido expulso do país por ser tão bom naquilo que fazia. Cada coisa que tenta, K consegue. Está mais calma, mais confiante, mas se o trabalho se acumula ainda se torna num monstro-que-não-há-quem-a-ature de stress. Há coisas que não mudam.

O, foi a única de nós que se atracou ao Sudão com unhas e dentes. Hoje vive em Nairobi e lidera todas as campanhas relativas ao Sudão na mesma ONG da K. Veio cá após uma longa viagem com paragens em Londres, Bruxelas, Paris e Washington, reuniões com vários ministros e inúmeras conferências de imprensa. A O aprendeu finalmente a conduzir e comprou uma casa. Ainda tem o seu palmito de cara meia Inglesa, meia Grega e uma corte de jovens à volta dela. E nunca, nunca, nunca se cala. Até eu a mandar. Há coisas que não mudam.

D, teria vindo até cá não fosse o facto de ter a córnea de um homem morto dentro do olho. O tão esperado transplante aconteceu em Agosto e está a dar-lhe uma visão que antes só conseguia ter com umas lentes que lhe custavam os olhos da cara e que saltavam para fora de 10 em 10 mins. Como naquela noite em que chegámos as duas estafadas à casa Delta, já no limite do recolher obrigatório, esganadas de fome, só para descobrir uma cozinha invadida por gafanhotos. Milhares deles. Procedemos então à batalha do milénio, botifarras contra insectos voadores e pumba pumba pumba a esmagá-los todos. Até que a filha da mãe da lente lhe sai do olho e a D: "PÁÁÁRA, PÁÁÁÁRA QUE A LENTE CAIU, OLHA QUE DOU CABO DE TI SE ME ESMAGAS A LENTE". Mas a lente estava para sempre perdida no campo de batalha e deu, com certeza, uma indigestão a uma das formigas gigantes que nos seguiam tipo máquina de limpeza industrial a devorar os corpos caídos do insectos vencidos. Enfim, não passa de uma história do passado, porque agora a D consegue ver como deve ser. Está a viver em Jerusalém (como tanto queria), onde dirige um programa de assistência jurídica aos seus conterrâneos Palestinienses. Ainda não se amancebou porque ninguém percebe o seu sentido de humor extremamente, excessivamente sarcástico e talvez porque continua a idolatrar o dia de descanso a ver DVDs ou a ler sem falar com absolutamente ninguém. Porque há coisas que não mudam.

E eu, casada que era, casada continuo, mas sem mais por dizer. E ao fim destes dias, dou por mim tristemente inquieta a perguntar-me para onde foi a minha November-Deltez.

Está quase, está quase

Já se acotovela gente à roda à roda à roda no ringue de patinagem no gelo em frente ao Rockefeller Center
Já chegou o pinheiro gigante, vindo de uma quinta no cú de judas da América
Já o estão a empipalhar com luzes e mais luzinhas, em preparação para a mítica cerimónia do acender da árvore no dia 30.
O Macy's já está engrinaldado e as vitrinas preparam-se para acolher os novos fantoches, retratando cenas da vida natalícia Americana
Perús de tamanho a fazer medo ao meu irmão Rui-quando-tinha-15-anos já dominam a ala da carne
O Starbucks já oferece eggnog-lattes em copos vermelhos e brancos
É (quase) Natal.