Com alguns dias de atraso, acho que se impõe um comentário sobre a indiciação do primeiro ministro do Kosovo pelo Tribunal internacional para a ex-Jugoslavia.
Ser-se primeiro ministro do Kosovo é ao mesmo tempo nada e muito.
Nada, porque é-se primeiro ministro de umas ilustres "Provisional Institutions for Self-Government" o que deve querer dizer, mais coisa menos coisa, "Instituições Provisórias de Auto-governo". É-se provisório - não permanente -, e dirige-se uma política de auto-governo, num território onde os selos têm o emblema da ONU, os enderços postais acabam com a sigla "UNMIK" e a minoria Servia - ex-maioria - não aparece nas sessões parlamentares desde Outubro do ano passado.
Muito, porque as Nações Unidas vão apresentar este Verão os resultados de uma avaliação da situação no Kosovo, para ver se os famosos "standards" estão preenchidos e se é possível avançar-se para a fase da discussão sobre o "status" internacional do território. Como tal, o primeiro ministro, enquanto dirigente eleito, estaria à frente das negociações que, como todos sabem mas poucos dizem, conduzirão à independência do Kosovo.
Problema: pelo que vimos e ouvimos de parte de várias pessoas quando estivemos no Kosovo:
- há uma confiança generalizada no primeiro ministro (que era um dos mais altos comandantes do exercito de libertação do Kosovo)
- há uma reticência generalizada, na população local, em comparar os crimes cometidos pelos Sérvios contra os Albaneses aos crimes cometidos pelos Albaneses contra os Sérvios.
Questão: Como será interpretada a indiciação de um Albanês pelo tribunal que está a julgar o Milosevic?
Para o tribunal é, com certeza, um sinal de isenção que tanto faz falta a este tipo de instituições.
Poder-se-à aliás questionar se a necessidade de isenção é tão urgente que justifique esta indiciação num momento em que o Kosovo reviveu tensões internas (relembre-se os eventos de Março de 2004) e se prepara para entrar na recta final da independência.
Mas pronto.
Para o Kosovo poderá ser um desastre caso haja retaliações ao encontro dos poucos Sérvios que ainda lá vivem.
Poderá também ser uma autêntica autoestrada para a independência se:
- não houver retaliações
- o governo provisório colaborar com o tribunal
- se emergir uma certa maturidade política que tire o Kosovo do estado de denegação patologico em que se encontra.
Mas esperança. Relembremos que a luta no Kosovo levou practicamente três anos a radicalizar-se.
Em 1989:
- quando lhe foi retirado o estatuto de autonomia garantido pela Constituição Jugoslava,
- quando o ensino do Albanês começou a ter de ser practicado no silêncio de casas particulares ao abrigo de olhares vizinhos,
- quando a quase totalidade dos empregados públicos Albaneses perderam o emprego...
... Os Albaneses do Kosovo não queriam "independência e morte aos Sérvios", mas apenas o restabelecimento do estatuto de região autonomia. Mesmo ao ver as républicas vizinhas a aceder à independência com a aprovação mais (Alemanha) ou menos (França) expedita do resto do mundo.
Tenham eles a mesma calma desta vez.
Sem comentários:
Enviar um comentário