Esta sou eu e a Emilia, e atras de nos: o Nilo.

O principe e o fotografo.

O Nilo


Este fim de semana fizemos um passeio no Nilo, num barco-rectangulo, com mais gente da Delegacong. Disseram-nos que havia um DJ a bordo. Mas o DJ a bordo so passava Rod Stewart em versao Pan Pipe (sabem aquelas flautas lindas e melodiosas, tocadas as vezes por indios sulamericanos nas ruas da Baixa? Sao essas mesmo).

Mas ao longo do caminho, o que vimos foi isto. Mesquitas e mais mesquitas (aquela torre ali e uma), casas de lama mais casas de lama. O que nao se ve e o cheiro intenso de lixo queimado. Os locais passam o dia a queimar lixo dentro daquelas casas de lama. Minha nossa senhora.

Madrugada de dia 26 de Fevereiro

Estavamos ja no setimo sono,
Ja o calor nao nos incomodava de tao adormecidos que estavamos,
Ja o barulho da ventoinha nao nos perturba,

ring riiiing riiing rinng

Que e isto?
E o teu telemovel.
bolas, 5:20 da manha, sera que aconteceu alguma coisa?

Estou?
(barulho de fundo do segundo andar da Kapital)
Filipa! Amiga!
(barulho de fundo do res-do-chao da Kapital)
Joana... ola.
Ai desculpa acordei-te?
Sao cinco e tal da manha aqui mas nao faz mal...
Desculpa desculpa - nao faz mal - era so para dizer Parabens, ligo mais tarde beijinhos
plim.

Ok, ontem a noite era sabado. Mas sabado no Sudao e vespera de trabalho... E ja com um quarto de seculo em cima, preciso de descansar.


Desta vez foi assim, outras vezes e so o piip piip piip piip de uma mensagem caida do ar a dizer saudades, depois de semanas e semanas sem noticias.
Mas invariavelmente, qualquer tentativa de comunicacao por parte da minha querida amiga Joana Estrela - futura testemunha da boda - ocorre sempre entre as 02h00 e as 07h00 (hora Portuguesa).


O principe e eu percebemos que, definitivamente, as irrupcoes nocturnas da Joana fazem parte da nossa vida.
E essa vida agrada-nos.

O meu fado do lar

Estou a viver uma experiencia fantastica.

Eu levanto-me cedo, trabalho, dou duro, suo, bulo o dia todo.
O principe, nicles.

Ele dorme ate ao meio dia e depois perde-se nas ruas de Khartoum em shopping-frenesia.

E ao fim do dia conta-me tudo.

Ontem andava-me extasiado com a descoberta do Afra, o centro comercial de Khartoum. Tem um supermercado enorme onde cada corredor tem 1 ou 2 marcas do mesmo produto. Farinha da Turquia em embalagens verdinhas do principio ate metade, e farinha da Arabia Saoudita em pacotes brancos da metade ate ao fim. Mas o Principe, acostumado ja a dificudade de encontrar uma simples corda para a roupa, delirou.

Adoro chegar a casa e ter 12 litros de agua engarrafada na cozinha, ter a mosquiteira finalmente posta por cima da cama com um estamine de suspensao que nunca me tinha passado pela cabeca mas que e preciso por causa dos 4m de pe direito, ter lampadas, ter um reservatorio de agua na casa de banho...

e ter o principe sorridente e relaxado cheio de ideias para o jantar e para possiveis viagens a Wad el Medani ou sei la aonde.

Ataque de esquizofrenia de quinta para sexta-feira

Na sexta-feira passada, acordei no meu novo quarto ao qual ja me habituei, no meu novo colchao feito sobre medida no souq, depois de uma noite que durou ate as 5h da manha em casa de um consul e depois em casa de uns jovens das ONGs. Na primeira, o alcool corria a jorros, na segunda ja nao porque o pessoal das ONGs nao ganha como o Consul nem de longe nem de perto, de maneira que como chegamos tarde, ja todas as garrafas estavam vazias e nao havia mais nada nos armarios.

Levantei-me ainda com a sensacao ligeiramente tonta da vespera a pensar olha no que e que me fui meter ontem, sera que ainda ha pao, espero que a agua nao esteja cortada outra vez que eu tenho mesmo que me lavar olha pra estes pes, que nojo. nunca mais ando de sandalias.

E ouvi o som de um aviao a aterrar no aeroporto que fica ali mesmo ao lado de casa. E entao disparei. Sera a Qatar Airways? Sera O MEU PRINCIPE A CHEGAR A RRARTOUM?

Olho pro relogio, 15.20 ai jesus que deve ser o aviao dele. naoo havia pao, mas nao faz mal. Nao havia agua, mas nao faz mal. Lavei-me a mim e aos mesmo dentes sumariamente com agua engarrafada, comi o arroz de caril que o casalinho suico-britanico - que nao foi ao Consul nem as ONGs e que se levantou cedo - preparou e Yalla Yalla para o Al-Matar (que o arabe para "ala para o aeroporto").

Chego ao Al-Matar e vejo um mar de gente vestida de branco.
Pois e... Sexta-feira, dia do senhor desta gente de ca. E com um voo da Qatar Airways a chegar, nao se esperava outtra coisa: eu era a unica, mas unica branca presente. E a unica, mas a unica mulher com cabelo a mostra.

Bonito. Se eles soubessem o que andei a ingerir ontem linchavam-me ja aqui.
Fingi que era como o casalinho suico-britanico la de casa e, debaixo dos olhares inquisidores, gozadores, observativos dos locais, e debaixo de um sol abrasador que me pos metade da cabeca loira, esperei.

Quando saiu o meu principe pela porta (ah tao bonito que ele ta, cortou o cabelo; iiihh coitadinho de barba por fazer pudera com 24h de viagem em cima; aquelas calcas sao novas, nunca as vi; ganhou um bocadito de barriga mas nao faz mal, e ta lindo anda ca que es meu)

So pude dizer a voz baixa muito depressa "nao nos podemos tocar aqui, nao nos podemos tocar aqui, segue segue para o taxi".

Vejo homens de mao dada na rua o tempo todo, vi maes abracarem avos chegadas do Qatar com toda a energia do mundo, vi genros sorrirem e carregarem malas de noras para o carro. Tudo parecia quase normal...

Mas como sou mulher, o meu principe, o meu homem, que vai ser meu marido nao tarda um nico, nao o posso sequer tocar em publico.
Nem depois de semanas de separacao, do corte de cabelo novo... nada.

Entre a experiencia da vespera e a experiencia desse dia, percebi que os brancos, aqui, estao condenados a esquizofrenia. Especialmente entre 5as e 6as feiras.