Foi preciso um furacao...

... para me fazer voltar ao blog. Ao fim de quase seis meses (mais nao foi do que a mais pura e absoluta falta de tempo para blogar).

Falar sobre o furacao Sandy vivendo-se no Upper West Side é um pouco como falar de ataques Talibans vivendo-se em Mazar-e-Sharif: o perigo està sempre la para o Sul, aqui no Norte està tudo bem. E e verdade. Nao tivessemos nos mudado de casa e deixado aquele glorioso apartamento no SoHo junto com as suas baratas e ratos, estariamos neste momento sem luz, nem agua, nem aquecimento ha 3 dias. Olhariamos para a rua la fora e veriamos uma escuridao sinistra, adivinhando vultos ao dobrar da esquina. Veriamos bocas de incendio a jorrar agua e gente com baldes em punho a abastacer-se para ablucoes à gato e para dar de beber a autoclismos. Teriamos visto tambem a West Broadway fazer-se rio, e carros, barcos. Mas nao. Em Janeiro mudamo-nos ca para cima, para uma zona alta e nessa zona alta para um 17o andar. De maneira que nao nos faltou a agua, nem a luz nem o aquecimento. Luxo dos luxos: o metro aqui até funciona. Ponho-me no trabalho em 20 mins como antes (nao ponho porque estou doente e acamada, mas estivera eu recuperada, poria sim senhor). Sandy nao nos afectou portanto. Mas la que foi a maior ventania que vi na minha vida (e o 17o andar ai nao ajudou muito) e varias vezes me lembrei do Melancholia (razparta o filme ainda hoje me da pesadelos) ai isso foi.

A rosa e a Bastilha

Concordo que a saída da crise se faça com crescimento e nao só com austeridade. E por isso a França de hoje é uma lufada de ar fresco. Estou agora no entanto refém de um sentimento contraditório entre o optimismo geral/genérico que a eleicao do Hollande me traz e a falta de inspiraçao que o Hollande me suscita. E estranho que um momento tao importante da história francesa venha das maos de um homem tao desprovido de carisma. Mas pronto, se ainda vivesse em Paris, estaria na Praça da Bastilha de rosa em punho esta noite.



Vivam os Juizes do Tribunal Penal Internacional!

Thomas Lubanga, lider de um grupo armado Congoles, foi condenado hoje pelo Tribunal Penal Internacional por ter recrutado e usado criancas em hostilidades - um crime de guerra segundo o Estatuto de Roma. Foi a primeira condenacao do Tribunal, desde a sua criacao em 2002.

Nao foi so a condenacao em si que foi importante. Foi tambem o facto do tribunal ter considerado que participacao activa em hostilidades nao quer dizer so participar em combates, é tambem participar em accoes que, embora nao sendo de combate, criam um risco de retaliacao para a crianca.

Quer isto dizer que vitimas de crime de guerra nao sao so as criancas-soldado de arma em punho na frente de combate, sao tambem as que estao em segundo plano: as "guarda-costas" dos comandantes, as que asseguram a seguranca dos acampamentos, as que sao usadas como informadoras, as que cozinham, as que carregam coisas acompanhando o grupo armado de base em base selva a fora.

Foi tambem boa a enorma rabecada que o Procurador, Ocampo, levou do Juiz por ter ter inicialmente baseado parte da acusacao em intermediarios nao crediveis o que criou enormes atrasos no processo. Para um homem da lei, Ocampo utiliza constantemente uma retorica imprecisa, vagamente sensasionalista, que me deixou, sempre que o ouvi, a pensar: mas este homem é Procurador ou é politico? E alias sintomatico que num dia como o de hoje, o que o comunicado de imprensa da Procuradoria salienta é o facto da Angelina Jolie ter assistido à audiencia... Saber que tudo isto nao é so retorica, mas que o trabalho que ele faz é tambem pouco rigoroso é de bater com a cabeca na parede.

O juiz fez-nos um favor a todos ao dar uma reguada publica a Ocampo. Bem feita.