Está quase, está quase

Já se acotovela gente à roda à roda à roda no ringue de patinagem no gelo em frente ao Rockefeller Center
Já chegou o pinheiro gigante, vindo de uma quinta no cú de judas da América
Já o estão a empipalhar com luzes e mais luzinhas, em preparação para a mítica cerimónia do acender da árvore no dia 30.
O Macy's já está engrinaldado e as vitrinas preparam-se para acolher os novos fantoches, retratando cenas da vida natalícia Americana
Perús de tamanho a fazer medo ao meu irmão Rui-quando-tinha-15-anos já dominam a ala da carne
O Starbucks já oferece eggnog-lattes em copos vermelhos e brancos
É (quase) Natal.

Eu, o Ipad e o desespero de ser Portuguesa

Trabalhei um ano e meio no Sudão.

Acompanhei, em Cartum, os primeiros passos do governo de união nacional, criado pelo acordo de paz de 2005, que pôs termo a décadas de guerra no Sul do Sudão e que prevê a organização de um referendo sobre a independência do Sul do Sudão em Janeiro de 2011. Vi a dificuldade com que os eleitos Sudistas (não) se integraram na vida política de Cartum. E fi-lo a partir da delegação da Comissão Europeia.

Visitei várias zonas dos estados ditos de "transição", zonas em situação de permanente conflito, onde etnias Sudistas e Nordistas cohabitam tant bien que mal, onde há exploração petrolífera e construção de pipelines por empresas Chinesas e onde a eventual futura fronteira entre Sudão Norte e Sudão Sul irá passar (mais abaixo diz Cartum, mais acima diz Juba).

Mais tarde, cheguei ao Darfur logo após a assinatura de outro histórico "acordo de paz" em 2006, e vi como falhou em dar representatividade política aos Darfuris e como falhou em acabar com os ataques contra certas etnias, fazendo do Darfur um novo Sul do Sudão. Vi também (e quase senti na pele) a extrema tensão entre Cartum e a ONU e as disfunções da presença internacional no Sudão.

Acho que conheço a situação no Sudão. Relativamente bem.

Antes de tudo isto, estudei direitos humanos e democratização num programa financiado e apoiado pela Comissão Europeia, que incluiu uma semana de treino em observação eleitoral.

Não é portanto de espantar que, nos últimos 4 anos, tenha esperado ansiosamente pela oportunidade de participar na missão de observação eleitoral da Comissão Europeia no Sudão. Inscrevi-me na lista de potenciais observadores Portugueses e no mês passado lá veio o tão esperado pedido de candidaturas, dirigido especialmente a quem tivesse experiência de trabalho no Sudão e treino em observação eleitoral. Mal contendo a expectativa, assinalei a minha disponibilidade ao Ipad (entidade que gere as candidaturas Portuguesas) e esperei.

Foi com incredulidade que recebi hoje um email da Comissão a dizer que fui sugerida por Portugal na LISTA DE RESERVA para a missão de observação no Sudão e que lamentam comunicar que não fui seleccionada.

É mais uma das inúmeras situações de bloqueio em me encontrei sempre que tive que passar pelo Ipad. Há dias em que tenho mesmo pena de não ter avançado para a frente com o processo de naturalização em França.

Bonita por fora, bonita por dentro



2 meses n'América

Começou assim, resfalfamento na praia a 45 min de casa.

Depois veio o 3 de Outubro, dia da reunificação Alemã, com direito a bandeira luminosa no Emipre State Building. (vou dizer-lhes do dia de Camões)

Depois veio o Halloween. Casanova e sua mulher dominaram hangares desafectados de Brooklyn até altas horas da madrugada, armados com as suas máscaras Venezianas originais. (a foto não faz jus à indumentária da mulher do Casanova, que incluia um vestido preto todo aberto à frente, cintura abaixo, mini shorts, collant-rede maravilha e bela bota de salto alto até ao joelho que bem me torturou os calos)

E agora são as folhas a mudar e as cores de um Outono perfeito, digno de livro de histórias infantis.

Do Camóne - o serviço ao cliente

A deambulação diária pelas ruas de Nova Iorque a tratar de inúmeras caganitas administrativas continua a provar que o Camóne não é, definitivamente, como nós. Nós sendo eu, a família SG, os Portugueses , os Alemães, os Europeus em geral, gente normal, cães e piriquitos.

Já me habituei a ter que dar o meu primeiro nome a qualquer balcão pindérico de apoio ao cliente e ter de falar com Aleysha's e Dolores's e Johnny's à cerca das minhas "necessidades" (o termo é deles) no que diz respeito à telefonia móvel, à televisão por cabo, ao selo postal etc. Estas conversas acabam invariavelmente em discussão de meia-noite quando chega a altura de pagar o meu produto e eu decido que afinal não quero o produto porque a conta de repente ficou 45% mais cara. É por mais que eu pergunte, a Aleysha, a Dolores e o Johnny desembalam os discurso todo que lhes tatuaram - na língua, não no cérebro - durante os dias de orientação, discretamente e invariavelmente omitindo o facto dos preços estarem todos indicados sem IVA e outras misteriosas taxas, à espera que eu assine sem olhar para o preço, ladrões do catano.

Quando o contacto é por telefone, já me habituei a deixá-los acabar a logorreia de apresentação e agradecerem-me por cada palavra que eu, omnipotente cliente, digo.
Obrigada por ligar para o serviço de apoio ao cliente da T-Mobile, contamos com mais de 5 milhões de clientes satisfeitos nos Estados Unidos e agradecemos desde já a confiança que depositou em nós, o meu nome é Aleysha, em que posso ajudá-la hoje?
Não ontem, claro. Hoje.
Eu explico que ontem estava a tentar transferir o meu número de telefone antigo para o novo telemóvel, mas que a chamada caiu e que não tenho a certeza do processo ter sido finalizado. Ela pede-me o número do dito telefone. Eu digo-lhe o número. E ela agradece-me por essa informação. Depois pede-me a data de nascimento. Eu digo a data de nascimento. E ela agradece-me por essa informação. Depois pede-me o meu nome. Eu digo-lhe o meu nome. Ela não percebe, pede-me para soletrar. Eu soletro. E ela agradece-me por essa informação. E diz-me: então Falipi, queres transferir o teu número antigo, certo? Sim. Para te ajudar nesse processo, vou transferir-te ao nosso serviço de transferências de números. Mais uma vez, obrigada por teres ligado, por favor não desligues.

Obrigada por ligar para o serviço de apoio ao cliente da T-Mobile, contamos com mais de 5 milhões de clientes satisfeitos nos Estados Unidos e agradecemos desde já a confiança que depositou em nós, o meu nome é Johnny, em que posso ajudá-la hoje?
Mais uma vez, explico que ontem estava a tentar transferir o meu número de telefone antigo para o novo telemóvel, mas que a chamada caiu e que não tenho a certeza do processo ter sido finalizado. Ele pede-me o número do dito telefone. Eu digo-lhe o número. E ele agradece-me por essa informação. Depois pede-me a data de nascimento. Eu digo a data de nascimento. E ele agradece-me por essa informação. Depois pede-me o meu nome. Eu digo-lhe o meu nome. Ele não percebe, pede-me para soletrar. Eu soletro. E ela agradece-me por essa informação.

Ok Salipa, primeiro tenho que abrir uma ficha e inserir os teus dados.
Tchac, tchac, tchac, tchac no teclado. Ok, feito. E agora qual é o teu número antigo? Tchac, tchac, tchac, tchac. E o número da tua conta? Tchac, tchac, tchac, tchac., tchac, tchac. Hmmmm... Tchac. Tchac. Clic. Clic. Clic clic, clic clic. Hmmmm... Podes repetir o número de telefone? Eu repito. Ele agradece-me pela informação. Tchac, tchac, tchac. Hmmm.... Diz aqui que já está um pedido de transferência em curso para esse número. Tens a certeza que este é o teu número? Nisto já passaram uns bons 30 mins e eu, cliente omnipotente, enervo-me qual Camerouniana em tensão pré-menstrual e disparo está a gozar comigo? Claro que está um pedido em curso, já lhe disse que eu fiz esse pedido ontem, só quero saber se está confirmado. Ah... vai ter que confirmar com o meu colega, não desligue.

Oiço o inconfundível Love me Tender, na versão de gaitas Peruanas.

Estou, sim? Obrigada por ligar para o serviço de apoio ao cliente da T-Mobile, contamos com mais de 5 milhões de clientes satisfeitos nos Estados Unidos e agradecemos desde já a confiança que depositou em nós, o meu nome é Dolores, em que posso ajudá-la hoje?


Irra!

Earl

Qual Portugal com os seus fogos de Verão, os Estados-Unidos sofrem com a "hurricane season". A meteorologia coloniza as notícias e as discussões entre Palestinianos e Israelitas em Washington e o plano de construção da mesquita ao lado do Ground Zero passam a nota de roda-pé.
Lá para Sul estão tábuas pregadas a janelas, auto-estradas a sentido único (para fora, para longe) com filas intermináveis de carros carregados de tralha, crianças e velhos, locutores da CNN ensopadinhos, agasalhados e encapuçados que nem pescadores de bacalhau na Noruega, berram agarrados com unhas e dentes a postes "como vêem os ventos já arrancaram aquela árvore ali e as casas ao longo daquele pontão já não têm telhado", e a sacana da espiral de água a rodar cada vez mais perto da costa. Vem aí o Earl. E nós num 15º andar cheio de vidros...

Adaptation

Para além das temperaturas infernais de Nova Iorque em Agosto, do litro de leite a $2, dos litros que são "ounces", dos metros que são "feet", dos kilos que são "pounds", da matemática da duplicação do IVA, do mês antes do dia, e do dia do trabalhor celebrado a 6 de Setembro, há as 6h de diferencia horária a que precisamos de nos adaptar. Hoje às 4h30 da manhã estive a um nico de ir lá abaixo ao ginásio correr um bocado no threadmill.