MADAGASCAR!

Bilhete comprado, sonho (quase quase) realizado.
De 10 a 25 de Agosto, eu, ele, duas mochilas (e vocês todos via blog) a trepar aos baobabs e a correr atrás de lemurs, em honra aquele grande filme de animação que já marcou a minha vida... adulta.



P.S: outro sonho realizado hoje - sou oficialmente jurista.

Eleições

Em Agosto há eleições presidenciais aqui no Afeganistão.
Tenho falado com os meus colegas por aqui e estou a perceber que ninguém se vai mexer para ir votar.

Ou porque nenhum candidato lhes agrada. São exigentes, bolas, porque há 41!

Ou porque até há um que nem lhes desagrada, mas não vale a pena irem votar porque esse de certeza que não vai ganhar.

Isto num país onde os jornalistas desembaínham microfones em frente ao porta-voz local da UNAMA (missão das Nações Unidas aqui no Afeganistão) e perguntam:

"Boa tarde! que candidato é que a UNAMA apoia?"

Poucos parecem perceber a dinâmica de uma eleição, o peso de um voto. Encaram a eleição como encaram a vida: insignificantes e mudos enquanto indivíduos; alienados sem o vínculo a um grupo forte.

Pela perspectiva dos candidatos a coisa também não é melhor. Não há mensagens nesta campanha presidencial; há símbolos. Não se debate; exibe-se.

Hamid Karzai, por exemplo, já indigitou uma equipa tão patchwork como o país (um de cada étnia e mais houvesse!), à custa nomeadamente de favores legislativos intrigantes como a inenarrável lei que obriga as mulheres casadas de uma certa étnia a terem relações sexuais com os maridos pelo menos 4 vezes por semana.

O Abdullah Abdullah, que é muito famoso aqui no Norte, só aparece em cartazes com o espectro do comandante Massoud, o mítico leão do Panshir que combateu tudo quanto é coisa e foi assassinada uns dias antes do 11 de Setembro) ou a apertar a mão ao Atta, o governador de Balkh (Mazar).

E cada candidato tem um símbolo para ser reconhecido sem equívocos, mesmo por quem não saiba ler. Vejam aqui a lista com as fotos e os símbolos de cada um.

Há o das lanternas, que "ilumina" o país. Há o da pomba e da balança - o Karzai - que grita paz e justiça (e impunidade para os corruptos e direito ao divórcio para as mulheres?). Há o dos presentes (jobs for the boys?). Há o do despertador - acordem gente! Há o dos estetoscópios, que se deve ter enganado na corrida. Há o das duas foices (morte ou comunismo?). Há o dos dois aviões e o dos três aviões (que obssessão). Há aquele que escolheu um foto em vez de um símbolo, e a foto é de uma pomba a andar num relvado - que eu pessoalmente acho um absoluto nojo. Há o inenarrável do cadeado - que não indica nada de bom - e o do machado, que tem cara de poucos amigos, com quem eu, pessoalmente, não me metia.

Mas os melhores símbolos, os mais perturbadores, os mais infelizes, nesta lista hilariante são os das duas candidatas mulheres:

Shahla Ata é uma águia tirada directamente do selo presidencial dos EUA a agarrar na bandeira Afegã. Um símbolo que tem tanto de agressivo como de subserviente.

Frozan Fana é uma maça, que inspira uma só palavra na minha mente: Eva

Enfim...

De volta - mais uma vez

E sempre um ligeiro périplo voltar ao Afeganistão. Ou porque tenho que dormir uma noite com as soldadas no Uzbequistão, ou porque tenho que dar a volta à península Árabe para cá chegar. Desta vez, foi a segunda situação.

Tudo começa com a partida de Lisboa para o aeroporto, de manhãzinha, recolhendo os post-its que deixo pela casa fora para me relembrar dos últimos items a pôr na mala:
"não esquecer escova de dentes"

"levar porco - frigorífico" (o sacro-santo presunto que me serve para refeições rápidas e me agrava a rentenção de água).

Mesmo com tanta viagem no corpo, a noite antes da partida é sempre de sono leve. Por isso lá vou cheia de olheiras, pelas quais escorrem sempre uma lágrimazitas quando entro pela porta de segurança de saquinho dos líquidos e cinto na mão e deixo para trás a minha mãe pela 50a vez.
Lisboa - Frankfurt.

Em Frankfurt é a odisseia para chegar até ao terminal B das partidas inter-continentais. Ando kilómetros, sem a ajuda motriz da passadeira que está - como sempre - avariada, ultrapassada pelos velhadas que têm direito a transporte no carrinho eléctrico. Jovem sofre de mochila pesada às costas com computador e uma muda de roupa - não vá a mala perder-se.

Passageira exemplar, ouço a chamada para a porta de embarque A61 para Dubai e dirijo-me para lá imediatamente com somente uma Marie Claire, um Courrier International e uma caixa de nozes de macadamia cobertas de chocolate de leite no saco do Duty Free.


Frankfurt sendo um hub para vôos de longo curso, vêem-se famílias a dormir nos bancos, putos exaustos a chorar desalmadamente e cabines de fumo para os fumadores que não aguentam - cubos envridaçados, com posters de publicidade gigantesca à Phillip Morris com o quadrado "Smoking kills" e autocolantes absolutamente hilariantes com um círculo com um boneco a fumar dois cigarros ao mesmo tempo e uma barra vermelha por cima - pelos vistos há quem assambarque a nicotina no sistema fumando dois cigarros em simultâneo... e isso é proibido.

Falta 1h para a partida. Sento-me e leio sobre as mulheres na Guatemala. Depois leio sobre o vôo da Yemenia que caiu. Depois leio sobre o Irão. Está tudo muito quieto à minha volta. Olho para o relógio: falta 10 min para a partida e reparo não está ninguém à minha volta na porta de embarque. Olé - o que é que se passa aqui? Pergunto à senhora da Lufthansa, que me diz que a porta de embarque mudou - não ouviu? não, e também não ouvi nenhuma chamada com o meu nome! Então corra lá para cima, porta A27 pode ser que tenha sorte.


Lá vou eu a arfar escada acima, com a mochila às costas trum trum trum saiam-me da frente! Chego à porta A27 e vejo um maralhal de jovens ocidentais que vão de férias para o Dubai não sei porquê (com tanto país no mundo...), de famílias Dubaianas de óculos de sol Gianni Versace, véu da Chanel na cabeça mas de T-shirt justa e mangas curtinhas, que é uma combinação que nunca percebi.


Afinal não há crise, o vôo está atrasado 2h. Havia um problema técnico no avião e tiveram que mudar tudo para outro avião. Meia descansada, meia amedrontada sento-me à espera. Embarcamos finalmente - seis horas e meia de vôo. A minha frente vai uma família de Afegãos-Alemães. Falam P
ashtu, devem ser do Sul. A mãe a tentar acalmar os 4 filhos. O pai vai para a fila de trás e fecha os olhos a descansar - não é nada com ele. Quando a mulher se vira para trás para mandar vir com ele, ele enxota-a literalmente - qual Obama com a mosca - batendo-lhe de rojo na cara e torna a adormecer. Fúria, indignação, nojo. Que gente esta.

Chegados a Dubai, corro a ultrapassar o máximo de gente possível para chegar à fila da fronteira sem muita espera. No hall da fronteira, felizmente, estão dezenas de guichets abertos, as filas não são grandes. A m
inha volta estão os oficiais de fronteira - verdadeiros "sheiks", altos, altivos, de jellabia branca imaculada, rígida com goma, e véu branco segurado por um aro preto na cabeça. Nas outras filas estão Chineses, Filipinos, Indianos. Filas e filas de homens - vêm para trabalhos temporários, deixam as famílias para trás e mandam-lhes dinheiro ao fim do mês. Não sabem Árabe. Não sabem Inglês. Têm-se uns aos outros somente. Os cidadãos dos Emirados Arabes Unidos recebem uma “mesada” do estado para viver; os “sheikhs” são oficiais ou homens de negócios, ponto. Os outros trabalhos são para outras gentes.

Já escaldada por experiências anteriores e sem paciência para aventuras, pedi ao hotel que mandasse alguém para me buscar ao aeroporto. Lá estava o senhor, diligente, de placa na mão que até se lembra de mim. Saimos para a rua e sinto o absurdo que é aquele país – 42 graus (às 2h da manhã) e uma humidade de 200%. Ninguém aguenta tal clima de maneira natural. Talvez por isso haja ar condicionado até em espaços semi-abertos. Talvez por isso não haja passeios nem ruas no Dubai. Há auto-estradas, porque ninguém anda a pé. Hotel – finalmente posso dormir 4h.

No dia seguinte, tenho que apanhar o voo das Nações Unidas para Kabul. Como sempre, apanho um táxi até ao inenarrável Terminal 2, de onde partem voos de companhias dúbias para Bagdad, Meshad, Teerão… O Terminal 2 dá sempre o ligeiro desconforto de se estar a viajar para sítios menos recomendáveis, em aviões não dignos de Terminal 1. Vejo anunciado um voo para Kabul com uma companhia aérea Afegã. Não é o meu! Onde está o voo das Nações Unidas? Ah esse voo agora parte do Terminal 1, não sabia? Obviamente, não.

Apanho um táxi para o Terminal 1, mais meia hora de caminho em auto-estrada à volta do mega-aeroporto, meia irritada com tanta confusão, meia contente por termos sido admitidos ao Terminal 1. No check in está uma fila de estrangeiros, meios entediados, mas prontos a voltar ao serviço. E gente de Kabul, todos se conhecem. Não a mim, desterrada a Norte do Hindu Kush. Para alimentar a sensação de upgrade, o nosso balcão check-in é ao lado do check in para Paris CDG e tudo! Os Franceses que passam por nós e vêem o nosso destino no televisor do balcão olham para nós perplexos. E nós devolvemos o olhar – podemos ir para Kabul, mas vocês estão a embarcar num avião da Air France, não é muito melhor.

O check in está fechado. Esperamos, esperamos - nada. O senhor da ONU aparece finalmente a dizer: todos os voos de Kabul estão em terra sem autorização para levantar, por isso temos que esperar porque o vosso avião é o que vem de Kabul. Mas sabe porquê? Houve algum incidente? Não, não sei porquê.

Pensativos, reflectindo na ofensiva Americana em curso em Helmand, sentamo-nos outra vez à espera, não sabendo se, na verdade, queremos ou não que o avião chegue. Duas horas mais tarde o senhor anuncia que o avião levantou de Kabul e vem a caminho. Ok, seja o que deus quiser.

4h depois aterramos em Kabul. A saída do avião está um senhor a perguntar “European Union?” e eu digo que sim, sem perceber a razão da separação de cidadãos europeus, e o senhor lá me encaminha para o primeiro autocarro. Lá dentro o senhor anuncia que vamos receber já um briefing de segurança. Briefing de segurança? Mas que é isto? Será que aconteceu realmente alguma coisa e estamos a ser evacuados para um sítio seguro? Mas então porque é que nos deixaram levantar de Dubai? O senhor começa então a distribuir telemóveis. Mas que raio, o que é que se passa aqui? Para que é que eu quero um telemóvel? Vendo a minha cara cada vez mais confusa, uma senhora aponta para mim e diz – olhe que esta senhora não é do nosso grupo! Percebo então que me meti numa delegação da União Europeia. Saio do autocarro e entro no que está atrás, onde estão as pessoas que não estão só de passagem.

Tum – outro carimbo no meu passaporto, saio para fora do terminal. Oláaa, onde é que eu estou? O aeroporto de Kabul parece estar numa constante mutação. Nunca, mas nunca chego ao mesmo sítio. E, claro está, não encontro ninguém da GTZ à minha espera. Como nunca sei se eles têm acesso a todas as partes do aeroporto, pego no malão e arrasto-o 500 m até ao outro terminal. Não está lá ninguém da GTZ. Estão no entanto dezenas de Afegãos a olhar para mim, meios espantados, meios no gozo. Telefono para a GTZ. Não saia daí, mandamos já um carro! Pensávamos que tinha perdido o avião. Olha que esta!

Meia hora mais tarde aparece o carro da GTZ. Finalmente vou para o hotel. Não sei porque que raz-me-parta escolhi ficar neste hotel desta vez. E horrível. O quarto não tem janela, a casa de banho pinga do tecto e o poliban está partido. Exausta, não quero saber, deito-me na cama de colchão duro como cornos de touro e tento a custo adormecer. Hoje de manhã mudei-me para outro hotel. Mais acolhedor, mais seguro, com comida boa e um polibam inteirinho e branquinho.

E escrevi este post.











No outro dia disseram-me que o me Português não está emigrantado. Fiquei contente. Então quero deixar aqui uma lista de palavras Portuguesas de que nunca me quero esquecer, acaso um dia suceda mesmo a emigrantação linguística que temo:

- xiça
- chichinha
- apre
- ólarilas
- larilas
- maçarico
- (ó) chouriço
- camandro
- incólme
- (fazer um) cafuné
- assanhado/a
- axandra-te
- gatuno

As jóias do Castelo

Ando à procura de casa - casa... é como quem diz poiso, estação, base, pied-à-terre - aqui em Lisboa. Um dos sítios de que mais gosto, do alto do luxo de quem só está em Lisboa de férias, é a Costa do Castelo. Então tenho andado por là de nariz para o ar à coca do ocasional placard "VENDE-SE" num qualquer andar alto com potencial vista para o rio. Nestas primeiras semanas de Junho, o Castelo está no alvoroço da preparação para os Santos Populares - evento de que tenho tantas memórias boas, embora deteste o sabor e o cheiro da sardinha (à sempre a bifana...).

Andando-se pela Costa do Castelo a horas variadas do dia, vêm-se uma data de jóias. No outro dia, de tarde, estaciono o carro em frente ao Terraço, assim meio em cima do passeio. Aproxima-se então um senhor já entradote, com ar responsável mas não ostentando no entanto nenhum crachá da EMEL a dizer: olhe menina, se quizer esperar mais uns dez minutos pode estacionar ali à frente onde está aquele cinzento, que ele costuma sair as 4. E vendo a minha cara de espanto face ao detalhe da informação, diz o senhor com tom esclarecedor: eu sou o senhor Diogo. Ah tá bem, assim já percebo.

Numa noite, jantei na tasquinha do largo do Castelo. Estavam lá a pendurar fitas (guirlandes), réplicas de manjericos e imagens a dizer "Santa + do Castelo". O rapaz da tasca tinha lá o pai e uns amigos a ajudar. Aquilo não estava a correr nada bem, porque mal o rapaz foi a outro lado qualquer buscar mais decorações, o pai sentou-se numa cadeira e abriu uma jola, os amigos desceram para a frente de um prédio e começaram a conversar com uma senhora (ou senhor?) que entretanto apareceu à janela, à cerca de que bairro ia ganhar a marcha este ano. Uma das amigas - assim cheiinha, com um rolito de chincha roliça à volta da cintura - sentou-se em frente ao pai do rapaz e liga do telemovel para outra amiga: "oh Carla, amanhã queres ir tomar café com a Tânia ou jantar com a Andreia?". A rir-me para mim, olho para o menu que vinha em Português, Espanhol, Inglês e Francês: a Febra à Chefe era "meat of pig to the head".

Por acaso gostava de me poisar num sítio onde há movimento para pendurar guirlandes, onde pais preguiçosos se esquivam ao trabalho assim que filhos viram as costas, onde Carlas, Tânias e Andreias combinam programas, onde ser-se o senhor Diogo é evidente, onde se fala da rua para a janela, onde não sou a única que tem chinchinha à volta da barriguinha, e onde ainda há quem me trate por "menina".

Uma pausa na pausa por falta de andamento

O que está dito pela Rititi é o meu maior medo.

O meu medo não é de não ser promovida, porque no contexto em que trabalho as coisas são tão precárias que o conceito de promoção não é linearmente definido seguindo horários e produção semanal. O meu grande medo é de não conseguir arranjar um trabalho meu, um trabalho para o qual me preparei anos e anos. E o medo de me tornar pária por perder o "andamento".

Andamento é ser-se móvel em permanência e ser-se competitiva à escala mundial, acumular-se as experiencias cada vez mais corajosas ou mais loucas. Porque quem fez Kosovo acaba por fazer Sudão. Quem fez Sudão, vai parar ao Afeganistão, a partir daí o Iraque e o Congo já é só um passito... Por um lado, sem conhecimento de terreno não se serve para Genebra ou Nova Iorque, por outro lado, com excesso de terreno adquire-se o selo de "pied sale" (imagem auto-derisoire de quem anda de chinelo por terriolas poeirentas africanas ou de botas enlameadas pelas montanhas Afegãs) - o que também não é adequado para Genebra ou Nova Iorque. De maneira que se salta de um sítio para o outro na busca incansável ou utopica de um qualquer equilíbrio. Chegando-se aos 40 anos, o equilibrio que se encontrou é a incapacidade de se ser fiel... quer a sítios, quer a pessoas.

Por isso nesta vida, amancebar-se, (pior ainda) casar-se ou (ai jesus credo) parir é pura e simplesmente o fim da picada. Tem-se emergency sex, não se tem relações. Prova é que, há uns tempos, o Comité Internacional da Cruz Vermelha recusava candidaturas de pessoas casadas porque exigia uma dedicação incondicional à missão (como se o casamento fosse mais distracção que a falta dele).

Então tenho o mesmo sentimento ambivalente que ela tem: não quero chegar aos 40 anos encontrando o equilíbrio da infidelidade, mas também não quero ser excluída do andamento. O problema é que ninguém facilita missões para casais. Casais que vão juntos pelo mundo fora até existem, mas abdicaram de fazer o que queriam fazer, fazem aquilo que aparece porque ninguém investe em quem tem pouco andamento.

A grande batalha da minha vida será poder viver com o marido sem andar de rojo atrás dele, a fazer biscates aqui e ali e a tirar cursos como quem tira fotocópias sob desculpa de solidificar um currículo na denegação da possibilidade cada vez mais certa que este só se desenvolva pela aleatória lógica do acaso... Porque perdi o andamento.
Este blog está em período de estudo intenso até 26 de Maio