Regressão

Lembro-me que um dos maiores marcos da minha passagem à idade adulta foi ter de marcar eu própria consultas no dentista. Antes, ia por pressão materna: A mãe marcava a consulta, a mãe enfiava-me no carro e a mãe arrastava-me para o consultório. Quando me mudei para Paris, tive que o fazer voluntariamente. Fi-lo graças a uma força sobre-humana pouco aquém - estou certa - da que me permitirá um dia expulsar 50 cm de criança útero a baixo. O Dr. Chan do centro médico da rue Vaugirard elevou-se ao estatuto de herói quando me arrancou três dentes do cizo com uma mera anestesia local 24h após a qual estava fina - pá isto não dói nada. Depois começou a vida caótica, com mudanças de três em três meses e residências em sítios onde por razões médicas era desaconselhado pensar a ir a um dentista, e cobertura médica por seguro privado que não reembolsava consultas de rotina. E regredi à infância. Não pus o dente num dentista , salvo seja, durante anos. Agora estou aqui em Berlim, tenho uma segurança social normal, mas a força sobre-humana não voltou e aqui não há Dr. Chan, de maneira que fui ao dentista arrastada pelo H. A razão oficial é a de evitar perder-me em translação com o Dr. Heinz (ou sei-là como é que o homem se chama), mas a verdade é que em vez de pressão materna, funciono agora com pressão matrimonial.

A questão é: qual o melhor estilo

Assim acho um bocado de mais, não?
Assim é melhor...
Não, non, nein, nope, nem pensar

Este não é mau, mas não vejo muita diferença em relação ao Al-Amira.
Ou assim mais inovativo, estilo J-Lo/vendedora de peixe?

9 de Maio já lá vai!

Em total sintonia com uma tal alfacinha, também eu me sentei numa mesinha ridicula, numa sala do estádio do Arsenal em Londres, com as minhas canetas, uma garrafa de água, e um desesperadamente pequeno livro de leis que se fosse maior não me teria obrigado a decorar mais de cem nomes de casos (Doyle v Olby - recovery of loss flowing from the whole transaction in fraudulent misrepresentation; Ex p Coughlan - legitimate expectation arising from promise; Hunter v Canary Wharf - proprietary interest in land required for standing in private nuisance claim...)

Sobrevivi tort law, contract law e constitutional law - que, num país sem constituição escrita, é de uma pessoa se deitar para o chão a rir. Resolvi 9 casos, com um total de 44 partes a quem aconteceu o diabo a quatro: um ginásio comprado com base em informação fraudulenta, uma cantora de ópera que insistia em incomdar os vizinhos à noite, uma senhora que prometeu vender um fato a outra senhora e entretanto o vendeu a uma terceira senhora, um Afegão detido e interrogado violentamente numa base militar Inglesa...

E por falar em Afeganistão: estamos de partida para lá no fim de Junho. A vida continua!
Com seis kilos ganhos desde que fui para Cartum - disse o treinador: ganhaste peso em Africa?? - e os diabetes a correr nos genes, tomei as coisas em mão e inscrevi-me no fitness club. Todas as manhãs vou para lá levantar pesos com as pernas, deitada de barriga para baixo, levantar pesos com as pernas sentada, levantar pesos com os braços, levantar pesos com a barriga, fazer abdominais de lado e depois correr num alucinante tapete rolante durante meia hora a ouvir Shakira e Kylie Minogue. Cada pingo de suor é como uma lágrima de felicidade.
O que me aconteceu?

Mais uma razão para gostar do direito Inglês:

London Borough of Wandsworth v Railtrack plc: o tribunal considerou pombos um distúrbio público!
Não sou portanto a única.

Penitência

Do fundo da minha ignorância de emigra, tentei perceber porque é que os professores estão tão revoltados em Portugal. O que os leva a fazer horas de viagem num autocarro alugado pela FENPROF, de todos os cantos de Portugal até Lisboa, vestidos de negro. Qual a razão do luto?

A crise, percebi, já fermenta há vários meses e é, sem dúvida, inaceitável que não tenha acompanhado a coisa desde o início. Mas o mundo é grande, há muitos problemas e estou longe, de maneira que a actualidade Portuguesa não é sempre uma prioridade. Mereço, sem dúvida, uma severa penitência.

A minha penitência acabou por ser, imagine-se, a tentativa de perceber a questão. O Público falou dos milhares esperados em Lisboa, das visitas da PSP às escolas para investigar identidades de potenciais manifestantes, e da oposição às reformas da Ministra. Mas que reformas?
No website da FENPROF li indignação em relação às visitas da PSP às escolas e revolta em relação às reformas da Ministra. Mas que reformas?
Fui então ao website do Bloco de Esquerda. Aí li uma condenação das visitas da PSP às escolas e uma censura das reformas da Ministra. Mas que reformas, caramba!?
Pensei bom vou tentar ver o telejornal da RTP. Faço o download do video do Jornal da Noite de 6a feira. Depois da trágica história da pequena Mari Luz, veio finalmente a reportagem sobre a tão esperada maior manif de professores da história e o que vi deu-me vontade de chorar:
1o: as dificuldades de estacionamento em Lisboa, durante a manif, ilustradas pelo repórter no seu carro - "amanhã vai ser difícil estacionar aqui".
2o: o curso exacto da manif, com mapa interactivo e tudo... a que minuto saiem do Terreiro do Paço, que vai à frente, que vai atràs etc.
3o: as preparações de viagem de uma professora do Minho: dois chouriços, três carcaças, um pão caseiro e um pão da avó pede ela, se faz favor, à padeira da estação de serviço.

E pronto.
Sei que é fácil criticar quando se está longe e, desde sempre, tentei resistir à tentação de achar que Portugal é um país provinciano e que o estrangeiro é que é bom. Mas nestas circunstàncias é difícil não sentir alívio por ter saído do país e visto outras coisas pelo mundo fora. E difícil não me sentir deprimida ao pensar na atmosfera em que vivem os Portugueses. E difícil não achar que Portugal está em estagnação intelectual. Estou deprimida por causa dos factos e estou deprimida por ter esta opinião.

Agradeço a quem me explique, objectivamente, porque é que os professores estão revoltados. E entretanto, para manter uma mente sã, vou relembrando o Gato Fedorento: