Chegou a estacao das chuvas. Os caes irrequietos nas ruas, ladram a sua inquietude, que a noite esta mais escura do que e habito. Ha flashes de luz aqui e ali, mas nem sinal de trovoes. Depois vem o vento, com um cheiro diferente: po molhado em vez de po seco. E depois o diluvio, com flashes de luz e trovoes de repente simultaneos, e os caes a ladrar incessantemente. Um barulho ensurdecedor. Pensei booolas!... ainda bem que nao estou em casa sozinha hoje.
Mas a minha casa tem paredes com meio metro de espessura e um telhado de betao. A dez kilometros daqui e o deserto, onde vivem milhares de deslocados entre paredes de terra ou de palha, debaixo de oleados brancos da ONU, que amanha terao provavelmente que reconstruir.
Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Falta-me
Vir de Hotel de Ville e chegar ao rio. Continuar pelos quais e atravessar para o outro lado para chegar a Place Dauphine. Ver o tribunal e pensar um dia vou ser advogada.

Com sorte é Outouno e as árvores são douradas.
Entrar a Norte, sair a Oeste para o Pont Neuf. Neuf, novo ou neuf nove? Um dia, um estranho abriu um caderninho e mostrou-me um poema ali. E depois foi-se embora.
Passar para o outro lado e continuar pelo cais para Oeste. Ver a Academie e subir para a ponte outra vez.

Pont des Arts. Le juge pénitent. La chute. Camus.
E se for de noite, entrar pelo arco do Louvre a dentro, espreitar as esculturas gratuitas pelo vidro e faltar-me o ar quando aparece o átrio, alaranjado da noite e das luzes, com a estranha pirâmide ali.
Falta-me tanto.
18m2 com paredes côr de rosa, prateleiras dentro da parede com espaço para a lista telefónica no chão, mesa de madeira não tratada encostada à parede por ter tripé e não quadrapé. Sentadaàs escuras meia dentro meia fora da varandinha sur cour. Olhar para baixo para o telhado do cinema Champô e ouvir o som abafado de Godard: ao menos é de graça, por isso se me vier o sono não faz mal. Fechar os olhos e adromecer levemente até ouvir ecoar do outro lado da cour, terceiro andar, para este lado da cour, segundo andar por cima de mim:
J'aime bien ta chemise.
É muito difícil descrever a falta que me faz eu-em-Paris. Mesmo que não seja em Paris.

Com sorte é Outouno e as árvores são douradas.
Entrar a Norte, sair a Oeste para o Pont Neuf. Neuf, novo ou neuf nove? Um dia, um estranho abriu um caderninho e mostrou-me um poema ali. E depois foi-se embora.
Passar para o outro lado e continuar pelo cais para Oeste. Ver a Academie e subir para a ponte outra vez.

Pont des Arts. Le juge pénitent. La chute. Camus.
E se for de noite, entrar pelo arco do Louvre a dentro, espreitar as esculturas gratuitas pelo vidro e faltar-me o ar quando aparece o átrio, alaranjado da noite e das luzes, com a estranha pirâmide ali.
Falta-me tanto.
18m2 com paredes côr de rosa, prateleiras dentro da parede com espaço para a lista telefónica no chão, mesa de madeira não tratada encostada à parede por ter tripé e não quadrapé. Sentadaàs escuras meia dentro meia fora da varandinha sur cour. Olhar para baixo para o telhado do cinema Champô e ouvir o som abafado de Godard: ao menos é de graça, por isso se me vier o sono não faz mal. Fechar os olhos e adromecer levemente até ouvir ecoar do outro lado da cour, terceiro andar, para este lado da cour, segundo andar por cima de mim:
J'aime bien ta chemise.
É muito difícil descrever a falta que me faz eu-em-Paris. Mesmo que não seja em Paris.
Kafka e as missoes das Nacoes Unidas
Ter ar condicionado instalado, mas nao ter gerador com potencia suficiente para o manter aceso
Ter um carro equipado com radio-comunicacao, mas nao ter antena com alcance suficiente para receber e transmitir
Ter um telefone satelite para emergencias, mas ter que jogar a raspadinha com cartoes de recarregamentos porque a ONU nao nos deixa ter uma conta telefonica aberta
Receber uma maquina de fotocopias, mas sem o toner que possibilita a copia
Ter um plano de evacuacao, mas nao ter autorizacao para conduzir um carro
Fazer um bife, mas nao ter facas para cortar
Ter um projecto que ainda nao se comecou, mas ter de se escrever 10 paginas de estrategia para 2008.
Ter um carro equipado com radio-comunicacao, mas nao ter antena com alcance suficiente para receber e transmitir
Ter um telefone satelite para emergencias, mas ter que jogar a raspadinha com cartoes de recarregamentos porque a ONU nao nos deixa ter uma conta telefonica aberta
Receber uma maquina de fotocopias, mas sem o toner que possibilita a copia
Ter um plano de evacuacao, mas nao ter autorizacao para conduzir um carro
Fazer um bife, mas nao ter facas para cortar
Ter um projecto que ainda nao se comecou, mas ter de se escrever 10 paginas de estrategia para 2008.
A Festa
O Principe fez trinta e tal anos (acho que sao 32 nao e?) na semana passada, vai dai mega festa amanha num 5to andar com chao de madeira, coitados dos vizinhos. Temos garrafas de gin e vodka alinhadas na cozinha, o figorifico cheio de garrafas de vinho branco, mais um caixote cheio delas no chao, gelo a fazer no congelador e uma banheira que, diz ele, amanha vai estar cheia de agua fria, gelo e garrafas de cerveja. Nao me perguntem nada, este uso da banheira parece ser practica comum nesta terra. Desgracada de mim vou tentar sobreviver a mais uma experiencia biologica de (nao)tolerancia ao alcool apos meio ano de Darfur. Tentar sobreviver com dignidade, claro. Sem dancar em cima de mesas (mas quem resiste a Kylie Minogue com pes no chao? Can't get you out of my head...), sem me por a falar Alemao (mas se nao for assim, quando e que comeco a falar de vez?) e sem indisposicoes do alto da varanda a aterrarem na copa das arvores do patio (mas com a banheira a fazer de frigorifico na unica casa de banho disponivel, what to do??).
A serio, eu, nesta historia, deveria mesmo ser mais bolos... com velinhas coloridas, copo de coca-cola, chapeu de papel pontiagudo e apito daqueles que se desenrolam e tudo.
A serio, eu, nesta historia, deveria mesmo ser mais bolos... com velinhas coloridas, copo de coca-cola, chapeu de papel pontiagudo e apito daqueles que se desenrolam e tudo.
Direito humano a um enorme prato de Maki
Maki e bom. Arroz pegajoso com atum ou salmao e abacate, enrolado numa folha de alga que parece o revestimento de um pneu e que sabe... Tao bem!O novo restaurante ali da esquina, aqui em Berlim, tem Makis em promocao a 1.50€ cada rolo (8 makis). Uma dose normal para um humano com fome sao 12 makis. Ontem a noite encomendei 24. Comi 20 e deixei o Principe comer 4 do meu prato. Porque sou simpatica e apesar de tudo ele e meu marido.
MAKI. E o que Princess Fifi reinvidica durante o seu periodo de "Rest and Recuperation" em Berlim.
Streck!
A falta que faz uma equipa de jeito! Estou aqui practicamente sozinha no escritorio com trinta mil coisas importantes a acontecerem ao mesmo tempo, o caso do incidente de Janeiro em tribunal outra vez, e a minha nova chefe a pedir-me tretas de orcamentos para mesas de cabeceira e maquinas de lavar, quando ja lhe disse que nao temos dinheiro e mesmo que tivessemos... Porque eu?
O raio da mulher quer combater a burocracia da ONU com mais burocracia e poe-se a mandar rajadas de emails para a Logistica em Cartum, incluindo a noite e aos fins de semana, a dizer que o que eles fazem nao esta correcto porque e preciso fazer assim e assado e que se fizessem assim e assado nada disto acontecia. Minha nossa senhora da Azoia! Ja lhe disse olha que qualquer dia eles ja nem leem os teus emails nem atendem os teus telefonemas e vais ter de ir fisicamente a Cartum para conseguir comprar tinta para a impressora.
O raio da mulher quer combater a burocracia da ONU com mais burocracia e poe-se a mandar rajadas de emails para a Logistica em Cartum, incluindo a noite e aos fins de semana, a dizer que o que eles fazem nao esta correcto porque e preciso fazer assim e assado e que se fizessem assim e assado nada disto acontecia. Minha nossa senhora da Azoia! Ja lhe disse olha que qualquer dia eles ja nem leem os teus emails nem atendem os teus telefonemas e vais ter de ir fisicamente a Cartum para conseguir comprar tinta para a impressora.
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