Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
O que me aconteceu?
Mais uma razão para gostar do direito Inglês:
Não sou portanto a única.
Penitência
A crise, percebi, já fermenta há vários meses e é, sem dúvida, inaceitável que não tenha acompanhado a coisa desde o início. Mas o mundo é grande, há muitos problemas e estou longe, de maneira que a actualidade Portuguesa não é sempre uma prioridade. Mereço, sem dúvida, uma severa penitência.
A minha penitência acabou por ser, imagine-se, a tentativa de perceber a questão. O Público falou dos milhares esperados em Lisboa, das visitas da PSP às escolas para investigar identidades de potenciais manifestantes, e da oposição às reformas da Ministra. Mas que reformas?
No website da FENPROF li indignação em relação às visitas da PSP às escolas e revolta em relação às reformas da Ministra. Mas que reformas?
Fui então ao website do Bloco de Esquerda. Aí li uma condenação das visitas da PSP às escolas e uma censura das reformas da Ministra. Mas que reformas, caramba!?
Pensei bom vou tentar ver o telejornal da RTP. Faço o download do video do Jornal da Noite de 6a feira. Depois da trágica história da pequena Mari Luz, veio finalmente a reportagem sobre a tão esperada maior manif de professores da história e o que vi deu-me vontade de chorar:
1o: as dificuldades de estacionamento em Lisboa, durante a manif, ilustradas pelo repórter no seu carro - "amanhã vai ser difícil estacionar aqui".
2o: o curso exacto da manif, com mapa interactivo e tudo... a que minuto saiem do Terreiro do Paço, que vai à frente, que vai atràs etc.
3o: as preparações de viagem de uma professora do Minho: dois chouriços, três carcaças, um pão caseiro e um pão da avó pede ela, se faz favor, à padeira da estação de serviço.
E pronto.
Sei que é fácil criticar quando se está longe e, desde sempre, tentei resistir à tentação de achar que Portugal é um país provinciano e que o estrangeiro é que é bom. Mas nestas circunstàncias é difícil não sentir alívio por ter saído do país e visto outras coisas pelo mundo fora. E difícil não me sentir deprimida ao pensar na atmosfera em que vivem os Portugueses. E difícil não achar que Portugal está em estagnação intelectual. Estou deprimida por causa dos factos e estou deprimida por ter esta opinião.
Agradeço a quem me explique, objectivamente, porque é que os professores estão revoltados. E entretanto, para manter uma mente sã, vou relembrando o Gato Fedorento:
Sudão em Berlim
Emmanuel Jal fugiu do Sul do Sudão para um campo de refugiados na Etiopia, algures nos anos 80. O exército de libertação do sul do Sudão andava a recrutar soldados no campo e Emmanuel Jal, porta-voz das crianças do campo já carismático aos 8 ou 9 anos, filmado por conicidência por um jornalista que por là andava, tornou-se criança-soldado. Treinaram-no e deram-lhe uma AK47 maior e mais pesada que ele e mandaram-no de volta para o Sudão para lutar contra as forças de Cartum, juntamente com outras crianças. Ao fim de algum tempo o grupo de crianças-soldados decidiu fugir e caminhou durante meses pelo Sudão, resistindo à tentação de comer camaradas mortos de cansaço e fome e comendo, ao invés, abutres que se aproximavam, sentindo o cheiro de carne humana (quase) morta. O grupo de "lost boys" foi encontrado por Emma McCune, uma humanitária tornada segunda mulher de comandante rebelde, Riek Machar - hoje vice-presidente do Sul Sudão. Emma escolheu Emmanuel, num gesto de selectividade que hoje em dia não seria possível de todo (se cada humanitário fizesse o mesmo...), e levou-o clandestinamente para Nairobi, num vôo das Nações Unidas. Emmanuel viveu com Emma e Riek Machar até à morte de Emma num acidente de carro suspeito, após o qual foi posto na rua pelo não tão generoso Riek. Graças a redes de apoio nos bairros de lata de Nairobi, Emmanuel foi escolarizado e é hoje um famoso cantor de hip-hop, que dá a volta ao mundo com uma mensagem de paz em Inglês, em Nuer e em Arabe. Há quem diga que para saber o que será o Darfur daqui a 30 anos, basta olhar para o Sul do Sudão.
War Child, o filme sobre a vida de Emmanuel, foi apresentado na Berlinale aqui em Berlim e nós fomos ver.
E sim, tenho saudades do Sudão.
O nosso dia dos namorados

Ontem, como era dia dos namorados, fomos jantar ali ao Amuse Gueule.
Nisto entra um senhor com um leitor de cassettes e um clarinete e pergunta à empregada, em Alemao, se pode tocar uma musiquinha para alegrar a malta. Carrega no play e sai uma especie de ruído de hard rock Alemao que nao lembra ao menino jesus impôr a ninguém, mas que, terao quissá dito ao senhor, que era o que tava a dar na Alemanha. O senhor continua, nao obstante, a performance, tocando umas notitas no clarinete por cima da cassette. Tudo a olhar... oh meu deus quem é este personagem? E, quando nada mais poderia piorar o espectaculo, dá um ataque de constipacao ao senhor e, entre cada sopradela no clarinete, sai um tossicar fazendo, portanto, com que se oica o rolar da expecturacao em fundo de hard rock Alemao e nao mais o clarinete que era a unica coisa que salvava a situacao. Aí foi mesmo demais, e a empregada diz-lhe para ele parar, que era suposto ser só uma música. Vai ele e implora outra oportunidade, desta vez sem a cassette, que sem a cassette conta como uma música. Ela - neiiineuh neiiineuh. Ele reconhecendo que ela é Francesa: une chanson, une chanson. One song, one song. Nao fosse o Francês dela estar enferrujado. E, sem mais ouvir, desata a cantar em Romeno, tentando ao mesmo tempo dar umas notas no clarinete para acompanhar. Ao fim de algum tempo, conclui que nao dá para multitascar com voz e clarinete e ainda por cima, com a tosse a ameacar, é complicado. E nisto pára e desata a falar encavacado, em Romeno, que é um bocado difícil aquela tarefa. Pelo menos é o que suspeito eu, dado que nao sei Romeno e que se calhar aquilo era Búlgaro.
Foi uma verdadeira perdicao em translacao.