Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Arca de Noe
Nyala e neste momento a Arca de Noe do mundo humanitario. Foi-se tudo embora e ficou um de cada raca, ou antes, de cada organizacao. So aqui no PNUD e que ficamos duas. Mas temos genes raros e preciosos, como tal necessarios para a repopulacao do Mundo apos o diluvio.
Envelopes e pacotes
São bemvindos, espcialmente se contêm:
- Porco (em qualquer forma e feitio)
- Café de máquina (Lavazza, the best)
- Jornais e revistas
- Mais revistas, incluindo: Cosmopolitan, Marie Claire, Vogue, Caras, Hola e Raggazza se ainda existir
- DVDs (falta-me: "Alias" Series 3 e 5, "Friends" series 1 a 4, Desperate Housewives serie 2, "Serviço de urgencias" qualquer serie. Gostava de ter: aquela serie de DVDs sobre o 25 de Abril)
- livros, sobretudo sobre o seguinte: Ruanda, Sierra Leoa, Liberia, Angola, quaisquer reportagens de guerra, livros de viagem, biografias
- Uma corda para saltar à corda
- molhos para massa
- queijo Parmesão
- queijo Manchego
Também gostava muito, mas não pode ser, de uma garrafa de Gin tónico.
- Porco (em qualquer forma e feitio)
- Café de máquina (Lavazza, the best)
- Jornais e revistas
- Mais revistas, incluindo: Cosmopolitan, Marie Claire, Vogue, Caras, Hola e Raggazza se ainda existir
- DVDs (falta-me: "Alias" Series 3 e 5, "Friends" series 1 a 4, Desperate Housewives serie 2, "Serviço de urgencias" qualquer serie. Gostava de ter: aquela serie de DVDs sobre o 25 de Abril)
- livros, sobretudo sobre o seguinte: Ruanda, Sierra Leoa, Liberia, Angola, quaisquer reportagens de guerra, livros de viagem, biografias
- Uma corda para saltar à corda
- molhos para massa
- queijo Parmesão
- queijo Manchego
Também gostava muito, mas não pode ser, de uma garrafa de Gin tónico.
Querida irma:
Esperando desesperadamente que seja femea, aqui vao algumas sugestoes de nomes...
... Normais:
- Leonor
- Beatriz
- Ines
... Originais:
- Pilar
- Miriam
- Ester
- Benedita
- Anita
- Fabiola
- Matilde
... Inter-culturais:
- Leila ("nascida a noite" em Arabe)
- Yasmine ("jasmin" em Arabe)
- Intisar ("triunfo" em Arabe)
- Ashanti (nome afro-africano tambem usado na Indonesia)
- Imani ("fe" em Swahili)
... Famosos:
- Indira
- Sissi
... Divinos:
- Filipa
E porque eu sou casada e hei-de ser mae de filhas, estao proibidos os seguintes nomes:
Tessa, Cecilia, Clara, Vitoria, Mafalda, Ema, Chloe, Lea, Zoe.
PARABENS!
... Normais:
- Leonor
- Beatriz
- Ines
... Originais:
- Pilar
- Miriam
- Ester
- Benedita
- Anita
- Fabiola
- Matilde
... Inter-culturais:
- Leila ("nascida a noite" em Arabe)
- Yasmine ("jasmin" em Arabe)
- Intisar ("triunfo" em Arabe)
- Ashanti (nome afro-africano tambem usado na Indonesia)
- Imani ("fe" em Swahili)
... Famosos:
- Indira
- Sissi
... Divinos:
- Filipa
E porque eu sou casada e hei-de ser mae de filhas, estao proibidos os seguintes nomes:
Tessa, Cecilia, Clara, Vitoria, Mafalda, Ema, Chloe, Lea, Zoe.
PARABENS!
Evacuacao
De volta da Europa...
Mal entrei no aviao de Cartum para Nyala vi logo que havia molho a seria no Darfur.
O aviao costuma fazer Nyala (Darfur-Sul) - Geneina (Darfur-Oeste) - Fasher (Darfur-Norte), mas os dois passageiros para Fasher tiveram que desembarcar antes de descolarmos porque "dadas as circunstancias, o aviao nao vai aterrar em Fasher".
Circunstancias? Que circunstancias?
Milicias Arabes atacaram Fasher. Coisa inedita dado que Fasher e uma cidade grande. Os rebeldes do SLA-M defenderam-se e morreu gente no meio do mercado. Depois do ataque, as milicias posicionaram-se a volta da cidade, com o SLA-M e o exercito regular a fazer um cordao de "seguranca". Sim porque apesar de tudo, o SLA-M e o governo sao supostos estar no mesmo lado dado que os dois assinaram o Acordo de Paz do Darfur em Maio passado...
Hoje, as milicias tornaram a atacar o mercado. Alguem naquele cordao de "seguranca" esta a abrir as portas. Muitos dos rebeldes do SLA perderam tudo o que tinham a pala das milicias Arabes, por isso o porteiro benevolente nao ha-de ser o SLA de certeza. Os proximos dias vao com certeza por ainda mais a nu o apoio que o exercito regular da a estas milicias para propagar uma politica racista no minimo, genocidaria no maximo. Estas milicias Arabes sao os ditos "janjawid", ou "diabos a cavalo", que tem aterrorizado a populacao do Darfur. Sao "Arabes" porque pertencem a tribus Darfurianas que se dizem Arabes, por oposicao as tribos que se dizem Africanas. Se querem que vos diga, nao consigo ver a diferenca entre eles: nao e religiao (tribus africanas sao muculmanas), nao e cor de pele (sao todos escuritos para mim), nao e a ocupacao (ha Africanos nomadas e Arabes sedentarios e vice-versa), nao e a regiao de origem... E basicamente uma auto-percepcao.
Estas sao portanto as circunstancias que levaram os dois passageiros do meu voo a desembarcar e que levaram as Nacoes Unidas a evacuar o staff "nao essencial" para Cartum.
E ontem por volta das 6h da tarde, um desfile vergonhoso de carros brancos com as letras "UN" percorreu Fasher, mostrando a todos que a minima coisa a ONU evacua. Nao se arrisca a que brancos sequer corram risco. E sinistro. Ja e mau evacuar, deixando o staff local sem proteccao, mas faze-lo de maneira ostensiva e vergonhoso.
Aqui em Nyala nao se fala em evacuacao. A situacao esta como sempre esteve. Continuo a organizar o meu atelier sobre justica juvenil e a sessao de cinema de domingo que vem, o SLA-M continua em confronto com o SLA-GW, os deslocados continuam a denunciar o acordo de paz e a pedir uma forca de intervencao da ONU, o governo continua a negar autorizacoes de viagem ao pessoal das ONGs etc.
Vou preparar o saco de evacuacao de 15Kg que nunca cheguei a preparar apesar de ser a regra, mas para alem disso a vida em Nyala continua a ser a vida em Nyala. E espero realmente nao ter de sair daqui nas condicoes em que os meus colegas de Fasher sairam. Que humilhacao. Que irresponsabilidade.
Mal entrei no aviao de Cartum para Nyala vi logo que havia molho a seria no Darfur.
O aviao costuma fazer Nyala (Darfur-Sul) - Geneina (Darfur-Oeste) - Fasher (Darfur-Norte), mas os dois passageiros para Fasher tiveram que desembarcar antes de descolarmos porque "dadas as circunstancias, o aviao nao vai aterrar em Fasher".
Circunstancias? Que circunstancias?
Milicias Arabes atacaram Fasher. Coisa inedita dado que Fasher e uma cidade grande. Os rebeldes do SLA-M defenderam-se e morreu gente no meio do mercado. Depois do ataque, as milicias posicionaram-se a volta da cidade, com o SLA-M e o exercito regular a fazer um cordao de "seguranca". Sim porque apesar de tudo, o SLA-M e o governo sao supostos estar no mesmo lado dado que os dois assinaram o Acordo de Paz do Darfur em Maio passado...
Hoje, as milicias tornaram a atacar o mercado. Alguem naquele cordao de "seguranca" esta a abrir as portas. Muitos dos rebeldes do SLA perderam tudo o que tinham a pala das milicias Arabes, por isso o porteiro benevolente nao ha-de ser o SLA de certeza. Os proximos dias vao com certeza por ainda mais a nu o apoio que o exercito regular da a estas milicias para propagar uma politica racista no minimo, genocidaria no maximo. Estas milicias Arabes sao os ditos "janjawid", ou "diabos a cavalo", que tem aterrorizado a populacao do Darfur. Sao "Arabes" porque pertencem a tribus Darfurianas que se dizem Arabes, por oposicao as tribos que se dizem Africanas. Se querem que vos diga, nao consigo ver a diferenca entre eles: nao e religiao (tribus africanas sao muculmanas), nao e cor de pele (sao todos escuritos para mim), nao e a ocupacao (ha Africanos nomadas e Arabes sedentarios e vice-versa), nao e a regiao de origem... E basicamente uma auto-percepcao.
Estas sao portanto as circunstancias que levaram os dois passageiros do meu voo a desembarcar e que levaram as Nacoes Unidas a evacuar o staff "nao essencial" para Cartum.
E ontem por volta das 6h da tarde, um desfile vergonhoso de carros brancos com as letras "UN" percorreu Fasher, mostrando a todos que a minima coisa a ONU evacua. Nao se arrisca a que brancos sequer corram risco. E sinistro. Ja e mau evacuar, deixando o staff local sem proteccao, mas faze-lo de maneira ostensiva e vergonhoso.
Aqui em Nyala nao se fala em evacuacao. A situacao esta como sempre esteve. Continuo a organizar o meu atelier sobre justica juvenil e a sessao de cinema de domingo que vem, o SLA-M continua em confronto com o SLA-GW, os deslocados continuam a denunciar o acordo de paz e a pedir uma forca de intervencao da ONU, o governo continua a negar autorizacoes de viagem ao pessoal das ONGs etc.
Vou preparar o saco de evacuacao de 15Kg que nunca cheguei a preparar apesar de ser a regra, mas para alem disso a vida em Nyala continua a ser a vida em Nyala. E espero realmente nao ter de sair daqui nas condicoes em que os meus colegas de Fasher sairam. Que humilhacao. Que irresponsabilidade.
Solitaire
De volta a Khartoum por um dia, e desesperada por comida decente, tirei 2h para almocar hoje e fui ao Solitaire.
O Solitaire e uma instituicao em Khartoum.
Pequeno cafe-restaurante em mezzanine, mesas com tampo de madeira e pe de ferro forjado, acesso a internet sem fios gratuito e staff Filipino. O menu tem desde sandes e saladas apetitosas a bife strogonoff e sumos de todas as cores e feitios.
Continua a passar o eterno CD que ja passava quando eu ca vivia, que inclui temas como "Unbrake my heart" da grande Tony Braxton dos meus 13 anos. As duas televisoes com coneccao ao satelite tambem ainda estao la, com a mesmo interrupcao de sinal de 15 em 15 minutos, que me pos de cabelos em pe a protestar aos saltos, aquando dos jogos da gloriosa seleccao no Mundial de Futebol em Junho.
E um sitio elitista ao quadrado.
50% dos clientes sentados cada um a sua mesa, solitaires, sao brancos, endinheirados (diplomatas) ou nao (pessoal das ONG) que nao se importam de pagar 5 Euros por um cafe se com ele vier ar condicionado e internet.
Os outros 50% sao a creme de la creme da sociedade, solitaires Sudaneses. Jovens impecavelmente maquilhadas, com tobes (enorme tecido que as mulheres enrolam a volta do corpo e cabeca aqui) coloridas e em algodao puro, a cheirar a Chanel e sapatos de salto agulha. Algumas estao solitarias, a procura de companhia? Outras vem acompanhadas por maridos e irmaos de jellabia impecavelmente branca e engomada, de turbante bem colocado na cabeca (sinal de formalidade - como a gravata para nos) e sapatos engraxados - pelo miudo ali da esquina?
Khartoum e a casa de uma gigantesca elite Sudanesa. A elite Sudanesa e uma serie de familias, que por casamento ou negocio, criaram elos entre tribus importantes. Sao esses individuos que governam o pais e matam. E sao tambem esses individuos que criticam o pais sabendo que nunca, nunca um policia ou soldado violara o codigo de honra e de tradicao que aqui reina.
No Sudao, os grandes criminosos e os grandes defensores de direitos humanos comeram a mesma mesa, conhecem os pais e irmaos uns dos outros. E tanto um grupo como o outro sao intocaveis, protegidos por um codigo que eles proprios formaram. Um codigo que os solitairisa.
O Solitaire e uma instituicao em Khartoum.
Pequeno cafe-restaurante em mezzanine, mesas com tampo de madeira e pe de ferro forjado, acesso a internet sem fios gratuito e staff Filipino. O menu tem desde sandes e saladas apetitosas a bife strogonoff e sumos de todas as cores e feitios.
Continua a passar o eterno CD que ja passava quando eu ca vivia, que inclui temas como "Unbrake my heart" da grande Tony Braxton dos meus 13 anos. As duas televisoes com coneccao ao satelite tambem ainda estao la, com a mesmo interrupcao de sinal de 15 em 15 minutos, que me pos de cabelos em pe a protestar aos saltos, aquando dos jogos da gloriosa seleccao no Mundial de Futebol em Junho.
E um sitio elitista ao quadrado.
50% dos clientes sentados cada um a sua mesa, solitaires, sao brancos, endinheirados (diplomatas) ou nao (pessoal das ONG) que nao se importam de pagar 5 Euros por um cafe se com ele vier ar condicionado e internet.
Os outros 50% sao a creme de la creme da sociedade, solitaires Sudaneses. Jovens impecavelmente maquilhadas, com tobes (enorme tecido que as mulheres enrolam a volta do corpo e cabeca aqui) coloridas e em algodao puro, a cheirar a Chanel e sapatos de salto agulha. Algumas estao solitarias, a procura de companhia? Outras vem acompanhadas por maridos e irmaos de jellabia impecavelmente branca e engomada, de turbante bem colocado na cabeca (sinal de formalidade - como a gravata para nos) e sapatos engraxados - pelo miudo ali da esquina?
Khartoum e a casa de uma gigantesca elite Sudanesa. A elite Sudanesa e uma serie de familias, que por casamento ou negocio, criaram elos entre tribus importantes. Sao esses individuos que governam o pais e matam. E sao tambem esses individuos que criticam o pais sabendo que nunca, nunca um policia ou soldado violara o codigo de honra e de tradicao que aqui reina.
No Sudao, os grandes criminosos e os grandes defensores de direitos humanos comeram a mesma mesa, conhecem os pais e irmaos uns dos outros. E tanto um grupo como o outro sao intocaveis, protegidos por um codigo que eles proprios formaram. Um codigo que os solitairisa.
Uma manha em Nyala
06h03:
Allaaaaaahwabkar allaaaaahwakbar entoa a mesquita do lado. Pronto acordei. Bolas.
06h05:
Tento sair de baixo da rede mosquiteira e irrito-me porque a sola dos pes, por estar tao seca e estalada, adere a rede e puxa aquilo tudo para baixo. A rede toca-me no cabelo e pronto, fico cheia de electricidade estatica. Com este puxa/estica todo, a corda onde a rede esta pendurada agita e faz cair a bola-abajur de papel (daquelas da Ikea) que tambem la esta pendurada a enfeitar porque o quarto so tem uma luz de neon entao nao da para abajures.
06h07:
Faco xixi na casa de banho.
06h08:
Enfio-me na cama outra vez. Mesma lengalenga da sola dos pes na rede mosquiteira, so que sem a bola-abajur cair porque essa ja estao no chao e dali nao passa.
07h00:
"November Delta 5, this is Sierra Base for radio check over. November delta 5 loud and clear over. Roger, November Delta 5 loud and clear over and out". Comecou o radio check matinal para os guardas. Acordei outra vez.
07h15:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no snooze.
07h20:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no smooze.
07h25:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira, pego no telemovel, carrego no snooze e pouso-o em cima do colchao ao lado da almofada para nao ter que lidar com a rede, apre!
07h26:
Penso sera que as ondas do telemovel me vao dar cancro no cerebro, por ele estar tao perto?
07h30:
Toca o despertador do telemovel e carrego logo no snooze.
07h35:
Toca o despertador do telemovel. Penso em Korn Flakes com Yogurte e mel e em cafe com leite. Desligo o despertador e saio da cama. Mesma saga da rede mosquiteira.
07h36:
Penso no que vou vestir. Penso se vou ou nao lavar a cabeca. Pego em duas toalhas se sim. Pego so numa se nao.
07h37:
Duche. Sabe bem, e quentinho. Mas fica a casa de banho toda molhada, e uma chatice. Penso que tenho que trazer oleo para bebe de Khartoum que esta pele esta uma desgraca.
07h47:
Estou limpa e vestida. Ponho os cortinados para cima. Faco a cama. Do um no a rede mosquiteira. Espero que a corda pare de balancar. Penduro a bola-abajur decorativa na corda outra vez.
07h48:
Saio de dentro de casa para ir a cozinha (a cozinha e la fora). Vem logo o guarda "Sabah hal her! Tamam?" ("Manha de paz! Bem?") e eu "Sabah hal Nur. Al Hamdulillah" ("Manha de luz! Gracas a deus"). Como e que consegues estar tao desperto a esta hora com varios radio checks nocturnos em cima?
07h50:
Trago os Korn Flakes e o cafe para dentro de casa que esta um frio do arco da velha (acreditem, isto nao e Khartoum!) e como em frente a televisao a ver a BBC World.
07h53:
Sai a D. do quarto para o duche.
07h54:
Sai o T. do quarto para o outro duche. Penso: sera que sou eu o despertador deles? Nunca se levantam antes de mim...
08h00:
Aparece o motorista a porta da sala. "Filipa, Kef? Tamam?" ("Filipa, como estas? Bem?"). "Hello! Tamam" ("ola, bem"). E ele outra vez "Al hamdulillah" ("gracas a deus").
08h15:
Vou lavar o dente. Penso: sera que devia lavar o dente com agua engarrafada? Esta casa de banho esta um nojo depois de 2 duches.
08h20:
Dizemos todos adeus aos guardas, saimos do perimetro a volta da casa e entramos todos no carro.
08h25:
Chegada ao escritorio. Penso: devia mesmo comprar uma bicicleta e fazer este percurso a pedalar em vez de sentada num enorme jipe branco com UN escrito em grande letras azuis, com os meus colegas caucasianos, conduzidos por um colega Sudanes, logo nao caucasiano. De bina, as pedras que os miudos atiram nao me devem atingir e se pedalar muita muita rapido nem ouco os "cssss, cssss" dos homens com quem me cruzar, certo?
08h26:
Passagem pela casota dos guardas do escritorio. "Sabah hal Her!". "Sabah hal Nur!". Vem a S., a secretaria, que exige tres beijinhos + uma abraco + um bacalhau e ala la para cima.
08h28:
Tiro o computador da gaveta, logo-o e abro o Outlook. Ao mesmo tempo abro o Yahoo! Mail. Tudo vazio.
08h30:
Abro o documento em que estava a trabalhar ontem.
08h32:
Comecam a chover emails no Outlook. O dia comecou.
09h25:
Procuro um motorista. Nao encontro.
09h28:
Chamo um motorista via radio: "November Delta 7.1, this is November Delta 4.9 do you copy over". "This is November Delta 7.1 move to channel 7". "Moving". "November Delta 7.1 can you come to the office now?". "Affirmative, I am on my way. over". "thanks. over and out"
09h30:
Chega o motorista. Entro no carro para ir para a Unicef.
09h35:
Chego a Unicef. Reuniao.
10h40:
Saio da Unicef. Decido voltar a pe para o escritorio para nao estar a espera do motorista.
Comeco a andar. Tudo a olhar. Ouco um "Khawaja. I loviu." Penso: que chatice ter perdido os elasticos do cabelo, ao menos podia prende-lo em vez de andar com ele a solta tipo femea assanhada.
11h50:
De volta ao escritorio. Tenho que responder aos emails que entretanto chegaram, fazer um resumo da reuniao da Unicef. Fazer aquilo que me comprometi a fazer na reuniao...
11h53:
Entra a S., a secretaria. Mais 3 beijinhos, mais um abraco, mais um bacalhau. Vem recolher os 300 dinars para o Fatour (pequeno almoco para eles, almoco para nos)
12h50:
Somos chamados para o Fatour. Tudo la para baixo para a cozinha. Menu: feijao em oleo, salada, ovos mexidos com tomate, figado. Tudo em pratos comuns, no centro da mesa. Nao se usa talheres. Cada um pega no seu pao, tira um bocadinho e usa como garfo. I., a nossa cozinheira, passa-me um copo de Karkadeh (flor vermelha a partir da qual fazem um refresco muita bom) e diz-me nao sei que em Arabe, com um tom de gozo, um sorriso aberto e um brilho de esperteza nos olhos, veu a cair da cabeca (mas nao faz mal) e a descobrir um penteado marado com uns totos hisurtos espetados para cada lado que nao se esperaria de uma enorme senhora na casa dos 30 e muitos anos.
Penso, a I. e a minha pessoa preferida destas todas.
13h00:
Acabei de comer. Levanto-me. "Shukran I.!" ("Obrigada I.!") e volto para a minha mesa. Acabou a manha.
Allaaaaaahwabkar allaaaaahwakbar entoa a mesquita do lado. Pronto acordei. Bolas.
06h05:
Tento sair de baixo da rede mosquiteira e irrito-me porque a sola dos pes, por estar tao seca e estalada, adere a rede e puxa aquilo tudo para baixo. A rede toca-me no cabelo e pronto, fico cheia de electricidade estatica. Com este puxa/estica todo, a corda onde a rede esta pendurada agita e faz cair a bola-abajur de papel (daquelas da Ikea) que tambem la esta pendurada a enfeitar porque o quarto so tem uma luz de neon entao nao da para abajures.
06h07:
Faco xixi na casa de banho.
06h08:
Enfio-me na cama outra vez. Mesma lengalenga da sola dos pes na rede mosquiteira, so que sem a bola-abajur cair porque essa ja estao no chao e dali nao passa.
07h00:
"November Delta 5, this is Sierra Base for radio check over. November delta 5 loud and clear over. Roger, November Delta 5 loud and clear over and out". Comecou o radio check matinal para os guardas. Acordei outra vez.
07h15:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no snooze.
07h20:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira e carrego logo no smooze.
07h25:
Toca o despertador do meu telemovel. Levanto a rede mosquiteira, pego no telemovel, carrego no snooze e pouso-o em cima do colchao ao lado da almofada para nao ter que lidar com a rede, apre!
07h26:
Penso sera que as ondas do telemovel me vao dar cancro no cerebro, por ele estar tao perto?
07h30:
Toca o despertador do telemovel e carrego logo no snooze.
07h35:
Toca o despertador do telemovel. Penso em Korn Flakes com Yogurte e mel e em cafe com leite. Desligo o despertador e saio da cama. Mesma saga da rede mosquiteira.
07h36:
Penso no que vou vestir. Penso se vou ou nao lavar a cabeca. Pego em duas toalhas se sim. Pego so numa se nao.
07h37:
Duche. Sabe bem, e quentinho. Mas fica a casa de banho toda molhada, e uma chatice. Penso que tenho que trazer oleo para bebe de Khartoum que esta pele esta uma desgraca.
07h47:
Estou limpa e vestida. Ponho os cortinados para cima. Faco a cama. Do um no a rede mosquiteira. Espero que a corda pare de balancar. Penduro a bola-abajur decorativa na corda outra vez.
07h48:
Saio de dentro de casa para ir a cozinha (a cozinha e la fora). Vem logo o guarda "Sabah hal her! Tamam?" ("Manha de paz! Bem?") e eu "Sabah hal Nur. Al Hamdulillah" ("Manha de luz! Gracas a deus"). Como e que consegues estar tao desperto a esta hora com varios radio checks nocturnos em cima?
07h50:
Trago os Korn Flakes e o cafe para dentro de casa que esta um frio do arco da velha (acreditem, isto nao e Khartoum!) e como em frente a televisao a ver a BBC World.
07h53:
Sai a D. do quarto para o duche.
07h54:
Sai o T. do quarto para o outro duche. Penso: sera que sou eu o despertador deles? Nunca se levantam antes de mim...
08h00:
Aparece o motorista a porta da sala. "Filipa, Kef? Tamam?" ("Filipa, como estas? Bem?"). "Hello! Tamam" ("ola, bem"). E ele outra vez "Al hamdulillah" ("gracas a deus").
08h15:
Vou lavar o dente. Penso: sera que devia lavar o dente com agua engarrafada? Esta casa de banho esta um nojo depois de 2 duches.
08h20:
Dizemos todos adeus aos guardas, saimos do perimetro a volta da casa e entramos todos no carro.
08h25:
Chegada ao escritorio. Penso: devia mesmo comprar uma bicicleta e fazer este percurso a pedalar em vez de sentada num enorme jipe branco com UN escrito em grande letras azuis, com os meus colegas caucasianos, conduzidos por um colega Sudanes, logo nao caucasiano. De bina, as pedras que os miudos atiram nao me devem atingir e se pedalar muita muita rapido nem ouco os "cssss, cssss" dos homens com quem me cruzar, certo?
08h26:
Passagem pela casota dos guardas do escritorio. "Sabah hal Her!". "Sabah hal Nur!". Vem a S., a secretaria, que exige tres beijinhos + uma abraco + um bacalhau e ala la para cima.
08h28:
Tiro o computador da gaveta, logo-o e abro o Outlook. Ao mesmo tempo abro o Yahoo! Mail. Tudo vazio.
08h30:
Abro o documento em que estava a trabalhar ontem.
08h32:
Comecam a chover emails no Outlook. O dia comecou.
09h25:
Procuro um motorista. Nao encontro.
09h28:
Chamo um motorista via radio: "November Delta 7.1, this is November Delta 4.9 do you copy over". "This is November Delta 7.1 move to channel 7". "Moving". "November Delta 7.1 can you come to the office now?". "Affirmative, I am on my way. over". "thanks. over and out"
09h30:
Chega o motorista. Entro no carro para ir para a Unicef.
09h35:
Chego a Unicef. Reuniao.
10h40:
Saio da Unicef. Decido voltar a pe para o escritorio para nao estar a espera do motorista.
Comeco a andar. Tudo a olhar. Ouco um "Khawaja. I loviu." Penso: que chatice ter perdido os elasticos do cabelo, ao menos podia prende-lo em vez de andar com ele a solta tipo femea assanhada.
11h50:
De volta ao escritorio. Tenho que responder aos emails que entretanto chegaram, fazer um resumo da reuniao da Unicef. Fazer aquilo que me comprometi a fazer na reuniao...
11h53:
Entra a S., a secretaria. Mais 3 beijinhos, mais um abraco, mais um bacalhau. Vem recolher os 300 dinars para o Fatour (pequeno almoco para eles, almoco para nos)
12h50:
Somos chamados para o Fatour. Tudo la para baixo para a cozinha. Menu: feijao em oleo, salada, ovos mexidos com tomate, figado. Tudo em pratos comuns, no centro da mesa. Nao se usa talheres. Cada um pega no seu pao, tira um bocadinho e usa como garfo. I., a nossa cozinheira, passa-me um copo de Karkadeh (flor vermelha a partir da qual fazem um refresco muita bom) e diz-me nao sei que em Arabe, com um tom de gozo, um sorriso aberto e um brilho de esperteza nos olhos, veu a cair da cabeca (mas nao faz mal) e a descobrir um penteado marado com uns totos hisurtos espetados para cada lado que nao se esperaria de uma enorme senhora na casa dos 30 e muitos anos.
Penso, a I. e a minha pessoa preferida destas todas.
13h00:
Acabei de comer. Levanto-me. "Shukran I.!" ("Obrigada I.!") e volto para a minha mesa. Acabou a manha.
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