A marrona

Ufa, ja nao esto no Afeganistao. Deixei as apicultoras, as pretendentes a gerentes de aviario, as fabricantes de sapatos e malas que nunca me disseram la muito. Deixei tambem as residentes do abrigo e as que as ajudam, essas que ja me dizem mais e que me vao fazer falta. Deixei o sitio onde a explosao de um foguete de festa atrai um sms do servico de seguranca a dizer "o som que ouviram nao foi uma bomba".

Trabalhei 10 ou 12 horas por dia a gerir quase 70 projectos diferentes, para os quais olhava muitas vezes como boi para cavalo (a consistencia do cimento, a quantidade de gravilha). Mas nao me desorientei, estava sempre em cima dos detalhes.

E intrigante como apesar de tanto multitasking bem sucedido nos ultimos meses, me enganei redondamente nas datas em tinha que estar em Londres para a semana de presenca obrigatoria do meu curso de direito. Cheguei a Berlim ontem, fui ao site da escola procurar nao sei o que e reparo que as aulas comecaram ha 3 dias. Nem tive tempo de desfazer a mala, 3 horas mais tarde estava num aviao para Londres. E amanha vou implorar ao director que me deixe continuar no programa, que me deixe estudar, que me deixe fazer os exames - so pela marronisse doentia, merecia que me tratassem como um caso a parte.

Se tudo correr bem, daqui a uns meses ja esta, sou jurista. Nao ha plano para o pos curso, mas com o curso no bolso fica a porta aberta, a esperanca, a utopia, o graal de um dia poder pertencer ao mundo da lei, que e onde me sinto bem.

Dia da fêmea.

Hoje é dia da mulher então esta manhã fui inundada de votos de felicidade, saúde e sucesso. Sempre pensei que os colegas me viam como um ser híbrido, nem homem nem mulher. Mas com tanto voto de felicidade hoje, percebi que sou definitivamente uma mulher para eles. Por mim tudo bem, não fosse a conversa que tive com um dos meus colegas:Digo eu: pois é pena não haver um dia do homem para eu poder desejar-te o mesmo.
E diz ele: dia do homem são os outros dias todos, para as mulheres é que é preciso
um dia especial.
E eu: mas porquê?
E ele: para mostrar o respeito que devemos ter pelas mulheres, que têm uma função muito importante na sociedade.
E eu: Ah sim, qual?
E diz ele: as mulheres são muito importantes porque sem elas não haveria homens.

Esta resposta, garanto-vos, não é para dizer que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. E para ser interpretada num estrito sentido reprodutivo. Eu sei que isto é o Afeganistão, mas bolas... As coisas que uma pessoa tem que ouvir.


E este postaleco que me mandou uma ONG parceira - aparentemente as mulheres podem fazer quase tudo o que se lhes mete na tola.


Não sei se é sorte, se é oportunidade agarrada, mas em 28 anos de vida, tenho passado uma data de momentos memoráveis. Vou registá-los aqui para não perder o sentido de realidade em dias em que me sinta injustiçada pela vida...

Sentei o rabiosque numa cadeira da assembleia geral da ONU a ver a primeira resolução contra a pena de morte ser votada pela maioria dos países do mundo.

Levantei o rabiosque da cadeira por detrás do vidro à prova de bala da sala de audiências do Tribunal Penal Internacional quando os juízes entraram, para começar mais uma sessão do julgamento de Slobodan Milosevic (esse sentado no seu canto, com uma constante expressão de gozo)

Fiz-me discreta (única fêmea) no ringue improvizado para ver uma luta Nubiana nos arredores de Khartoum - homens gigantescos a soltar urros animalescos com um balançar ameaçador e a esfregarem-se com terra do chão

Vi os malucos dos Sufis Sudaneses entrarem em transe ao pôr do sol num cemitério depois de predizerem que vou ter 2 filhas e 1 filho.

Vi a cascada de lagos de Jebel Marra, o coração do Darfur - inacessíveis por falta de trilhos e por excesso de rebeldes armados - quando o piloto Búlgaro do helicóptero das Nações Unidas resolveu fazer um itinerário diferente um dia.

Respirei ar carregado de areia do Sahara que inundou Khartoum durante um "haboob" e expecturei-o todo nas horas que se seguiram.

Ouvi os muezins em unísono de centenas de minaretes na Cidade de Pedra, em Zanzibar

Fiz Dili-Ataúro num barquito de madeira - 5h à vela por um mar cheio de baleias, tubarões e cobras marinhas

Palmilhei as ruas de Manhattan durante meses invernais - zero graus, céu azul e ar límpido.

Caminhei sobre a lava do vulcão de Àgua na Guatemala













E mais recentemente sobrevivi ao Túnel de Salang que liga Kabul ao Norte do Afeganistão: 6 Km de túnel Hindu Kush adentro sem aberturas, sem arejamento, sem luzes, cheio de buracos, cheio de camiões com escapes rotos onde o maior risco de vida é o de simplesmente abrir a janela do
carro e inspirar uma boa golfada de "ar"

Definitivamente - sorte.

As anti mil e uma noites afegãs

Respondendo ao comentário ao meu último post, temo não ter histórias de viagem que façam sonhar.

A inspiração e o exotismo deste sítio vejo-as nas imagens que mostrei: nas paisagens desertadas atravessadas no entanto por uma estrada alcatroada de primeira qualidade - como quem se prepara para um futuro bom por muito improvável que pareça agora; no camião decorado com bons augúrios escritos em (mau) Inglês - num esforço em alcançar e abraçar o outro; o mundo. E no velho tanque soviético reconquistado pelo mundo das telecomunicações - a absurdidade No Man's Landesca da guerra.

Contos destas viagens, de que me lembre... Existem, mas são para esquecer, não para inspirar:

Numa das viagens, somos ultrapassados por um jipe a alta velocidade. Mais à frente vejo o jipe abrandar e parar no meio da estrada. Há sempre aquele segundo, aquele ínfimo momento em que pensamos estarei em perigo? Há sempre um instinto de avestruz que nos diz não, isto não vai acontecer agora, que se interpõe e atrasa o raciocínio - o raciocínio que está a tentar avaliar subitamente e rapidamente a situação. Nesse ínfimo momento, como que em câmara lenta, vi a porta do jipe abrir-se e vi o cano de uma metrelhadora a sair, e um homem à paisana. Disse acelera acelera ao condutor do carro e ultrapassámos o jipe. Ao virar-me para trás, vi que o homem da metrelhadora se estava a preparar para, como se diz, arrear uma amarelinha à beira da estrada. Era só isso. Nada de mais. Mas foi numa situação semelhante que o carro de um colega levou 8 ou 9 tiros em Setembro passado - o carro dele era blindado, por isso as balas esmagaram-se dentro do aço e dentro do vidro, mesmo em frente ao lugar do condutor. E claro que ele andava por zonas bem mais perigosas que esta onde eu estou. Mas a hesitação daquele ínifimo momento em que se pensa será que isto vai mesmo acontecer?, o instinto de incredulidade que nos atrasa o instinto de sobrevivência é algo que me mete medo. E o meu carro não é blindado.

Outra história destas viagens, completamente diferente, é a das mulheres. Mais uma vez. Desta vez a das mulheres grávidas. O Afeganistão distingue-se de outros países por muitas coisas. Uma delas é o facto de ser o único país do mundo onde a esperança de vida das mulheres é menor que a esperança de vida dos homens. Isto num país com 30 e tal anos de guerra em cima, durante os quais milhares e milhares de homens se juntaram à luta, é bastante espectacular. Uma das razões pelas quais as mulheres morrem tão facilmente, é a maternidade. Assim que se casam (às vezes aos 8 ou 9 anos), as mulheres entram num ciclo de reprodução em que, basicamente, a gravidez age como contraceptivo. Só não engravida quem gravida está. Gravidezes trazem sempre riscos, aqui como em Nova Iorque. E aqui há a insalubridade geral, há o isolamento, a distância até ao hospital mais "próximo"... E há sobretudo a exasperante e ubíqua ignorância e estupidez de muitos homens aqui, que não autorizam a mulher a sair de casa nem a receber ajuda até ela se esvair em sangue. E depois se a coisa se complica mesmo, é arranjar um cobertor para a tapar bem e pô-la no dorso de um burro até à aldeia vizinha onde vive uma senhora que dizem que é parteira. E a mulher vai com sorte se lá chega viva. E o projecto de treino para parteiras que vim fiscalizar é tão mau tão mau que chega a ser perigoso, e estou a fazer o possível para o interromper.

Por isso estas histórias de viagem não me inspiram lá muito. Prefiro as imagens.

Vadiage

Desde que voltei para o Ganistão, tem sido uma vadiage. Tenho 70 projectos para avaliar, metade dos quais involvem fêmeas - um mundo aberto somente a outras fêmeas como por exemplo eu.

O problema é que eu falo muitas línguas, mas o destino parece insistir em gozar com a minha cara e mandar-me sempre para sítios onde o meu poliglotismo não vale um tostão furado. O primeiro passo foi portanto contratar uma assistente fêmea capaz de seguir bem as conversas e traduzir para mim. O problema é que mulheres Ganistãs não podem andar aí na vadiage fora de casa sem rei nem roque. Quase todas as que entrevistámos acabaram por se acanhar diante a perspectiva de 20h por semana on the road. Algumas por pressão da família, outras por genuino medo e desorientação pessoal. Mas finalmente lá encontrámos uma jovem disposta à aventura.

Então tem sido assim. Desde que cheguei, há duas semanas, passei 40h enfiada num carro por estradas da província ganistã, por vezes asfaltadas, por vezes não, a caminho de aldeias reconditas.

Isto é a província de Samangan




















E esta é a província de Baghlan










E este é um camião contente














E este é um tanque soviético com vida nova (Afghan Wireless é uma empresa de internet aqui)


De volta - ã? - de volta - ã?? - DE VOLTA!

Após 4 semanas a dormir em camas que, a bem dizer, por mais que tente já não são minhas, estou de volta ao -Shtão com um novo computador que espalhará de novo neste blogue a alegria do acento e do til Portugueses. É bom porque sem isto o meu Português emigra-se de vez.

Custou chegar cá. Tive que arranjar outro trabalho (de volta à cooperação Alemã) e viajar durante um total de 48h de Barcelona para Bona, de Bona para o Usbequistão e do Usbequistão para Mazar. Seis descolagens e aterragems. Nada disto seria um problema não fosse o entupilhame patente nas minhas vias nasais, que me pôs em pânico cada vez que o avião subia ou descia. Era um zumbido, uma coisa, que me esplodia o cérebro, me fazia correr as lágrimas dos olhos. Um stress que invariavelmente despoletava o ataque de tosse (seca) que nem com pãozinho e água lá ía. E o H a olhar para mim entre pânico céptico (e séptico) e ligeira irritação com a barulheira.

Mesma atitude temi das soldadas Alemãs com quem tive que partilhar a tenda, na base militar no Usbequistão. Uma verdadeira tenda de campanha, com duas filas de camas de campanha verde caqui a um metro umas das outras. Folgarão em saber que havia, vá lá, um aquecimento na tenda. Não cheguei, no entanto, a observar nenhuma atitude hostil das soldadas. No dia seguinte, antes de apanhar o vôo final para Mazar, até uma me acudiu a tornar a pôr o saco de cama dentro do respectivo micro-saquinho, mas como deve ser que tens de dobrar isso ao meio e só depois enrolar bem, rapariga. Nem sequer me bateu quando, na ânsia de ajudar a soldada, puz o joelho por cima do rolo que ela tinha feito tão bem, meti as mãos furiosamente pelo micro-saquinho adentro, escorreguei e desfiz o rolito todo. E ela "ai ai, sie hat alles schlecht gemacht" (ai ai que ela agora fez tudo mal) ou lá o que foi que ela disse. Acho que apesar da tosse nocturna, do desastre saco-camal, e do encontrão que dei com o traseiro às costas do oficial da polícia na cantina, eu era um bicho à parte ali - a única femea civil.

No dia seguinte foi esperar 5h, sózinha (que o H pirou-se logo no 1o vôo, o sacana) a ser chamada-me de meia em meia hora (é agora!), até finalmente entrar pelo enorme rabo aberto do C-130 da Bundeswehr, aparelhar-me ao assento de campanha ao lado do Obersfeld Heinz e voar os 20 minutos necessários para chegar de Termez a Mazar. Uma pessoa pensa, bem depois disto tudo 20 min já não custa nada. Mas não. Sucede que os aviões militares ao aterrarem no Afeganistão, vão cheios de cagufa dos rockets que um qualquer barbudo possa estar a apontar de trás de um monte qualquer, ali à espera da ocasião para záááshhh. Vai daí aterram em método "saca-rolhas", assim tão a ver às voltinhas cerradinhas, a perder 200m de altitude por segundo, o que, como imaginarão, constitui pura e simplesmente o fim da picada para os meus pobres ouvidos e vias entupidas. Nada a fazer, uma zumbideira, um xinfrim, um escabeche, uma pressão inimaginável, indesbloqueável por mais que apertasse o nariz e agravada ainda pelos tampões que tive que colocar por causa do já barulhento interior to C-130 e das explosões causadas pelos jactos de calor que o bicho descarrega para os lados ao aterrar para enganar o potencial rocket, que fazem um barulho tal que parece que o rocket veio mesmo. E engraçado porque os tampões dos ouvidos tem a forma de rocket.

Por isso era para dizer que estou surdita, mas durmo finalmente aconchegada na minha caminha. E que desejo um bom 2009 a todos.