Com seis kilos ganhos desde que fui para Cartum - disse o treinador: ganhaste peso em Africa?? - e os diabetes a correr nos genes, tomei as coisas em mão e inscrevi-me no fitness club. Todas as manhãs vou para lá levantar pesos com as pernas, deitada de barriga para baixo, levantar pesos com as pernas sentada, levantar pesos com os braços, levantar pesos com a barriga, fazer abdominais de lado e depois correr num alucinante tapete rolante durante meia hora a ouvir Shakira e Kylie Minogue. Cada pingo de suor é como uma lágrima de felicidade.
O que me aconteceu?

Mais uma razão para gostar do direito Inglês:

London Borough of Wandsworth v Railtrack plc: o tribunal considerou pombos um distúrbio público!
Não sou portanto a única.

Penitência

Do fundo da minha ignorância de emigra, tentei perceber porque é que os professores estão tão revoltados em Portugal. O que os leva a fazer horas de viagem num autocarro alugado pela FENPROF, de todos os cantos de Portugal até Lisboa, vestidos de negro. Qual a razão do luto?

A crise, percebi, já fermenta há vários meses e é, sem dúvida, inaceitável que não tenha acompanhado a coisa desde o início. Mas o mundo é grande, há muitos problemas e estou longe, de maneira que a actualidade Portuguesa não é sempre uma prioridade. Mereço, sem dúvida, uma severa penitência.

A minha penitência acabou por ser, imagine-se, a tentativa de perceber a questão. O Público falou dos milhares esperados em Lisboa, das visitas da PSP às escolas para investigar identidades de potenciais manifestantes, e da oposição às reformas da Ministra. Mas que reformas?
No website da FENPROF li indignação em relação às visitas da PSP às escolas e revolta em relação às reformas da Ministra. Mas que reformas?
Fui então ao website do Bloco de Esquerda. Aí li uma condenação das visitas da PSP às escolas e uma censura das reformas da Ministra. Mas que reformas, caramba!?
Pensei bom vou tentar ver o telejornal da RTP. Faço o download do video do Jornal da Noite de 6a feira. Depois da trágica história da pequena Mari Luz, veio finalmente a reportagem sobre a tão esperada maior manif de professores da história e o que vi deu-me vontade de chorar:
1o: as dificuldades de estacionamento em Lisboa, durante a manif, ilustradas pelo repórter no seu carro - "amanhã vai ser difícil estacionar aqui".
2o: o curso exacto da manif, com mapa interactivo e tudo... a que minuto saiem do Terreiro do Paço, que vai à frente, que vai atràs etc.
3o: as preparações de viagem de uma professora do Minho: dois chouriços, três carcaças, um pão caseiro e um pão da avó pede ela, se faz favor, à padeira da estação de serviço.

E pronto.
Sei que é fácil criticar quando se está longe e, desde sempre, tentei resistir à tentação de achar que Portugal é um país provinciano e que o estrangeiro é que é bom. Mas nestas circunstàncias é difícil não sentir alívio por ter saído do país e visto outras coisas pelo mundo fora. E difícil não me sentir deprimida ao pensar na atmosfera em que vivem os Portugueses. E difícil não achar que Portugal está em estagnação intelectual. Estou deprimida por causa dos factos e estou deprimida por ter esta opinião.

Agradeço a quem me explique, objectivamente, porque é que os professores estão revoltados. E entretanto, para manter uma mente sã, vou relembrando o Gato Fedorento:

Sudão em Berlim


Emmanuel Jal fugiu do Sul do Sudão para um campo de refugiados na Etiopia, algures nos anos 80. O exército de libertação do sul do Sudão andava a recrutar soldados no campo e Emmanuel Jal, porta-voz das crianças do campo já carismático aos 8 ou 9 anos, filmado por conicidência por um jornalista que por là andava, tornou-se criança-soldado. Treinaram-no e deram-lhe uma AK47 maior e mais pesada que ele e mandaram-no de volta para o Sudão para lutar contra as forças de Cartum, juntamente com outras crianças. Ao fim de algum tempo o grupo de crianças-soldados decidiu fugir e caminhou durante meses pelo Sudão, resistindo à tentação de comer camaradas mortos de cansaço e fome e comendo, ao invés, abutres que se aproximavam, sentindo o cheiro de carne humana (quase) morta. O grupo de "lost boys" foi encontrado por Emma McCune, uma humanitária tornada segunda mulher de comandante rebelde, Riek Machar - hoje vice-presidente do Sul Sudão. Emma escolheu Emmanuel, num gesto de selectividade que hoje em dia não seria possível de todo (se cada humanitário fizesse o mesmo...), e levou-o clandestinamente para Nairobi, num vôo das Nações Unidas. Emmanuel viveu com Emma e Riek Machar até à morte de Emma num acidente de carro suspeito, após o qual foi posto na rua pelo não tão generoso Riek. Graças a redes de apoio nos bairros de lata de Nairobi, Emmanuel foi escolarizado e é hoje um famoso cantor de hip-hop, que dá a volta ao mundo com uma mensagem de paz em Inglês, em Nuer e em Arabe. Há quem diga que para saber o que será o Darfur daqui a 30 anos, basta olhar para o Sul do Sudão.

War Child, o filme sobre a vida de Emmanuel, foi apresentado na Berlinale aqui em Berlim e nós fomos ver.
E sim, tenho saudades do Sudão.

O nosso dia dos namorados


Ontem, como era dia dos namorados, fomos jantar ali ao Amuse Gueule.

Gosto do Amuse Gueule porque, como a jiga-joga do nome indica, é um estabelecimento Francês, com comida da avozinha Francesa e empregados da Franca. Para quem, como eu, ainda nao domina os chs e schs Alemaes, é, assim, digamos, como que uma loufée d'air fresque. Entao quando vem a jovem empregada, com o seu Alemao afectado de Frances - was wünscheeeuuun Siiiiie? - eu tento logo empurrar a conversa para o Francês, porque, ao que parece, Alemao com sotaque Francês é muito sexy e eu nao quero perder o marido, muito menos no dia dos Valentins. Portanto: "deux soupes aux oignons sirvopuré". Ela, apanhada de surpresa, continua em Alemao. Ai que agente zanga-se. Passado o incidente, continuei à conversa com o príncipe em Inglês, claro està, porque continua a ser a nossa língua de comunicacao. Entretanto chega a cozinheira - que é a mae dos empregados, parece-me - com a sopa. Ouve-nos a falar Inglês, e, num gesto de flexibilidade linguística pouco comum em Franceses, diz "enjoiiy yoourr meallll". Nisto chega a empregada outra vez com a garrafa de vinho, que também tinhamos pedido, ouve a mae a falar Inglês connosco, e, tal mae tal filha, pumba em Inglês: "who wants to taste zze wine?" Nisto eu, suspeitando - olháqui mon oeil - que o sotaque Francês em Inglês tambem é capaz de soar sexy, respondo "Monsieur". Mae e filha ficam confusas outra vez e olham uma para a outra todas baralhadas. Vem entao o Hendrik clarificar a coisa - em Alemao. Ina bem, baralhou-lhes tanto o carolo que se foram embora nao fosse haver sobre-aquecimento cerebral.

Nisto entra um senhor com um leitor de cassettes e um clarinete e pergunta à empregada, em Alemao, se pode tocar uma musiquinha para alegrar a malta. Carrega no play e sai uma especie de ruído de hard rock Alemao que nao lembra ao menino jesus impôr a ninguém, mas que, terao quissá dito ao senhor, que era o que tava a dar na Alemanha. O senhor continua, nao obstante, a performance, tocando umas notitas no clarinete por cima da cassette. Tudo a olhar... oh meu deus quem é este personagem? E, quando nada mais poderia piorar o espectaculo, dá um ataque de constipacao ao senhor e, entre cada sopradela no clarinete, sai um tossicar fazendo, portanto, com que se oica o rolar da expecturacao em fundo de hard rock Alemao e nao mais o clarinete que era a unica coisa que salvava a situacao. Aí foi mesmo demais, e a empregada diz-lhe para ele parar, que era suposto ser só uma música. Vai ele e implora outra oportunidade, desta vez sem a cassette, que sem a cassette conta como uma música. Ela - neiiineuh neiiineuh. Ele reconhecendo que ela é Francesa: une chanson, une chanson. One song, one song. Nao fosse o Francês dela estar enferrujado. E, sem mais ouvir, desata a cantar em Romeno, tentando ao mesmo tempo dar umas notas no clarinete para acompanhar. Ao fim de algum tempo, conclui que nao dá para multitascar com voz e clarinete e ainda por cima, com a tosse a ameacar, é complicado. E nisto pára e desata a falar encavacado, em Romeno, que é um bocado difícil aquela tarefa. Pelo menos é o que suspeito eu, dado que nao sei Romeno e que se calhar aquilo era Búlgaro.

Foi uma verdadeira perdicao em translacao.

Bemvindos ao terceiro ano do Blog que, nos proximos meses, vai contar epicas historias da vida de uma estudante de direito ingles a viver em Berlim, que fala quatro linguas que nao incluem Alemao, e que concluiu que os Alemaes nao falam estrangeiro. E a fase "lost in translation". E a fase do direito humano ao polyglotismo.