Stevie Wonder. Sem sombra de duvida.
Telemovel desligado.
Copo de agua para aclarar a voz apos varias chavenas de cafe.
Uma enorme mesa com dezenas de folhas de papel minuciosamente expostas por tema e ordem.
Telefone a dez centimetros de mim.
Tecnica de respiracao e relaxacao em curso. Inspira - expiiiiiiiiiiiiira.
Toca o telefone.
"Hello?"
Puro sotaque Britanico.: "Hi Filipa, this is the Children's Legal Centre, are you ready for your interview?"

Foi ontem... a primeira entrevista de trabalho da minha vida.

Manifest Day

É hoje! É hoje! O Dia do Manifesto.
Trinta mil coisas para acabar, alinhavar, handover note-ar, sem tempo para comer, para ir à casinha, desde as 8h da manhã a carburar adrenalina...
Até às 16h da tarde, hora da verdade.
É hora de ir ver o Manifesto dos vôos das gloriosas linhas aéreas humanitárias do Programa Alimentar Mundial para amanhã.
Qual estudante à procura do nome na pauta para ver a nota, percorro nervosamente as dezenas de folhas afixadas no painel da recepção do PAM até soltar um suspiro de alívio e felicidade ao ver:
UYL - KHT
Filipa Guinote UNDP Portuguese ID0415
Check in 11:30

E vem um novo pique de adrenalina: vou de férias! vou ver o Príncipe! Vou comer bife strogonoff em Cartum!

Eu sei que podia ser pior

Estou a chegar ao fim de mais um ciclo de seis semanas e preparo-me para, na quarta-feira a noite, voar para a Europa por uma semanita mais uma vez. Ha quem diga, com o conforto que o staff da ONU tem no terreno, e ridiculo dizer que apos seis semanas apenas se merece uma pausa de recuperacao. E verdade, a minha casa em Nyala e melhor que o apart onde vivi em Cartum no ano passado. E verdade, nao passo os meus dias a medir tamanhos de pulsos e a pesar bebes raquiticos com fome e malnutridos. E verdade nao tenho que me aventurar por estradas isoladas para levar material ou comida para uma populacao qualquer perdida no meio do nada arriscando-me a ser feita refem por um qualquer grupo armado que por la andar.

Sim podia ser muito mais dificil. E sim, era capaz de aguentar mais de seis semanas aqui. Mas quando vejo a data aproximar-se mal consigo conter a excitacao. E a antecipacao de ver o Principe. Mas nao so. E a antecipacao de ter privacidade, de ser anonima.

Ja me habituei as semanas de seis dias. Ja me habituei aos horarios das 09h00 as 21h00. Aquilo a que ainda nao me habituei e a falta de privacidade, embora goste muito das jovens com quem vivo (a excepcao da Alergica Mor). Aqui, os unicos momentos em que nao estou a comunicar com alguem sao as horas em que durmo e as sextas-feiras, em que me escondo no meu quarto a ver DVDs ate ficar esganada de fome e ter de por o pe la fora. Por isso e que estou tao furiosa com este periplo por El Fasher, que me roubou a minha sexta-feira.
Mas ao menos sei que daqui a uns diazitos vou ter de volta a minha vida privada. Com marido e tudo.

*!?**?????

Fui passar um dia a Zalingei e acabei por passear pelo Darfur inteiro nas ultimas 48h, gracas a inenarravel confusao que sao os voos da ONU. Ha sempre o classico problema de se ter reservado um voo para um sitio e o voo ser cancelado a ultima da hora. Mas o que me aconteceu foi mais um passo para a humanidade no mundo da incompetencia: reservar um lugar num voo que nao existe. Receber confirmacao para um voo que nao existe. No dia do voo, ver o meu nome preto no branco no manifesto, mas com um asteriscozito a dizer "no connection". Assim, tipo olha paciencia fica pra proxima, vais antes para El Fasher que tambem e bonito. Portanto ca estou na capital do grandioso Norte Darfur, onde ao menos tenho um escritorio e uma casa do PNUD e ha companhias aereas comerciais que me poderao levar ate casa amanha inshallah.