Geneina e um sitio estranho.
A 6 Km da fronteira Sudao-Tchade, ja ninguem sabe quem e quem. E daqueles sitios que poderia ilustrar um dos celebres "case tudies" do direito internacional, a jurisdicao internacional: um individuo de nacionalidade Sudanesa esta no lado Tchadiano da fronteira. Pega numa arma com alcance suficiente e mata um individuo de nacionalidade Tchadiana no lado Sudanes da fronteira. Qual dos dois paises tem jurisdicao sobre o crime?
Como todas as localidades perto de uma fronteira, o mercado e um mercado aparentemente normal, so que em certos dias, dependendo de quem chega, vende armas, cigarros e alcool no meio das cebolas, das cabras e do feijao.
Geneina esta tambem a 6 Km do limite da aplicacao da lei islamica - a Sharia. De maneira que e ver carros e carros de Sudaneses em direccao a Adre, a mais proxima cidade no lado Tchadiano da fronteira, para basicamente ir pros copos, embebedar-se, desembebedar-se e voltar para o reino da virtude Islamica.
Por fim, Geneina e a zona fronteirica a volta, e o hub para todos os movimentos rebeldes que puderem imaginar. Movimentos Sudaneses pro e contra Acordo de Paz; de inspiracao islamica ou de aspiracao independentista; faccoes de movimentos que assinaram o Acordo de Paz mas afinal ja nao estao tao de acordo com a paz, nem com o acordo; milicias ditas "arabes" apoiadas pelo Governo com licenca para matar tribus ditas "africanas"; milicias ditas "arabes" que nao apoiam as ditas milicias ditas "arbes" apoiadas pelo governo. Movimentos rebeldes Tchadianos que querem deitar abaixo o presidente e se refugiam do lado Sudanes da fronteira senao levam com bombas em cima; faccoes dos ditos movimentos rebeldes que reconhecem aquele lider e nao este.
E no meio disto tudo, ha cerca de 130 internacionais a trabalharem para ONGs e agencias da ONU, proibidos de sairem do perimetro da cidade a nao ser de aviao ou helicoptero, proibidos de se deslocarem dentro da cidade depois das 6h da tarde, a nao ser em diligencias de 2 veiculos (o PNUD so tem 1 veiculo, por isso tamos de maos atadas depois das 6), e proibidos de porem o nariz fora de casa depois das 8h.
E centenas de civis Sudaneses a fugirem para o lado Tchadiano. Centenas de milicias ditas "arabes" a persegui-los ate ao lado Tchadiano e a apanhar uns quantos en route e a fazer razias a aldeias Tchadianas, despertando a ira dos senhores da guerra Tchadianos daquela zona. E o que resta das centenas de civis Sudaneses que fugiram do Sudao, as vezes, por sorte, chega ao campo de refugiados da ACNUR (Guterres!!) apos kilometros e kilometros de marcha, sem comida, sem agua, com o ocasional burro salvado a ultima da hora que sempre alivia o corpo a quem foi alvejado no caminho.
Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Impressoes varias.
Ufa! Ate qu'enfim que consigo escrever aqui! Tava sempre a dar uma mensagem de erro e acesso negado. Acesso negado o que, meu! Este blog e meu, cala a boca.
A outra razao e que tou farta de escrever coisas serias, perguntando-me a cada palavra que escrevo se deveria ou nao estar a escreve-la num blog. Chega.
Portanto vou falar do Shiraz. Shiraz e a mercearia onde me aprovisiono. O merceeiro, tendo o seu pedido de casamento falhado (malesh, ja sou casada. entao posso ser o teu segundo marido?), optou por exprimir os seu amor com caixas de chiclas sabor morango cada vez que la vou. Se fosse uma garrafa de azeite em vez da chicla, se calhar ate considerava a proposta. Nao sendo, continuo monogamica a pagar quase 10 euros o direito humano de fazer refogados.
Nao posso deixar de deixar aqui uma nota de orgulho com o resultado do referendo de ontem. Portugal foi noticia de destaque na BBC e na CNN nos ultimos 3 ou 4 dias, incluindo na introducao do telejornal onde a senhora diz as horas no(s) pais(es) em destaque: "it's 10 o'clock in Teheran; 7 o'clock in Lisbon. This is BBC news hour". Depois de transmitirem o tao esperado discurso do presidente do Irao no feriado da Revolucao Iraniana, passam para Portugal: mostram os anuncios do campo do "sim" e do do "nao" (todos muito dramaticos, devo dizer, e os do "nao" com a agravante de serem revoltantes) e entrevistam o Bloquista nato no Bairro alto a dizer que sim porque a lei abre a possibilidade da escolha individual e a Betinha da Lapa a dizer que nao porque e verdade que os abortos clandestinos sao um horror ta a ver, mas tambem nao se pode legalizar o infanticidio.
Devo dizer que ao ouvir isto fiquei bastante preocupada. Ainda nao caminhei muito na vida, mas lembro-me de 1998. E nessa altura os argumentos eram exactamente os mesmos.
Como tal, temi o pior.
Foi portanto um alivio ver que o "sim" ganhou e que hoje o destaque falava de como os Portugueses decidiram abolir uma das mais restritivas leis da Europa.
E um verdadeiro triunfo em termos de direitos humanos.
A outra razao e que tou farta de escrever coisas serias, perguntando-me a cada palavra que escrevo se deveria ou nao estar a escreve-la num blog. Chega.
Portanto vou falar do Shiraz. Shiraz e a mercearia onde me aprovisiono. O merceeiro, tendo o seu pedido de casamento falhado (malesh, ja sou casada. entao posso ser o teu segundo marido?), optou por exprimir os seu amor com caixas de chiclas sabor morango cada vez que la vou. Se fosse uma garrafa de azeite em vez da chicla, se calhar ate considerava a proposta. Nao sendo, continuo monogamica a pagar quase 10 euros o direito humano de fazer refogados.
Nao posso deixar de deixar aqui uma nota de orgulho com o resultado do referendo de ontem. Portugal foi noticia de destaque na BBC e na CNN nos ultimos 3 ou 4 dias, incluindo na introducao do telejornal onde a senhora diz as horas no(s) pais(es) em destaque: "it's 10 o'clock in Teheran; 7 o'clock in Lisbon. This is BBC news hour". Depois de transmitirem o tao esperado discurso do presidente do Irao no feriado da Revolucao Iraniana, passam para Portugal: mostram os anuncios do campo do "sim" e do do "nao" (todos muito dramaticos, devo dizer, e os do "nao" com a agravante de serem revoltantes) e entrevistam o Bloquista nato no Bairro alto a dizer que sim porque a lei abre a possibilidade da escolha individual e a Betinha da Lapa a dizer que nao porque e verdade que os abortos clandestinos sao um horror ta a ver, mas tambem nao se pode legalizar o infanticidio.
Devo dizer que ao ouvir isto fiquei bastante preocupada. Ainda nao caminhei muito na vida, mas lembro-me de 1998. E nessa altura os argumentos eram exactamente os mesmos.
Como tal, temi o pior.
Foi portanto um alivio ver que o "sim" ganhou e que hoje o destaque falava de como os Portugueses decidiram abolir uma das mais restritivas leis da Europa.
E um verdadeiro triunfo em termos de direitos humanos.
En route para outras bandas

Vou ser transferida temporariamente para Geneina (que fica ali tao a ver no mapa, perto da fronteira com o Tchade) para dar apoio ao nosso escritorio la que vai acolher novo pessoal recrutado de fresco.
Ja que la estou, vou passar algum tempo em Zalinge tambem (fica ali tao a ver a meio caminho entre Geneina e Nyala).
Zalinge e em Jebel Marra, o mais alto ponto do Darfur. E verde e e diferente, nem que seja porque e area controlada pelo SLA (rebeldes, alguns dos quais assinaram o "acordo de paz" de 2006).
Estou bastante aliviada, porque isto aqui ja me esta a dar a volta ao miolo, sempre os mesmos problemas e sempre a mesma aversao a controversia, sempre o mesmo nojo. Ao menos no West Darfur vai ser um nojo diferente.
Vou para a semana e fico la ate ir de R&R, dia 22.
Coisas sentidas
Amanha e sexta-feira, dia de sermao na mesquita , dia de mobilizacao popular, dia de manifestacao e para nos como tal: dia de isolamento. Temos instrucao de nao por o nariz fora de casa. Tambem... Nao e como se houvesse muito que fazer aqui.
Entretanto, a minha casa tornou-se um campo de refugiadas. Muitas mulheres que trabalham para ONGs nao se sentem em seguranca nas respectivas casas. Umas transferiram-se para Cartum temporariamente. Outras vieram bater a nossa porta, saco-cama, mochila as costas e pote de Nutella na mao - para alegrar a noite.
Esta semana, tivemos choro, riso, desespero, excitacao, denegacao, motivacao, impaciencia, exaustao... Tivemos a mulher Sudanesa, de veu na cabeca, cigarro na mao e riso de resignacao na boca a contar que estudou na Russia e que quando voltou para o Sudao, na altura do golpe de estado que pos o actual presidente onde ainda hoje esta, estava tao desfazada que levou tres meses para perceber o inferno em que se tinha vindo meter. E nessa altura ja era tarde demais para sair. Ou a mulher do Uganda a dizer, entre interjeicoes de indignacao e de riso "heh!" "iiih!", que uma das maneiras de evitar uma violacao no pais dela e comecar a contar o seu passado ao agressor. Dizer que de qualquer maneira a vida e dura. Que se esta cansada de tudo. Que se e viuva. Que se perdeu o marido por causa da SIDA...
Heh! A ver se ele nao se poe a correr a sete para bem longe! Iiiiih!
Tem sido uma semana intensa, mas uma semana em que pela primeira vez senti: "tenho que fazer isto" e em que pela primeira vez ouvi: "nao sei o que faria sem voces".
Entretanto, a minha casa tornou-se um campo de refugiadas. Muitas mulheres que trabalham para ONGs nao se sentem em seguranca nas respectivas casas. Umas transferiram-se para Cartum temporariamente. Outras vieram bater a nossa porta, saco-cama, mochila as costas e pote de Nutella na mao - para alegrar a noite.
Esta semana, tivemos choro, riso, desespero, excitacao, denegacao, motivacao, impaciencia, exaustao... Tivemos a mulher Sudanesa, de veu na cabeca, cigarro na mao e riso de resignacao na boca a contar que estudou na Russia e que quando voltou para o Sudao, na altura do golpe de estado que pos o actual presidente onde ainda hoje esta, estava tao desfazada que levou tres meses para perceber o inferno em que se tinha vindo meter. E nessa altura ja era tarde demais para sair. Ou a mulher do Uganda a dizer, entre interjeicoes de indignacao e de riso "heh!" "iiih!", que uma das maneiras de evitar uma violacao no pais dela e comecar a contar o seu passado ao agressor. Dizer que de qualquer maneira a vida e dura. Que se esta cansada de tudo. Que se e viuva. Que se perdeu o marido por causa da SIDA...
Heh! A ver se ele nao se poe a correr a sete para bem longe! Iiiiih!
Tem sido uma semana intensa, mas uma semana em que pela primeira vez senti: "tenho que fazer isto" e em que pela primeira vez ouvi: "nao sei o que faria sem voces".
Ja nao vale a pena esconder...
Darfur police 'assault UN staff'
By Jonah Fisher BBC News, Sudan
The United Nations says five of its staff have been assaulted by police in Sudan's Darfur region.
The UN workers were among 20 aid workers and African Union peacekeepers arrested by Sudanese authorities after a raid on a party at the weekend.
A statement from the UN said that some of their staff had suffered serious injuries and that it would protest officially to the Khartoum government. UN workers are providing vital aid in the conflict-hit region.
'Deeply concerned'
The Sudanese government has not intervened to protect Darfur's battered population from the brutal Janjaweed militia. But when aid workers, African Union peacekeepers and UN staff held a Friday night party in Nyala - Darfur's biggest town - it felt it had to step in. Sudanese police and security officers stormed the aid compound where the event was being held.
According to the UN, the 20 arrested people were physically and verbally assaulted with some seriously injured and needing medical treatment. A report on Sudan's state-owned television said the UN and African Union workers had been detained for misconduct, comparing it to allegations of sexual abuse which face peacekeepers in southern Sudan.
A statement from the United Nations said all the detainees had now been released, but it also said it was deeply concerned about the treatment of its staff and that the basic principles of rule of law had been violated.
Northern Sudan is governed by Islamic Sharia law which outlaws the drinking of alcohol. Its consumption by foreigners, within the privacy of their own homes, is usually tolerated.
Esta e uma descricao bastante fiel do que se passou a 10 metros da minha casa. So falta mencionar que a forca de intervencao contou com nao menos de 50 "policias", que as "serious injuries" incluiram agressoes sexuais, que a "firday night party" foi um almoco de colegas que se prolongou ate as 18h00 e que este incidente e muito mais que um incidente. E um teste aos tomates (perdoem a expressao) da comunidade humanitaria, que ate agora nunca tomou medidas drasticas apesar da deterioracao do conflito e das condicoes de seguranca em geral.
Desta vez, posso dizer-vos que nao cedemos a pressao, despertando a ira de quem orquestrou tudo isto. E agora vamos ter de nos aguentar a bronca, porque, uma vez lancada, esta estrategia so pode ser levada ate ao fim.
Pode ser que estes sejam os meus ultimos dias como Rule of Law Officer no Darfur, mas ironicamente, estao a ser os dias em que o meu trabalho tera sido mais relevante para a luta pelos principios da Rule of Law, isto pelos principios de um Estado de Direito.
By Jonah Fisher BBC News, Sudan
The United Nations says five of its staff have been assaulted by police in Sudan's Darfur region.
The UN workers were among 20 aid workers and African Union peacekeepers arrested by Sudanese authorities after a raid on a party at the weekend.
A statement from the UN said that some of their staff had suffered serious injuries and that it would protest officially to the Khartoum government. UN workers are providing vital aid in the conflict-hit region.
'Deeply concerned'
The Sudanese government has not intervened to protect Darfur's battered population from the brutal Janjaweed militia. But when aid workers, African Union peacekeepers and UN staff held a Friday night party in Nyala - Darfur's biggest town - it felt it had to step in. Sudanese police and security officers stormed the aid compound where the event was being held.
According to the UN, the 20 arrested people were physically and verbally assaulted with some seriously injured and needing medical treatment. A report on Sudan's state-owned television said the UN and African Union workers had been detained for misconduct, comparing it to allegations of sexual abuse which face peacekeepers in southern Sudan.
A statement from the United Nations said all the detainees had now been released, but it also said it was deeply concerned about the treatment of its staff and that the basic principles of rule of law had been violated.
Northern Sudan is governed by Islamic Sharia law which outlaws the drinking of alcohol. Its consumption by foreigners, within the privacy of their own homes, is usually tolerated.
Esta e uma descricao bastante fiel do que se passou a 10 metros da minha casa. So falta mencionar que a forca de intervencao contou com nao menos de 50 "policias", que as "serious injuries" incluiram agressoes sexuais, que a "firday night party" foi um almoco de colegas que se prolongou ate as 18h00 e que este incidente e muito mais que um incidente. E um teste aos tomates (perdoem a expressao) da comunidade humanitaria, que ate agora nunca tomou medidas drasticas apesar da deterioracao do conflito e das condicoes de seguranca em geral.
Desta vez, posso dizer-vos que nao cedemos a pressao, despertando a ira de quem orquestrou tudo isto. E agora vamos ter de nos aguentar a bronca, porque, uma vez lancada, esta estrategia so pode ser levada ate ao fim.
Pode ser que estes sejam os meus ultimos dias como Rule of Law Officer no Darfur, mas ironicamente, estao a ser os dias em que o meu trabalho tera sido mais relevante para a luta pelos principios da Rule of Law, isto pelos principios de um Estado de Direito.
Be-a-ba
Ontem tive a minha primeira licao de Arabe
missa revercse a rednerpa a uotsE
Com estas letras:

2007
Voltei para o 2007 real, apos 16 espectaculares dias de 2007 idilico. Nao e que passar duas semanas com o principe na Tanzania nao seja real, mas e... outra coisa.
Cada vez que nos separamos choro. Em bancos rancosos de aeroporto. A porta do taxi. Ao balcao do check-in. No lugar 22E depois de mandar o ultimo sms saudoso antes de desligar o aparelho electronico que pode interferir com os instrumentos de navegacao. O aviao descola e forma-se um no na minha garganta ao pensar que se o aviao cair acabou tudo.
Costumava sentir-me bem em aeroportos. Pequena, invejava uma amiga francesa que nos vinha visitar regularmente, com malas a cheirar a querosene e frias do ar fresco da atmosfera. Mais tarde o aeroporto era a ligacao com a minha casa so minha em Paris, ou, em sentido contrario, com pais, irmaos e amigos que ja nao via ha meses. Fosse a ida ou a vinda, sentia sempre uma excitacao. Hoje so a ida e que me da picos de adrenalina. A volta e uma verdadeira torutra.
Ao fim de algumas horas no aviao, o no na garganta vai-se desfazendo. Entro num estado de resignacao. Sinto-me adormecida, no sentido epidermico da palavra. Trabalho normalmente e vivo normalmente, mas nao me sinto inteira quando o aviao aterra.
Cada vez que nos separamos choro. Em bancos rancosos de aeroporto. A porta do taxi. Ao balcao do check-in. No lugar 22E depois de mandar o ultimo sms saudoso antes de desligar o aparelho electronico que pode interferir com os instrumentos de navegacao. O aviao descola e forma-se um no na minha garganta ao pensar que se o aviao cair acabou tudo.
Costumava sentir-me bem em aeroportos. Pequena, invejava uma amiga francesa que nos vinha visitar regularmente, com malas a cheirar a querosene e frias do ar fresco da atmosfera. Mais tarde o aeroporto era a ligacao com a minha casa so minha em Paris, ou, em sentido contrario, com pais, irmaos e amigos que ja nao via ha meses. Fosse a ida ou a vinda, sentia sempre uma excitacao. Hoje so a ida e que me da picos de adrenalina. A volta e uma verdadeira torutra.
Ao fim de algumas horas no aviao, o no na garganta vai-se desfazendo. Entro num estado de resignacao. Sinto-me adormecida, no sentido epidermico da palavra. Trabalho normalmente e vivo normalmente, mas nao me sinto inteira quando o aviao aterra.
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