Direita: direito, reivindicação, nemesis política
Humana: ego, compaixão, imperfeição
Verão em Berlim
Ontem, ainda Agosto era, ligámos os aquecedores em todas as divisões do apartamento.
Já parti um guarda-chuva por causa da força do vento e ando de casaco comprido e cachecol na rua. Quando a chuva abranda e pego na bicicleta fico com frieiras nas mãos porque não pus luvas e no outro dia desci o mais fundo que uma Sul-Europeia pode descer: fui a um Sun Studio apanhar raios de sol sintéticos numa espécie de nave espacial. Após ter superado o medo de estar ali deitada debaixo de raios UV, devo dizer que até relaxei e me imaginei no Algarve. Ao fim de alguns minutos comecei a sentir a pele da cara a esticar, como quando se volta para casa depois da praia, e fiquei contente com a vida em geral e a minha em particular. Não se vê grande bronze, mas foram 5 € bem utilizados porque me salvaram do suicídio.
Não obstante, independentemente dos progressos do sistema de raios UV, prometo aqui solenemente nunca mas nunca criar filhos num país do Norte.
A bolha
De manhã consulto todos os jornais e documentos disponíveis online para tentar perceber o que se vai passando no Darfur. Leio que ataques contra civis e pessoal humanitário aumentaram drasticamente, que crianças estão a ser recrutadas para o combate, que Khartoum está a concentrar tropas no Norte e Oeste da região, que o mandato da União Africana expira a 30 de Setembro e ninguém sabe o que vai acontecer depois, que o exercito de Khartoum vai combater a força da ONU se esta algum dia puser os pés no Darfur.
De tarde entrevisto potenciais DJs, revejo menus de alta gastronomia, preparo cartões para lugares, faço provas de vestido de noiva, faço desporto para perder alguns quilos, percorro sapatarias e considero dar ou não dar 400€ por um bolo.
Estou neste momento a viver em duas bolhas, duas vidas que têm os seus próprios ritmos mas que evoluem em vácuo, em circuito fechado, tendo como horizonte uns quantos meses aqui e uns quantos meses ali.
Preciso superar a tentação da esquizofrenia do meio-dia.
De tarde entrevisto potenciais DJs, revejo menus de alta gastronomia, preparo cartões para lugares, faço provas de vestido de noiva, faço desporto para perder alguns quilos, percorro sapatarias e considero dar ou não dar 400€ por um bolo.
Estou neste momento a viver em duas bolhas, duas vidas que têm os seus próprios ritmos mas que evoluem em vácuo, em circuito fechado, tendo como horizonte uns quantos meses aqui e uns quantos meses ali.
Preciso superar a tentação da esquizofrenia do meio-dia.
A minha padaria

Os habitués deste blog já conhecem a minha paderia aqui de Berlim, gerida por uma família de motoqueiros tatuados com cara de maus que vende os melhores pães e croissants do bairro e que não assusta as crianças.
Pois bem, a família de padeiros foi de férias e deixou este delicioso cartaz à porta. Reproduz a foto que têm lá dentro em formato mega mega-gigante e a cores.
Para verem que não exagerei na descrição!
Adaptação
Parte da readaptação à civilização é habituar-me a andar na rua de saia curta e T-shirt curta sem me sentir nua, dar a mão ao príncipe em público sem me sentir julgada, ouvir sinos de igreja e não sermões de minaretes, poder comprar natas frescas e água tónica em qualquer lado e beber uma jola no café da esquina.
E é também continuar a sentir-me estrangeira e embarassada por não conseguir exprimir-me com a senhora do supermercado, com o senhor dos jornais e com a padeira (coisa que estranhamente não acontecia com o Arabe).
E mais fácil viver com a barreira cultural e linguística do Sudão do que com a de Berlim. Lá, sou diferente de qualquer maneira, faça o que fizer. Aqui estou integrada numa aparência de normalidade em que me sinto muito mais isolada e autista.
Talvez o investimento que fiz ontem em livros de exercícios de Alemão nível B-1 traga frutos.
E é também continuar a sentir-me estrangeira e embarassada por não conseguir exprimir-me com a senhora do supermercado, com o senhor dos jornais e com a padeira (coisa que estranhamente não acontecia com o Arabe).
E mais fácil viver com a barreira cultural e linguística do Sudão do que com a de Berlim. Lá, sou diferente de qualquer maneira, faça o que fizer. Aqui estou integrada numa aparência de normalidade em que me sinto muito mais isolada e autista.
Talvez o investimento que fiz ontem em livros de exercícios de Alemão nível B-1 traga frutos.
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