Atmosfera em Khartoum


10.000 pessoas marcharam pelas ruas de Khartoum ontem a protestar contra a possivel transformacao da Missao da Uniao Africana no Darfur numa Missao das Nacoes Unidas (capacetes azuis).

O que e o Darfur?
O conflito no Darfur (Oeste do Sudao) subiu de escala em 2003, com a formacao de 2 grupos rebeldes (um de inspiracao islamica outro nao) que pegaram em armas para combater a excessiva centralizacao de poder dos dirigentes de Khartoum.

Khartoum respondeu apoiando milicias arabes armadas, deslocando-se a cavalo ou em jipes, para atacar rebeldes e civis. Sao os chamados janjaweed ("diabos a cavalo"). Os ataques desenrolavam-se muitas vezes logo a seguir a raides aereos das forcas governamentais, que preparavam o terreno.

Nao e uma guerra de independencia, como entre o Sul e o Norte. Nao e tao pouco um conflito inter-religioso, sendo que grande parte da populacao do Darfur e muculmana.
E um conflito relacionado com representatividade e reparticao de riquezas entre centro e periferia com um pano de fundo racista arabes vs. negros (O Sudao foi durante seculos uma plataforma de trafico de escravos - negros - e o negocio era liderado pos Arabes).

Em Abril de 2004 foi assinado um cessar-fogo entre rebeldes e forcas governamentais e centenas de soldados de varios paises Africanos foram mandados para o Darfur sob o comando da Uniao Africana. O mandato destas tropas e a supervisao do cessar-fogo enquanto ciclos consecutivos de negociacoes de paz se vao desenrolando na Nigeria (Abuja).

A violencia no entanto nao parou, sobretudo com a aparicao de divisoes internas nos grupos rebeldes. Ataques contra civis continuam a acontecer por parte dos rebeldes, das forcas governamentais, dos janjaweed, e da propria policia e a populacao vive aterrorizada. Milhares de pessoas comecaram a atravessar a fronteira do Tchade e o Tchade nao esta nada contente. As principais vitimas sao mulheres, porque grande parte da violencia no Darfur e de caracter sexual.

Porque capacetes azuis?
E a primeira vez que a Uniao Africana se implica numa accao desta envergadura, e as capacidades financeiras e operacionais desta organizacao sao limitadas.

Dai a ideia de transferir o comando das tropas para as Nacoes Unidas, que tem mais experiencia e mais recursos para tal operacao. Os soldados seriam os mesmos, Africanos, so que vestidos com uniformes com o logo da ONU.

Mas o governo (inlcuindo os ministros oriundos do Sul, que combateram uma guerra civil contra as autoridades centrais de Khartoum durante 30 anos) esta contra, por achar que e uma ingerencia nos assuntos internos do Sudao.

E agora Senhoras e Senhores: um rol de absurdidades e desenvolvimentos perigosos:
- assimilacao das Nacoes Unidas aos Estados Unidos (embora os EUA tenham dito que nem mortos contribuiriam com tropas para uma missao da ONU no Darfur)
- assimilacao do Sudao ao Iraque (uma missao das Nacoes Unidas deste tipo implica o acordo do Sudao, por isso nunca seria uma invasao)
- ameacas de morte ao representante da ONU no Sudao
- apelos a Jihad contra todos os interesses Ocidentais
Tudo isto e instigado pelo governo. A manifestacao de ontem foi adiada tres vezes, porque o governo precisou de algum tempo para requisitar camioes e autocarros para transportar "manifestantes" para o centro de Khartoum.

Vai dai, o Sudao esta indubitavelmente no bom caminho:
Com efeito, estas manifestacoes ocorre num pais que:

1) e o maior beneficiario de ajuda humanitaria e de ajuda ao desenvolvimento do mundo e que depende dessa ajuda para construir infrastruturas basicas e comecar a retirar beneficios do petroleo que tem.

2) acabou, no entanto, de adoptar uma lei que obriga todas as ONGs a pedirem autorizacao ao governo antes de receberem quaisquer fundos, especialmente se forem fundos estrangeiros.

3) daqui a 5 anos sera dividido em 2, por causa do referendo que se realizara no Sul.

4) tem uma superficie gigantesca, com varias regioes perifericas para alem do Darfur que se sentem igualmente excluidas, por exemplo a zona Este, na fronteira com a Etiopia e a Eritreia.
Zona de onde o governo acabou de expulsar as duas unicas ONGs que la trabalhavam, gracas as quais cerca de 50.000 pessoas tinham acesso a agua, alimentos e medicamentos.


Estamos portanto todos optimistas.

Ali Farka Toure

Morreu o homem do blues Maliano, que tanto tem embalado as nossas noites em Khartoum.

http://mali-music.com/Cat/CatA/AFT/AFTBioA.htm

Para quando um novo Primeiro Dia?

A principio e simples...
fico entusiasmada porque vou para longe, ando que nem durmo, so falo disso chateio o miolo ao interlocutor.

Chego e ando na excitacao total por ter conseguido apanhar um rickshaw sem me perder e por ter negociado o preco do kilo de tomate ao senhor ali da venda.

Comeco a conhecer os colegas, a ler montes de coisas, comeco a ir a reunioes, a fazer telefonemas, a redigir umas coisas.


Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo...
chega uma fase de acalmia e percebo que tudo o que ando a fazer e aquilo que vem a cabeca de fazer, nao algo que o escritorio precise. Para eles tanto se lhes da. Ficam muito agradecidos com qualquer iniciativa, mas se ela nao vier tambem nao faz mal. Ainda para mais, houve uma reorganizacao aqui e o meu novo chefe acha que "os direitos humanos ocupam demasiado lugar na Seccao Politica". Que e onde me puseram. De maneira que ando para aqui sem nenhum incentivo, a fazer coisas ad-hoc.


Diz-se do passado que esta moribundo....
Bonito. 6 anos a estudar e uma divida ao banco para isto.


O que quer dizer que estou pronta para sair daqui assim que aparecer outra oportunidade onde:
1) nao seja estagiaria
2) os direitos humanos nao sejam uma questao marginal
3) me usem para alguma coisa que faca sentido

Porque aqui:
Estou a perder tempo.

Por isso:
Accionei a minha rede de contactos

E agora:
E cruzar os dedos, para que amanha ou depois de amanha ou depois de depois de amanha ou qualquer dia proximo seja o primeiro dia do resto da minha vida.


Esta sou eu e a Emilia, e atras de nos: o Nilo.

O principe e o fotografo.

O Nilo


Este fim de semana fizemos um passeio no Nilo, num barco-rectangulo, com mais gente da Delegacong. Disseram-nos que havia um DJ a bordo. Mas o DJ a bordo so passava Rod Stewart em versao Pan Pipe (sabem aquelas flautas lindas e melodiosas, tocadas as vezes por indios sulamericanos nas ruas da Baixa? Sao essas mesmo).

Mas ao longo do caminho, o que vimos foi isto. Mesquitas e mais mesquitas (aquela torre ali e uma), casas de lama mais casas de lama. O que nao se ve e o cheiro intenso de lixo queimado. Os locais passam o dia a queimar lixo dentro daquelas casas de lama. Minha nossa senhora.